Conheço pessoalmente um dos diretores e sei de sua competência enquanto observador engajado da produção brasileira contemporânea, e, portanto, mesmo sem conhecer os detalhes de seu projeto, intuí que a sua sensibilidade seria evidente naquilo que salta aos olhos no belíssimo cartaz. Porém, trata-se de um exercício de aprendizado coletivo, de cariz universitário, no qual as ambições "autorais" de um ou outro devem ser administradas em prol da realização conjunta, e isso fica evidente na versão do filme à qual tive acesso, ainda não definitivamente finalizada: deparei-me com problemas de ajuste imagético e sonoro, além da impressão de que, muitas vezes, as partes se sobressaem em relação ao todo. Mas os aspectos dignos de elogio (e arrebatamento) estão lá, a começar pelo roteiro, que tem muito a ver comigo no modo como retroalimenta um platonismo quase persecutório e a crença no apoio definido concedido pelos amigos (vide a importância acertada de um aquário em determinado momento da narrativa). Neste sentido, o curta-metragem evoca os melhores aspectos de filmes como MORTE EM VENEZA ou O PESCADOR DE ILUSÕES, na maneira como apresenta-nos a um protagonista que, em seu múltiplo deslocamento (nos dois sentidos do termo), queda obcecado por um dançarino, que fascina a câmera, sempre que está em cena. Achei as seqüências de dança maravilhosas, bem como o apuro fotográfico, metalinguisticamente apreciável, em razão de o personagem principal ser um fotógrafo: é como se ele tivesse sido responsável pelos registros imagéticos que o circundam, configurando uma demonstração de extrema sensibilidade por parte dos envolvidos no projeto. Como de praxe nas ficções cinematográficas sergipanas, o problema mais difícil de ser enfrentado é a busca pelo tom preciso nas interpretações, que costumam sem impregnadas por cacoetes teatrais. É o caso aqui, mais uma vez, de modo que os diálogos não possuem a naturalidade necessária (o que é prejudicado adicionalmente pelos truísmos contidos nalgumas das conversas, como naquela em que se reclama que os patrões não se importam com o bem-estar de seus empregados...). Ainda assim, os realizadores insistem em fazer com que nos solidarizemos, identifiquemos e torçamos pelos "encontros" do protagonista em relação àquilo que talvez o faça se sentir pertencente à cidade onde vive, magistralmente fotografada, ressaltamos: os ângulos de Aracaju mostrados no filme são maravilhosos, ora fazendo com que reconheçamos de imediato alguns locais, ora ampliando a potência cênica de outros, composicionalmente transformados ao serem enquadrados (vide o 'travelling' no bar). O modo como a canção "Mágica", da banda Calcinha Preta, direciona as reviravoltas do enredo é outro aspecto que merece elogio, sendo exigível que a mesma esteja destacada nos créditos finais, o que não ocorreu na cópia a que assisti. Em verdade, fica-se evidente que há melhorias ainda em curso, seja na edição de imagens, seja nos ajustes sonoros propriamente ditos, mas, do jeito que está, mesmo com as suas imperfeições actanciais, o filme faz jus ao título, dotando de muito charme e desejo a necessidade de entregarmo-nos a aquilo que nos seduz. Amei os instantes em que diversos figurantes conhecidos interagem através de movimentos expandidos de câmera, numa praia. Saí da sessão satisfeito - ou melhor, consciente de que, após finalizado, este filme ficará ainda melhor! (WPC>)
Conheço pessoalmente um dos diretores e sei de sua competência enquanto observador engajado da produção brasileira contemporânea, e, portanto, mesmo sem conhecer os detalhes de seu projeto, intuí que a sua sensibilidade seria evidente naquilo que salta aos olhos no belíssimo cartaz. Porém, trata-se de um exercício de aprendizado coletivo, de cariz universitário, no qual as ambições "autorais" de um ou outro devem ser administradas em prol da realização conjunta, e isso fica evidente na versão do filme à qual tive acesso, ainda não definitivamente finalizada: deparei-me com problemas de ajuste imagético e sonoro, além da impressão de que, muitas vezes, as partes se sobressaem em relação ao todo. Mas os aspectos dignos de elogio (e arrebatamento) estão lá, a começar pelo roteiro, que tem muito a ver comigo no modo como retroalimenta um platonismo quase persecutório e a crença no apoio definido concedido pelos amigos (vide a importância acertada de um aquário em determinado momento da narrativa). Neste sentido, o curta-metragem evoca os melhores aspectos de filmes como MORTE EM VENEZA ou O PESCADOR DE ILUSÕES, na maneira como apresenta-nos a um protagonista que, em seu múltiplo deslocamento (nos dois sentidos do termo), queda obcecado por um dançarino, que fascina a câmera, sempre que está em cena. Achei as seqüências de dança maravilhosas, bem como o apuro fotográfico, metalinguisticamente apreciável, em razão de o personagem principal ser um fotógrafo: é como se ele tivesse sido responsável pelos registros imagéticos que o circundam, configurando uma demonstração de extrema sensibilidade por parte dos envolvidos no projeto. Como de praxe nas ficções cinematográficas sergipanas, o problema mais difícil de ser enfrentado é a busca pelo tom preciso nas interpretações, que costumam sem impregnadas por cacoetes teatrais. É o caso aqui, mais uma vez, de modo que os diálogos não possuem a naturalidade necessária (o que é prejudicado adicionalmente pelos truísmos contidos nalgumas das conversas, como naquela em que se reclama que os patrões não se importam com o bem-estar de seus empregados...). Ainda assim, os realizadores insistem em fazer com que nos solidarizemos, identifiquemos e torçamos pelos "encontros" do protagonista em relação àquilo que talvez o faça se sentir pertencente à cidade onde vive, magistralmente fotografada, ressaltamos: os ângulos de Aracaju mostrados no filme são maravilhosos, ora fazendo com que reconheçamos de imediato alguns locais, ora ampliando a potência cênica de outros, composicionalmente transformados ao serem enquadrados (vide o 'travelling' no bar). O modo como a canção "Mágica", da banda Calcinha Preta, direciona as reviravoltas do enredo é outro aspecto que merece elogio, sendo exigível que a mesma esteja destacada nos créditos finais, o que não ocorreu na cópia a que assisti. Em verdade, fica-se evidente que há melhorias ainda em curso, seja na edição de imagens, seja nos ajustes sonoros propriamente ditos, mas, do jeito que está, mesmo com as suas imperfeições actanciais, o filme faz jus ao título, dotando de muito charme e desejo a necessidade de entregarmo-nos a aquilo que nos seduz. Amei os instantes em que diversos figurantes conhecidos interagem através de movimentos expandidos de câmera, numa praia. Saí da sessão satisfeito - ou melhor, consciente de que, após finalizado, este filme ficará ainda melhor! (WPC>)