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Data de lançamento
12 Set. 2009Duração
Marido de Elise e pai de três filhos, Nemo Nobody leva uma vida comum ao lado de sua família. Ele acorda no ano de 2092 e agora, com 118 anos, é o último mortal em um planeta de seres humanos imortais. As suas preocupações, contudo, envolvem outras questões, como o que aconteceu durante a passagem de tempo e se viveu sua vida como gostaria.
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Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita
Filme favorito! Nemo Nobody.
Larguei aos 42 minutos...
20/07/26 (inglês)
Tem Alguns Spoilers...
1984, num país qualquer, numa plataforma de trem, está Nemo Nobody, um menino. Ele precisa fazer uma escolha: ficar com o pai ou com a mãe. O trem está chegando e Nemo precisa tomar uma decisão rápida: ele corre e pega o trem com a mãe, ou fica na estação com o pai?
A história de "Senhor Ninguém" acontece nos segundos antes dessa decisão. Nemo tem a capacidade de prever o futuro de todas as escolhas que fizer, e o que assistimos na tela são as linhas do tempo paralelas de todas as vidas possíveis que ele viveria dependendo de cada caminho. A história se divide em grupos de três, mostrando o personagem criança, adolescente e adulto, com três trajetórias diferentes e relacionamentos amorosos com três mulheres distintas. Tudo em realidades diferentes e acontecimentos singulares. Com o Nemo adulto, vivido por Jared Leto, o filme apresenta várias versões de si mesmo em vidas cheias de dor, traumas e tristeza.
Jared Leto interpreta várias versões do mesmo personagem com pequenas mudanças de personalidade, postura e comportamento. Cada Nemo de outra realidade parece diferente do outro, mesmo sendo o mesmo homem. Isso é algo genial para um ator; é uma atuação difícil de se realizar porque ele nunca exagera. Apenas altera pequenos gestos, olhares e o jeito de falar, fazendo com que cada linha do tempo possua uma alma própria — fisicamente gêmea no aspecto estético, mas ímpar se você olhar o Nemo por dentro.
Se Nemo escolhesse ir com a mãe para o Canadá, ele conheceria a Anna (Juno Temple na adolescência e Diane Kruger na vida adulta), onde viveria uma vida cheia de alegria, mas também muito dolorosa. Eles se apaixonam na adolescência, mas são separados pelo destino, fazendo com que ele passe a vida inteira esperando por ela na chuva, por ter perdido o número de seu telefone por causa de uma única gota d'água. É o romance raiz.
Se ele ficasse com o pai, se apaixonaria por Elise (Sarah Polley), vivendo uma vida triste e um amor trágico. Elise ama outro cara, mas Nemo insiste e se casa com ela. Ela acaba caindo em uma depressão profunda, chorando na cama, destruindo o casamento e sua própria vida, morrendo em um acidente de carro logo após o matrimônio. É o drama clássico. Sarah Polley entrega talvez a atuação mais dolorosa do filme. Sua Elise não é apenas uma mulher triste, mas alguém consumida pela dor e pela depressão. O sofrimento dela é mostrado sem romantização, transformando essa linha do tempo na mais pesada emocionalmente. Nemo passa a vida tentando salvá-la, mas acaba descobrindo que existem dores que o amor, sozinho, não consegue curar.
Mas na realidade dessa adolescência, deprimido e com o coração quebrado, ele começa a escrever um livro de ficção científica para esquecer a dor que sentia. No livro que escreve, Nemo viaja pra Marte e conhece uma mulher grávida que é justamente a Anna. Isso mostra que, mesmo quando ele está escrevendo para superar a rejeição da Elise, seu subconsciente viaja lá para o futuro, em outra dimensão, para reencontrar a Anna, que é o verdadeiro amor de sua vida. Nessa viagem espacial, ele morre quando a nave é atingida por uma chuva de meteoros. Mas por que a nave foi atingida? O filme mostra isso no futuro, com o próprio Nemo contando sua história: ele solta um suspiro bobo, causando um efeito borboleta entre as dimensões, onde esse evento chega até a nave, mostrando que tudo e todos estão conectados.
Em outra linha de tempo, Nemo vive frustrado por ser rejeitado pela Elise, fazendo uma promessa de que irá se casar com a primeira garota que dançar com ele na pista. A escolhida é Jeanne (Linh Dan Pham). Nessa realidade, ele fica rico, mora numa mansão com piscina, tem carros de luxo, mas não sente absolutamente nada por ela. Vive uma vida quase robótica e entediada, até ser assassinado por engano em um hotel por causa de uma confusão de nomes.
Mas isso são apenas lembranças. Lembranças de um homem velho, do último homem mortal do planeta Terra. Estamos em 2092, e Nemo está com 118 anos. É justamente aí que o filme começa a brincar com a gente. Durante boa parte da história, nunca sabemos se Nemo está realmente lembrando, imaginando, inventando ou vivendo todas aquelas possibilidades. Jaco Van Dormael faz questão de manter essa dúvida na nossa cabeça até o último minuto do filme, tornando absolutamente impossível separar memória, imaginação e realidade. E, talvez, essa resposta nem sequer exista.
Sem adaptar de lugar algum, Jaco Van Dormael criou uma história que é uma pérola. Ele costurou física quântica, psicologia, teoria das cordas e dimensões paralelas em uma história de amor brilhante que atravessa o tempo e suas realidades. Apesar de utilizar esses conceitos da física, o filme nunca tenta dar uma aula de ciência. Essa abordagem, por mais que seja inteligentíssima, funciona muito mais como metáfora para falar sobre escolhas, destino, arrependimento e as infinitas possibilidades da vida. O interesse do diretor não é dar aula e nem provar teorias científicas, mas provocar reflexões filosóficas que se encaixam na vida real do personagem, fazendo um espelho íntimo na nossa.
O que impressiona é a forma como o diretor transforma ideias extremamente complexas em imagens simples, mas emocionantes. Mesmo falando sobre tempo, universo e livre-arbítrio, ele nunca perde de vista o lado humano da história. A adolescência de Nemo parece ser o coração do filme, mostrando que, no fundo, toda essa grandiosidade científica existe apenas para contar uma história de amor, perda e escolhas.
A prova disso está na cena que mostra que o fato de um operário na China cozinhar um ovo pode mudar a pressão atmosférica e fazer chover no Brasil meses depois, onde justamente as gotas de água daquela chuva borram o papel com o telefone da Anna no bolso do Nemo. Isso é uma poesia científica, mostrando que tudo acontece ao mesmo tempo; a vida em uma dimensão vibra em outra. Tudo está ligado, e por isso todas as vidas de Nemo são reais, nenhuma é fruto de mera imaginação. Nem a do seu livro.
E para acabar com a nossa cabeça, Jaco Van Dormael, como um bruxo, solta a teoria da Entropia e da Flecha do Tempo, com a pergunta clássica: por que o tempo só anda para a frente?
"Se você misturar o purê de batata e o molho, não pode separá-los depois. É para sempre. A fumaça que sai do cigarro do papai nunca volta para dentro. Nós não podemos voltar atrás. É por isso que é tão difícil escolher."
O diretor coloca isso de forma decisiva no filme e brinca no seu desfecho com relação à teoria do Big Crunch, que diz que quando a expansão do universo cessa, o tempo começa a andar para trás e tudo volta a se conectar de novo.
Visualmente, "Senhor Ninguém" é um espetáculo. Cada linha do tempo possui uma identidade própria através das cores, da iluminação e da fotografia. Existem mundos quentes, cheios de vida, enquanto outros parecem frios e melancólicos. A direção de arte nos ajuda a reconhecer cada realidade sem precisar explicar tudo em palavras. A montagem inicialmente parece caótica, mas aos poucos percebemos que essa confusão é proposital, pois estamos dentro da própria mente de Nemo, tentando separar lembranças, possibilidades e desejos
No final, na Terra de 2092, à beira da morte, um jornalista pergunta para o Nemo de 118 anos: "Mas qual dessas vidas foi a de verdade? Qual era o Nemo real?". E o velho responde com a maior sacada do filme:
"Todas elas são reais. Todo caminho é o certo. Tudo poderia ter sido qualquer outra coisa e seria igualmente importante."
O Nemo de 9 anos na plataforma de trem, percebendo que qualquer escolha traria dores, tragédias e vazios, encontra uma quarta opção: ele não escolhe nem o pai e nem a mãe. Ele joga uma folha ao vento, corre por um terceiro caminho nas linhas tortas de mundos e vidas mostradas nos trilhos do trem, e inventa o seu próprio destino.
Talvez seja por isso que "Senhor Ninguém" continue sendo um filme tão especial. Ele não fala apenas sobre universos paralelos; ele fala sobre algo que todos nós enfrentamos em nossas vidas: o medo de escolher. Cada decisão abre uma porta e fecha milhares de outras. Nunca saberemos como teria sido a vida se tivéssemos seguido outro caminho. E talvez seja justamente esse mistério que torna a jornada tão fascinante.
"Você precisa fazer a escolha certa. Enquanto não escolhe, tudo permanece possível."
Essa frase guia não é uma resposta definitiva, mas um convite do Universo para que a gente possa descobrir a vida e ser mais feliz.
Obra-prima.
Bem legal