Noroît, o filme mais estranho de Jacques Rivette e talvez o último suspiro da linhagem modernista entre L'Amour Fou e Celine et Julie vont en Bateau. Trata-se de uma aventura inquietante e violenta de uma mulher pirata (filmado em alguns dos mesmos locais utilizados para a filmagem de "Os Vikings" e inspirado em parte por "Moonfleet" de Lang), porém sem lugar ou época específicos. Fantasia mitológica, tragédia jacobina além de música improvisada ao vivo por um trio talentoso de músicos, e psicodrama pessoal.
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As vestimentas, a teatralidade e a musicalidade no "ao vivo" das cenas: massa demais. Porém, dez anos de filme cara, pra que isso?
Inspirado no romance "A Tragédia do Vingador" de Thomas Middleton, Noroeste é um arroubo inventivo de desconstrução dos padrões habituais de construção fílmica de som e imagem, quebrando relações de continuidade, convertendo personagens a conceitos reduzidos, e cruzando diversas referências palpáveis da cultura popular e erudita em um elemento singular, pós-moderno. O que se vê é um mundo de leis (ou falta delas) próprias, fechado e quase impenetrável de significação imediata, mas paradoxalmente apresentado em grande parte em planos abertos de magníficas paisagens naturais. Como em outros filmes do diretor, se sobressaem as personagens femininas, o uso da pantomima, a relação real/representação, mas o filme vai além quando alcança os vinte minutos finais em desvario fascinante e memorável.
Já faz um certo tempo que não vou com a cara do cinema de Rivette e este é mais um exemplar de um cinema cheio de vazios , poucas ideias e uma falta notória de conteúdo travestido de filme de arte. Para um filme teatral as atuações (exceto a de Geraldine Chaplin) são no mínimo desastrosas. Penso que só a trilha sonora se salve.
A sonoplastia revelada em cada canto da cena, a potência teatral de cada passo, o flerte decisivo com a dança moderna e o incrível cuidado com cada olhar fazem desse filme uma coreografia inquietante, ao mesmo tempo moderna e vetusta.
A sequência final com aquele incrível baile de máscaras ao ar livre, com uma coreografia tão bela e pungente, com a constante retomada em flashback de cenas anteriores reformuladas com o filtro vermelho, o destaque de cada cena imediata, que muda para um filtro PB que funciona como zoom, me deixaram de queixo caído. O encerramente shakesperiano é a cereja do bolo.