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Duração
“Se você não se identifica com o lugar em que nasceu e de alguma forma cria sobre isso, me escreve” – o anúncio de Letícia Simões nos classificados de um jornal possibilita encontros com as histórias de seis artistas radicados em Berlim. Temas como identidade, território e imigração perpassam as vivências compartilhadas com a realizadora de “Casa” (Olhar ’19) e “O Chalé É Uma Ilha Batida de Vento e Chuva” (Olhar ’17). Com sua interlocução andarilha, a diretora elabora fusões de diferentes mundos, inspirando uma acolhedora sensação de impermanência.
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Quando li esta sinopse, tremi de receio: como moro há 38 anos no mesmo lugar, pressenti que seria "atacado" pelas falas sobre não -pertencimento do filme (respeitando as questões identitárias dos entrevistados, claro). Dito e feito: a fala inicial do Karim Aïnouz é extremamente pernóstica e repleta de elementos que dão a impressão de quem está "cuspindo no prato que comeu" (não cita o Rio de Janeiro quando elenca a cidades em que filmou, por exemplo). A diretora/narradora e o segundo entrevistado possuem características petracostianas, de modo que, na primeira meia-hora, sempre que alguém falava em "poesia", eu entendia "usurpação" (ou algo parecido). Os instantes de apropriação cultural alheia como suporte discursivo são inúmeros, como se este filme fosse uma cartilha de apreciação para os "jovens místicos". Aí surge o terceiro entrevistado, um holandês muito consciente de seus privilégios artísticos e de classe. A quarta entrevistada sequer quis falar: preferiu tocar um instrumento musical e pediu que falassem por ela. O filme começou a crescer, a tornar concreto o que estava preso a um tipo de abstração um tanto dondoca - não obstante ser artisticamente reconhecível. A quinta entrevistada, uma escritora (a)niilista que ressignificou o seu estupro adolescente me deixou encantada, o que confirmou com a sexta presença, da poderosa Pêdra do Solange, Tô Aberta. Quando ela começa a passar batom no ânus (como eu fiz tantas vezes quando criança, tentando beijar as paredes e deixar a minha "marca" pessoal), eu gemi. Ufa! Minha mãe ficou super entediada - e eu compreendo - mas poderia ser bem pior: há um diálogo proposto, para além de monólogos de luxo como "tem gente que tem obsessão por gatos. Eu tenho por ilhas" ou "por isso que os estrangeiros têm a pele grossa". Aham! (WPC>)