Dirigido por
Duração
Um filme em 3 partes: inferno, purgatório e paraíso. No inferno, imagens da guerra. Aviões, tanques e navios, explosões, execuções, populações em fuga, campos e cidades devastados. Imagens silenciosas, quatro frases, quatro peças musicais. No purgatório, a cidade de Sarajevo contemporânea, martirizada como tantas outras. Personagens reais e imaginários. Uma visita à ponte de Mostar enquanto ela é reconstruída representa a passagem da culpa ao perdão. No paraíso, uma jovem mulher, que vimos no purgatório, encontra paz à beira d'água, em uma pequena praia guardada por fuzileiros navais norte-americanos.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Sou fã do homem mas essa fase dele são como uma piada interna.
Um clarão no meio da tempestade. O caos cosmo de um humanismo destruído, fragmentado a verdejar na aurora da linguagem cinematográfica. Quando se espraia o esgarçar da história e sua rubra tinta a partitura da película revolve ser e memória, possível e impossível, real e imaginário. Nuances destroçadas na fratura do inferno, purgatório, paraíso. Um exercício pleno, puro, múltiplo da beleza e da dor de tudo isso que nos escapa e nos move. Aquilo que nos humaniza no reverso de uma consciência estilhaçada e brilhante entre os escombros de nós mesmos.
Não captei, desculpa genthy!!! Gostei não, fica pra próxima!!
"-Por que a revolução não é feita pelos homens mais humanos?
-Por que os homens mais humanos não fazem revoluções, senhorita. Eles fazem bibliotecas.
- E cemitérios."
.
"Matar um homem para defender uma ideia, não é defender uma ideia. É matar um homem."
.
"Quando tudo termina, nada mais é como antes. A violência ... a violência deixa marcas profundas. O ultraje do extermínio é indelével. A confiança no mundo que o terror aniquila é irrecuperável. Ver o próximo se voltar contra você gera um sentimento de horror incrustado na pele para sempre. A violência rompeu a linha da vida. O sobrevivente não é só outro, ele é um outro. A regra é sobreviver. O pesadelo será de quem ficar pelo caminho. Cada um é perigoso para o outro. O corpo é uma arma em potencial."
.
"Quem age nunca tem a capacidade de contar ou pensar adequadamente sobre o que fez. Inversamente, quem conta ou compõe versos não sabe do que fala. Pense em Mao Tsé-Tung."
.
"O mundo em que vivemos necessita desesperadamente, para subsistir da existência de pessoas pacíficas e de poetas como Valente Jorge San Malino."
.
"Se nossa época alcançou uma interminável força de destruição é preciso fazer uma revolução que crie uma indeterminável força de criação que fortaleça as lembranças, que delineie os sonhos que materialize as imagens."
.
"A luz é o primeiro animal visível do invisível."
"- Mahmoud Darwich, você escreveu que aquele que escreve sua história herda a terra dessas palavras. E quando você diz que não há mais espaço para Homero e que você tenta ser o poeta dos troianos e ama os vencidos, você começa a falar como um judeu!
-Hoje em dia isso é bem visto. A verdade sempre tem duas faces. Nós ouvimos a voz da vítima troiana pela boca do grego Eurípedes. Troia não contou sua história. Um povo ou um país que tem grandes poetas terá o direito de vencer um povo que não tem poetas? Pode um povo ser forte sem escrever poesia? Eu sou filho de um povo não reconhecido até pouco tempo atrás e quero falar em nome dos ausentes, em nome do poeta de Troia. Há mais inspiração e riqueza humana na derrota do que na vitória. Se eu pertencesse ao partido dos vencedores participaria das manifestações de solidariedade pelas vítimas."
.
"Se o comunismo alguma vez existiu? Sim. O comunismo existiu uma vez por dois tempos de 45 minutos quando o Honved, de Budapeste, derrotou a Inglaterra por 6 a 3. Os ingleses jogaram individualmente, e os húngaros, em equipe."
.
"Dizem que a linguagem faz um recorte arbitrário dos objetos na realidade. Dizem isso como se nós fôssemos os culpados."
.
"Campo e contracampo são expressões bem conhecidas do cinema."
.
"Por exemplo: em 1948, os israelitas entram na água rumo à Terra Prometida. Os palestinos entram na água rumo ao afogamento. Campo e contracampo. Campo e contracampo. O povo judeu se torna ficção. O povo palestino, documentário."
.
"Elsinore: o real
Hamlete: o imaginário
Campo e contracampo
Imaginário: certeza
Real: incerteza
O princípio do cinema: ir até a luz e apontá-la para a nossa noite. Nossa música."
.
"A relação entre mim e o outro não é simétrica. A princípio, pouco me importa o que é o outro em relação a mim. É problema dele. Para mim, inicialmente, ele é aquele por quem sou responsável: aqui, um muçulmano e um croata. 'Somos todos culpados de tudo e de todos e eumais do que os outros'."
.
"O estado de nossa pobreza é preciso. A paisagem tem muito arame farpado, o céu está rubro de explosões. Já que esta ruína não poupou a própria noção de cultura é preciso ter coragem de dispensá-la. É preciso se virar com pouco. Quando a casa já está em chamas, é absurdo querer salvar móveis. Se há uma chance a ser agarrada, é a dos derrotados."
.
"Sim, como estava lhe dizendo somos incapazes de nos libertar. E chamamos isso de democracia. Para Claude Lefort, as democracias modernas por terem instituído a política como atividade intelectual distinta as democracias modernas predispõem ao totalitarismo."
.
"A vida é uma luta pela existência com a certeza da derrota. Sem conceder a si mesmo um pouco de cinismo é quase insuportável ouvir vítimas sem sentir raiva ou asco pelo ponto a que chegaram conosco ou apesar de nós. Por isso damos voz às vítimas. Por isso todos são convidados a se expressar como vítimas.
- O mundo hoje se divide entre aqueles que se apressam a manifestar sua desgraça e aqueles para quem essa demonstração pública fornece a dose de conforto moral por sua dominação.
- Fala-se muito da chave do problema, mas nunca da fechadura.
- O que vemos diante de nós é uma história sem pensamento, como se herdada duma vontade impossível. Mais do que nunca, sem dúvida, estamos diante do nada."
O filme de Goddard se vale de uma montagem poderosa e esse controle acaba inflingindo uma dose ficcional de considerável proporção. A participação de atores profissionais e preocupação com a misce-en-scene quase que subjulgam o trabalho documental a uma ficção por excelência, caso todo o aparato não fosse apenas voltado para tornar visível um estado do real. Segundo teóricos, o documentário seria a representação do real, exposto a constrangimentos e imerso nas regras do jogo social. Como o real não é de todo filmável, o que um filme alcança – ele documentário ou ficção – é a representação. Nesse sentido, o documentário só poderia ser construído em fricção com o mundo. Neste âmbito Goddard nos implica a uma força romanticista em um chamado de forças criativas que energiza a memória, dá clareza aos sonhos e substancia as imagens. Neste discurso para dar poder ao real, Goddard explica em uma cena que ‘os judeus são matéria para ficções e os palestinos para documentários.’ Outra dimensão desse realismo é seu aspecto fragmentário, a construção não-linear é uma das marcas de Nossa Música. Algumas cenas do filme não formam um todo coerente, por meio das quais seria possível identificar o encadeamento da “história”. Numa seqüência, somos apresentados a uma biblioteca com aspecto de um prédio em ruínas, onde os livros são amontoados no chão. O lugar é cheio de simbolismo. A biblioteca guarda o lugar da cultura, e o fato de ela estar destruída pode ser visto como o emblema do que uma guerra pode produzir. Outro fato do que nos afasta da ficção e nos aproxima de um texto do real é a reunião de personagens e de discursos beira do surreal, quando um grupo de indígenas norte-americanos aparece para falar sobre as injustiças de sua história. Mais do que a importância de todos esses eventos para o encadeamento totalizante da história, o que é relevante é como o filme constrói uma reflexão, servindo-se de discursos vários sobre a realidade. Segundo Camolli ‘como espectador nunca esqueço que estou separado da cena, também nunca deixo de querer abolir este corte por um transporte fusional que me transportaria na tela para me colocar apesar de tudo no centro da cena. Não estar ali para ali estar. Não acreditar para acreditar ainda um pouco. Esta coisa e seu contrario. Este estado e sua negação. Este lugar e sua ausência.”