Após lutar na Guerra Civil, o índio Lance Poole (Robert Taylor) retorna para a terra de seu povo. Ele descobre que os indígenas estão sendo perseguidos, graças às maquinações de um vil advogado, Verne Coolan (Louis Calhern), que faz tudo de forma legal, mas não justa. Incapaz de usar a lei para proteger os índios, Lance é visto como um renegado.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Raça e determinação foram as armas dos indios
Este western protagonizado por Robert Taylor, faz parte da lista do Filmow, "Filmes raros ou esquecidos". Traz a luta da tribo Shoshone na defesa de suas terras, contra os brancos e contra as leis da época. O orgulho da raça em defender seu território é o ponto alto do filme.
Belo western que discorre especialmente pela questão racial e de quanto a Lei americana afastou os índios americanos de seus direitos. Penso que o trecho final do confronto em si não conseguiu atingir o ápice deste produção que guarda seus melhores momentos na tensão pré-confronto.
Dos westerns que já vi, esse tem uma das mais lindas fotografias e enquadramentos. E aqui os indíos não são os vilões, algo que é bem pouco mostrado nesses filmes. Anthony Mann ainda lançou mais dois filmes nesse mesmo ano, que diretor! Só não dou nota máxima por ter caído um pouco na reta final.
Nos matinês da minha infância, quando a cavalaria dos EUA aparecia para matar os índios, a criançada começava a berrar e bater com os pés no piso que era feito de tábua. O projecionista precisava acender as luzes da sala de cinema para conter a explosão de euforia. Meus maiores ídolos naqueles bons tempos eram vaqueiros analfabetos que mascavam fumo, cuspiam no chão, davam murros na cara dos outros e matavam sem dó e sem piedade. A palavra cowboy dava charme a esse personagem bronco, chucro, abrutalhado e grosseiro. John Wayne era a encarnação do cowboy machão. Ao chegar à vida adulta, fiquei sabendo que esse ator era um grande reacionário que defendia o macarthismo. Ele denunciou colegas de Hollywood para a lista negra de comunistas e se orgulhava muito disso.
A formação acadêmica me permitiu apagar, em parte, as marcas da colonização cultural. Digo “em parte” porque as marcas gravadas na infância são indeléveis, não podem ser apagadas integralmente. Por isso, continuo gostando de faroeste.
Para o etnólogo estadunidense Ward Churchill, da Universidade do Colorado, o extermínio de povos indígenas na América do Norte foi "um colossal genocídio, o mais prolongado já registrado pela humanidade". Alguns números falam no extermínio de 95% dos 114 milhões de indígenas dos Estados Unidos e do Canadá. A limpeza étnica era uma política oficial do governo americano. Forte Apache foi mítica nessa tarefa. Em termos de comparação, o holocausto nazista dizimou cerca de seis milhões de judeus. Os sobreviventes do holocausto indígena foram forçados a abandonar a sua língua, a sua religião e os seus costumes. A perda da identidade cultural levou esses sobreviventes ao suicídio e à violência. Buffalo Bill, meu herói de infância, foi um dos caçadores que mataram milhões de búfalos e levaram os índios à fome e ao desespero. Jamais imaginei que os meus mitos e heróis de infância tivessem essa conotação suja e sangrenta.
Marlon Brando foi corajoso ao denunciar este genocídio.
Felizmente, alguns cineastas como Anthony Mann também tiveram a coragem de revelar um pequeno fragmento do colossal genocídio. O Caminho do Diabo mostra que existia na base do extermínio não só interesses econômicos e políticos mas muito preconceito e ódio contra os povos que já habitavam o território americano milhares de anos antes da chegada dos europeus.
Neste belo faroeste de Mann, a jovem advogada O. Masters tenta negociar um acordo para evitar o confronto entre índios e brancos. Ela demonstra afeição por Lance Poole, o índio da tribo Shoshone condecorado com a Medalha de Honra do Congresso por atos de bravura durante a Guerra Civil. Numa cena, nos braços de Poole, a bela advogada demonstra o desejo de ser beijada pelo índio Shoshone. Se o beijo tivesse acontecido, não sei como o público estadunidense, puritano ao extremo naquela época, reagiria.
Mesmo sem o beijo, o filme foi ignorado pelos críticos de cinema e repudiado pelo público, certamente por colocar um índio como herói num faroeste.