Uma típica família de classe média recebe a inesperada visita de um homem dizendo ser o tio da mulher. A suspeita com a qual recebem o suposto tio logo desaparece, uma vez que ele lhes narra relatos curiosos de suas viagens, que se confrontam com a visão de mundo da classe média.
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Sob o pretexto de apresentar uma comédia brilhante, irônica e engraçada podemos vislumbrar a urgência de Satyajit Ray para se comunicar por meio do protagonista, o tio que de repente retorna à família pequeno-burguesa de um funcionário do Estado, uma mensagem antimodernista, veiada por um sarcasmo amargo, de fortes e violentas críticas à sociedade de seu país e ao modo de vida ocidental em voga nas classes mais médias superiores. O último filme do diretor bengalês, que morreria um ano depois de terminá-lo, Agantuk é uma espécie de testamento ideológico inconsciente escrito de forma poética, que lega aos jovens de seu tempo a esperança de um possível retorno aos valores antigos, aos costumes dos antepassados, representados no canto da neta da protagonista, que usa um sari em contraste com seu marido burocrata de terno e gravata, e na dança tradicional das mulheres, representada em uma das últimas sequências, contra a barbárie da modernidade. A discussão, portanto, vai além de uma certa globalização cultural, ou da força econômica que a escolha possa provocar; há, sem dúvida, uma discussão do encontro de culturas, da mistura possível e não possível, mas tendo por horizonte que o encontro de diferentes altera a ambos, e não somente a uma das partes desse encontro. A polêmica vai tão longe quanto a negação do progresso como uma evolução cultural e assim o protagonista celebra o bisão pintado nas cavernas de Altamira como uma expressão inatingível da arte pictórica e exalta a vida tribal trazendo-a como um exemplo de verdadeira civilização em comparação com a atual, caracterizada por enormes disparidades sociais, pela pobreza de grandes fatias da população, mesmo na opulenta dos Estados Unidos, protótipo da sociedade do bem-estar, pela disseminação de drogas letais entre os jovens e pela possível destruição global por alguns homens que detêm o poder da vida e da morte sobre a humanidade por meio da ameaça de armas atômicas. Em 2022, isso é mais que coincidência...O nomadismo, encarnado emblematicamente pela personagem principal, viajante incansável, é indicado como a única forma de salvação para escapar antropologicamente da ordem estabelecida e repressiva típica das sociedades sedentárias desde o início. O filme é marcado por esse realismo lírico que distinguiu o trabalho dos grandes poetas de celuloide do século XX, independentemente da nacionalidade, latitude e contexto social, que reproduziu a vida cotidiana com aquele minimalismo de De Sica e Zavattini, Ozu e Kiarostami, capazes de representar com a melancolia suave da elegia o sofrimento existencial do homem moderno contando pequenas histórias de pessoas comuns. Comentário a partir do site www.mymovies.it - carloalberto!
Todo mundo deveria ter um tio desses na família.
''Dê luz aos cegos, vida aos moribundos.
Quem dará luz? Quem dará a vida?
O problema é que é extremamente difícil, acreditar em um Deus benevolente hoje em dia.''
Texto impecável e atuações idem (inclusive, se ainda não foi, acho que seria uma excelente ideia adaptar "O Estrangeiro" para o teatro...). Em termos cinematográficos, também é brilhante. Direção muito precisa e original. Cenário simples e bonito. Fotografia e movimentos de câmera criativos, mas sem exageros. Enfim, é um belo filme! Sutil e despretensioso. Entrou para os meus favoritos.
Uma hora. É o tempo limite que esse filme tinha pra dizer tudo o que precisava.