A série de Vladimir Bortko é uma ótima adaptação do livro de Dostoiévski - extremamente fiel ao romance, tanto na sua narrativa, na caracterização dos personagens e nos diálogos. Eu a recomendaria facilmente para qualquer um que se interesse pela história (embora recomende muito mais a leitura do livro). Apenas algumas poucas coisas não me agradaram, como alguns atores que não me convenceram tanto (aquela não é a Aglaia Ivanovna Iepantchina!) ou a trilha sonora um pouco repetitiva. Mas não acho que isso prejudique a alta qualidade da série. Contudo, eu queria ressaltar um detalhe importantíssimo do livro: a epilepsia do herói, o príncipe Míchkin (cuja pronúncia em russo é "Kniás Muíchkin", como tive o prazer de descobrir na série). Esse personagem encarna o tipo psicológico de Jesus Cristo ou de Dom Quixote (ou do "Cavaleiro Pobre" do poema de Púchkin, recitado por Aglaia), e possui traços de um visionário (no sentido religioso do termo). Esses aspectos são fundamentais na representação do personagem ora como um "idiota-aparente", ora como um "aparente-idiota" - uma pessoa deslocada na sociedade por uma aparente limitação psicológica que é, na verdade, o mais alto desenvolvimento moral possível. Embora isso esteja certamente presente na série (caso contrário, esta seria uma péssima adaptação do livro), fica ausente a dimensão visionário da psicologia de Míchkin, que é construída por sua condição de epiléptico. Seus ataques o levam a uma intensificação da experiência da vida no instante em que ainda está no limiar entre a sanidade e o ataque propriamente dito. Isso é descrito assim em certa passagem especialmente marcante do livro: "(...) esses instantes eram, justamente, só uma intensificação extraordinária da autoconsciência - caso fosse necessário exprimir esse estado por uma palavra -, da autoconsciência e ao mesmo tempo da autossensação do imediato no mais alto grau. Se naquele segundo, isto é, no mais derradeiro momento de consciência perante o ataque ele arranjasse tempo para dizer com clareza e consciência a si mesmo: "sim, por esse instante pode-se dar a vida toda!" - então, é claro, esse momento em si valia a vida toda." [DOSTOIÉVSKI, F. O Idiota (trad. de P. Bezerra). São Paulo: Ed. 34, 2002, p. 264]. Esses instantes de clareza visionária aproximam Míchkin da condição do condenado a morte que, segundo seu relato, nos derradeiros minutos antes da execução teve uma visão redentora da "vida infinita" (aliás, a pena do condenado teria sido comutada no ultimo minuto, o que é uma referência a uma experiência similar vivida pelo próprio Dostoiévski). É assim que Míchkin encarna o tipo psicológico do homem mais moralmente desenvolvido: ele não parece idiota apenas por ser "certinho" numa sociedade mesquinha; ele é "certinho" porque, de fato, têm experiências visionárias que ampliam sua consciência da vida e seu amor compassivo pelos próximos, mas que são engendradas pelos ataques de epilepsia que o deixam idiota. Naturalmente, esse traço psicológico do personagem é construído por Dostoiévski através de seus típicos (e geniais) monólogos internos, quase contraditórios, do personagem consigo mesmo - que seriam ridiculamente difíceis de representar visualmente sem o texto. Mas enfim... como eu disse antes: eu gostei da série e a recomendo, mas recomendo muitíssimo mais o livro do velho Dostô ;-) Boa sessão e/ou leitura!
01/2021
Experimente ver a película Hakuchi, de Akira Kurosawa, é fascinante, alem do mérito de ser só um belo filme..., e não uma série...
A série de Vladimir Bortko é uma ótima adaptação do livro de Dostoiévski - extremamente fiel ao romance, tanto na sua narrativa, na caracterização dos personagens e nos diálogos. Eu a recomendaria facilmente para qualquer um que se interesse pela história (embora recomende muito mais a leitura do livro). Apenas algumas poucas coisas não me agradaram, como alguns atores que não me convenceram tanto (aquela não é a Aglaia Ivanovna Iepantchina!) ou a trilha sonora um pouco repetitiva. Mas não acho que isso prejudique a alta qualidade da série. Contudo, eu queria ressaltar um detalhe importantíssimo do livro: a epilepsia do herói, o príncipe Míchkin (cuja pronúncia em russo é "Kniás Muíchkin", como tive o prazer de descobrir na série).
Esse personagem encarna o tipo psicológico de Jesus Cristo ou de Dom Quixote (ou do "Cavaleiro Pobre" do poema de Púchkin, recitado por Aglaia), e possui traços de um visionário (no sentido religioso do termo). Esses aspectos são fundamentais na representação do personagem ora como um "idiota-aparente", ora como um "aparente-idiota" - uma pessoa deslocada na sociedade por uma aparente limitação psicológica que é, na verdade, o mais alto desenvolvimento moral possível. Embora isso esteja certamente presente na série (caso contrário, esta seria uma péssima adaptação do livro), fica ausente a dimensão visionário da psicologia de Míchkin, que é construída por sua condição de epiléptico.
Seus ataques o levam a uma intensificação da experiência da vida no instante em que ainda está no limiar entre a sanidade e o ataque propriamente dito. Isso é descrito assim em certa passagem especialmente marcante do livro: "(...) esses instantes eram, justamente, só uma intensificação extraordinária da autoconsciência - caso fosse necessário exprimir esse estado por uma palavra -, da autoconsciência e ao mesmo tempo da autossensação do imediato no mais alto grau. Se naquele segundo, isto é, no mais derradeiro momento de consciência perante o ataque ele arranjasse tempo para dizer com clareza e consciência a si mesmo: "sim, por esse instante pode-se dar a vida toda!" - então, é claro, esse momento em si valia a vida toda." [DOSTOIÉVSKI, F. O Idiota (trad. de P. Bezerra). São Paulo: Ed. 34, 2002, p. 264]. Esses instantes de clareza visionária aproximam Míchkin da condição do condenado a morte que, segundo seu relato, nos derradeiros minutos antes da execução teve uma visão redentora da "vida infinita" (aliás, a pena do condenado teria sido comutada no ultimo minuto, o que é uma referência a uma experiência similar vivida pelo próprio Dostoiévski).
É assim que Míchkin encarna o tipo psicológico do homem mais moralmente desenvolvido: ele não parece idiota apenas por ser "certinho" numa sociedade mesquinha; ele é "certinho" porque, de fato, têm experiências visionárias que ampliam sua consciência da vida e seu amor compassivo pelos próximos, mas que são engendradas pelos ataques de epilepsia que o deixam idiota.
Naturalmente, esse traço psicológico do personagem é construído por Dostoiévski através de seus típicos (e geniais) monólogos internos, quase contraditórios, do personagem consigo mesmo - que seriam ridiculamente difíceis de representar visualmente sem o texto. Mas enfim... como eu disse antes: eu gostei da série e a recomendo, mas recomendo muitíssimo mais o livro do velho Dostô ;-)
Boa sessão e/ou leitura!
Estou no episódio 4, mas desde já me encontro sem fôlego com tamanho espetáculo. Uma adaptação poderosa.
De Vladimir Bortko assisti O Mestre e Margarida, que achei muito bom.
O Idiota deve ter ficado esplêndido.