Terceira parte da tetralogia de Aleksandr Sokurov, seguindo Molokh e Taurus.
Em 15 de agosto de 1945, os japoneses ouvem pela primeira vez a voz de seu imperador, que exorta seu exército e seu povo a pôr fim às hostilidades. Isso permite aos norte-americanos desembarcar nas ilhas japonesas sem encontrar resistência e ajuda a salvar muitas vidas. Os vencedores exigem que o imperador compareça diante do general McArthur, comandante das tropas americanas no Pacífico sul, onde será finalmente decidido se o imperador serão decididos o futuro do Japão e do próprio imperador.
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Talvez por ter perdido o restante da trilogia ou talvez pela minha falta de paciência com a temática de guerra, confesso que assisti com muito pouco afinco e atenção, alguns diálogos são bem realizados, mas no geral meu sentimento foi de monotonia extrema.
Um olhar ocidental (russo) sobre a sociedade japonesa centrada na figura do imperador Hiroito e sua "divindade" e como os japoneses viam essa "divindade" e como os americanos a entenderam.
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Terceiro e até então melhor filme da tetralogia do poder do Sokurov (acho difícil comparar com o Fausto). Aqui ele consegue a dose certa de vida particular e vida política. Além disso o filme aborda um momento chave na história (como bem retratou o Carlos abaixo), quando o deus se torna homem.
O peso de ser um grande comandante. O peso de ser o comandante que sabidamente vai tirar do eixo a história de grandes nações. O diretor russo Aleksandr Sokurov tentou dar a sua visão desse “peso” em seus filmes penetrando avidamente na vida de alguns dos maiores comandantes do século XX, procurando retratá-los em sua intimidade no intuito de desmistificá-los. Em Moloch (1999) retrata a visita de Adolph Hitler à Eva Braun nos Alpes da Bavaria. Em Taurus (2001) mostra os últimos momentos de Lênin antes de sua morte ao lado apenas de sua mulher. Em O Sol (2005), retrata os últimos momentos do Imperador Hiroíto antes de assumir a rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial. Neste último, Sokurov consegue atingir de forma literal essa desmistificação.
O Imperador Hiroíto seguia a mesma escola de seu avô e pensava o Japão como um país moderno, militarista e principalmente, imperialista. Procurou conquistar todo o Pacífico, foi censurado pelo Tratado de Versalhes apesar do Japão ter apoiado França e Inglaterra na I Guerra. Em retaliação, mesmo sem identificação ideológica alguma com o nazifascismo (até alienada reconhecendo que nunca conheceu pessoalmente Adolph Hitler), aliou-se ao Eixo na II Guerra para prosseguir em suas conquistas no Pacífico. Em 1941, atacou a base americana de Pearl Habor no Hawai e o resto todo mundo já sabe. O Eixo perde a guerra e o Japão é arrasado com duas bombas nucleares. É aí que entramos em agosto de 1945, momento crucial da vida de Hiroíto e motivo do filme de Sokurov.
Os americanos já dominavam o Japão e pediam a rendição japonesa. O Japão, em 2600 anos de História, nunca havia perdido uma guerra. Como assinar essa rendição? E pior, desde a formação da família imperial japonesa há 2600 anos, o Imperador do Japão era considerado uma divindade; um descedente direto da deusa xinto do sol, Amaterasu Oomi Kami e os americanos exigiam que Hiroíto renegasse seu caráter divino. Eram 2600 anos de História nos ombros de Hiroíto; 2600 anos para derrubar no chão e esquecer. Somado a isso, o peso das duas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.
É esse turbilhão na cabeça de Hiroíto que Sokurov brilhantemente retrata em seu filme O Sol (2005). Os últimos momentos de Hiroíto antes de se render, antes de negar que é descendente de uma deusa, antes de balançar toda a história da nação japonesa. Hiroíto brinca com seu o mordomo, questionado o porquê de seus corpos serem iguais se ele era um deus, Hiroíto tem tiques na face que nos deixam nervosos (excelente atuação do ator Issei Ogata), Hiroíto vai ao seu laboratório de biologia como se não houvesse uma guerra recém-perdida, Hiroíto tem pesadelos com as bombas de Hiroshima e Nagasaki, Hiroíto vai ao encontro do general Macarthur e vê uma Tóquio destruída pela guerra, o temido encontro com Macarthur. Com todas essas ações filmadas sob a expectativa de uma catarse, o filme de Sokurov nos inquieta e nos faz querer entrar em Hiroíto e ver toda a situação com seus olhos. Ser Hiroíto e sentir e compartilhar o peso da História nos ombros como Hiroíto sentiu.
Há duas cenas belíssima que deveriam entrar para a História do Cinema. A primeira é o final do encontro de Hiroíto com Macarthur onde Hiroíto para sair tem que abrir a porta. E ele não sabe abrir pois isso era feito (entre outras coisas, como, por exemplo, vestir-se) pelos seus criados. Era seu primeiro contato com seu caráter humano. A segunda é a cena dentro dos aposentos de Hiroíto,com a lua ao fundo, e Hiroíto está sentado na cadeira. O que estaria pensando? Estaria convecendo a si próprio que realmente não era divino? Ao final, balança na cadeira como se fosse uma criança. Havia descoberto sua humanidade. Escreve a carta, se rende e nega o seu caráter divino. É a desmistificação literal que Sokurov buscava: o que era deus se torna homem.