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O filme trata de inúmeras questões a respeito das posições políticas anticapitalistas, mas principalmente, de questões sobre a ideologia das composições do cinema que são antecipadamente consideradas "naturais", como a junção da imagem e do som, através de um grupo de pessoas que supostamente fará um filme. Glauber Rocha parti- cipa de uma pequena cena do filme. Ele se encontra em uma encruzilhada, quando é abordado por uma mulher grávida que pergunta o caminho do cinema político. Glauber então aponta para o "cinema perigoso, divino e maravilhoso".
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Os filmes do Grupo Dziga Vertov são raros e extremamente dificieis de achar. Circularam clandestinamente, de forma muito limitada, durante algum tempo. Porém, parte da mística em torno dos filmes do grupo e parte da razão de sua obscuridade é que eles são difíceis, desagradáveis e totalmente terríveis. Este filme, "O Vento do Leste", por exemplo, só é bem avaliado aqui. Por isso, às vezes eu fico pensando se as pessoas deste site realmente assistem aos filmes que avaliam, ou se simplesmente veem o nome do diretor- "Ah, é um Godard!"- e julgam baseados neste critério.
Luz, câmera, marxismo, revolução
ponto alto do filme: glauber rocha cantando é preciso estar atento e forte e depois falando "cinema perigoso, divino maravilhoso"
O interessante deste filme é que ele está longe de ser panfletário. Pelo contrário, propõe uma reflexão sobre o cinema "militante", um cinema que deve se perguntar constantemente por que? contra quem? o que fazer?, a que servem estes sons e imagens?, sem deixar de lado as contradições inerentes à própria revolução, isto é, ao filme em si. Uma verdadeira aula não deve trazer respostas.
Glauber Rocha na encruza, apontando os caminhos... ah!
Realizado há meio século (1970) pelo Grupo Dziga Vertov, O Vento do Leste é um filme atemporal. Trata-se de uma obra que busca "combater o conceito burguês da representação, arrancar os meios de produção das garras da ideologia dominante." Para tanto, propõe uma série de reflexões que vão além do cinema e da sua produção: falam abertamente sobre a necessidade da formação de um criticismo/senso crítico (muito mais do que uma mera crítica - no sentido de opinião, seja "especializada", seja despretensiosa).
Duas citações ao longo do filme se coadunam numa relação não necessariamente de causa-efeito, mas como uma explanação da temática debatida, voltando-se, neste caso, especificamente para a sétima arte (sobre o seu papel artístico-ideológico em contrapartida ao seu uso comercial, que trabalha em prol da disseminação e massificação de estereótipos e conceitos propostos pelos detentores da mídia). Ambas as citações podem, inclusive, ser resumidas na emblemática cena que traz Glauber Rocha em uma encruzilhada cantando uma música de Caetano Veloso (famosa na voz de Gal Costa): "É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte." O cineasta ali se encontra de modo a sinalizar que caminho leva a que tipo de cinema (ou que caminho é percorrido para se chegar a determinado tipo de cinema): de um lado, o cinema desconhecido, o cinema da aventura; de outro, o cinema perigoso, divino e maravilhoso.
A primeira delas discorre sobre os intuitos da grande mídia com suas produções:
"Hollywood se apresenta como cinema, maravilha, sonho. Um sonho que se deve pagar para assistir. Mas esse sonho também é uma arma nas mãos de Hollywood.
Hollywood faz acreditar que esse sonho é real, mais real que a própria realidade. Hollywood fará de tudo para você acreditar nisso. Hollywood quer que você acredite que a imagem de um cavalo é um cavalo e que a imagem de um cavalo é mais real que um cavalo, o que não é. Para alcançar esse fim, todos os meios são aceitáveis: figurinos, maquiagem, travestismo, representação.
Todos os anos, Hollywood condecora os melhores diretores do mundo. O jogo continua. A imagem imperialista da realidade se passa como se fosse a própria realidade."
A segunda dessas citações aponta a direção (como Glauber na encruzilhada) para os cineastas que pretendem fazer mais do que entretenimento, não fomentando os ideais dominantes, e sim realizar um trabalho em prol da luta contra o imperialismo e seus valores:
"Você sabe que não existe cinema fora do sistema de classes, não existe cinema fora da luta de classes.
Mas o que significa isso? Significa que a potência material dominante da sociedade, a classe dominante, também cria as imagens dominantes de e para os seus filmes. São imagens de sua dominação.
Você está em luta, mas em que consiste essa luta? Você faz um filme. Faz imagens e sons. O que deve ser feito? Você tem os meios à sua disposição.
O que fazer para evitar a criação de imagens e sons que vêm da dominação da classe dominante? Sim, o que fazer? Ousar saber de onde partir. Onde você está?"