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Duração
A filha de uma militante política traída e executada, um policial, uma defensora da pena de morte, um ex-preso político, pais que perderam seus filhos e uma enfermeira que lida diariamente com o resultado da violência são alguns dos personagens que se confrontam nesta reflexão sobre os mecanismos da justiça e as possibilidades de resgate das culpas e dívidas de várias gerações. Fantasmas da ditadura, posições antagônicas sobre responsabilidade, ética e punição e os próprios ritos, tanto dos tribunais como da tragédia grega, são passados no fio da navalha, num processo em que a objetividade se procura, mas escapa.
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Não sei descrever melhor do que o próprio Aristóteles:
"A trama [de uma tragédia] deve ser estruturada [...] de modo que faça com que aquele que escuta o desenrolar dos acontecimentos estremeça de medo e se compadeça ante o que acontece: isto é o que se experimenta ao escutar a trama de Édipo."
E aqui, a de Orestes, símbolo de tantas outras tragédias que percorrem o documentário.
Um filmaço, mesmo, de estremecer e compadecer.
Eu diria "quase".
Acho Orestes muito feliz em caracterizar a existência da violência na sociedade como uma linha de força para instauração e destruição de grupos, significados, indivíduos, locais, momentos históricos; e as imagens do urubu - que não à toa abrem o filme - e do helicóptero - que a ressoam - dão a pista desta interpretação. Assim, a aproximação entre pessoas distintas marcadas por momentos distintos, mas unidas pelo Estado como vetor de violência, é feliz na construção de uma visão de campo que indica como a história se constrói como um discurso de ressonância, aproximação e distanciamento - com significado sempre em jogo.
Creio, contudo, que o experimento potencialmente muito interessante - ressoando Coutinho sim, mas também o visionário Salaam Cinema - não consegue dar conta de explorar a multiplicidade de narrativas em jogo ali: há pessoas que pouco falam, cujas histórias são mera presença espectral, em detrimento de outras que têm o direito da profundidade e da contradição: gostaria de ouvir muito mais, de saber muito mais sobre os pais daqueles assassinados pela PM, sobre a defensora da pena de morte - cujos poucos momentos de complexidade certamente são o melhor que o filme tem a oferecer -, sobre os juízes e promotores. Se isso incorresse em 1h a mais de filme, não haveria nenhum problema, só haveria ganhos.
Para além disso, também sinto pouca profundidade na abordagem feita do sistema penal - que não é uma abordagem, afinal, mas mera suspensão do local de enunciação: o que significa uma corte, um juri, um juiz em um país cuja principal função tem sido assassinar? Como simplesmente expor um julgamento como se fora fruto de um lugar e um tempo descolados de qualquer contexto? Colocar uma perspectiva crítica sobre aquele lugar de enunciação é uma chance perdida mesmo dentro da leitura de Orestes, o grego, como parábola, já que passa por ali o horizonte crítico da obra.
Enfim, permanece o brilho da ideia e os acertos de execução - abertura e fechamento trágicos são incontestavelmente valiosos - assim como um apontamento para um cinema interessado naquilo que o atravessa e ultrapassa. Há nisso grande valor.
Esta provocação é absolutamente pertinente ao atual momento em que vivemos, quando o passado insiste em ser presente e o presente se recusa a olhar para frente. Inspirado na tragédia grega de Orestes, usa linguagem documental, dramaturgia e psicodrama para suscitar a reflexão de pontos essenciais das mentes tragadas pelo senso comum, sobretudo as que acreditam no "tem que matar" como forma imediata e única de resolver problemas de ordens muito maiores. Não deixe de ver e de pensar.
Achei o filme confuso e fantasioso. As cenas de psicodrama muito chatas. Verborragia em alto grau. Se tivesse focado apenas na morte de Soledad e seus desdobramentos teria ficado mais interessante.
Discussão incrível