Que o ostinato vá pro título mostra o interesse de Paula na repetição, algo de presença muito forte em seu outro novo filme, Hace o camino ao andar. Arrigo explica sobre o ostinato numa série. A série na dodecafonia é pra evitar a repetição, a poralização, o centro. Ao usar o ostinato, portanto, ele se diferencia dessa música frequentemente associada a ele e se aproxima da música popular. Daí a ideia do Arrigo, que ele repete ainda uma vez, de que sua música é um erudito-popular.
Mais um filme muito falado sobre um músico, ainda que não seja uma biografia. Arrigo já atuara com Paula e sua câmera é muito próxima dele. Quando fala de Beethoven, é curioso ver como ele próprio se parece com o autor de A Grande Fuga , uma peça-pensamento, segundo o próprio Arrigo, que diz isso após se levantar do piano, em que encostava a cabeça num misto de cansaço e de escuta atenta ao que a diretora fala numa conversa em que o confronta, sem qualquer agressividade, mas que soa como uma abordagem inesperada e fornece um outro filme na segunda parte do documentário.
Paula, que é uma cineasta muito sonora, chega a expor sua relação com a música nessa fala que se contrapõe a do Arrigo, e em algum momento do papo arremessa sobre ele uma declamação de um texto do Benjamin na voz do próprio Arrigo.
Não há nada de deselegante no diálogo entre os dois, muito pelo contrário. Se nessa segunda parte vemos Arrigo se propor a improvisar ao piano, Paula o conduz a uma improvisação no campo do pensamento.
O título faz menções às repetições, muito requeridas na produção musical do entrevistado e validadas pelas citações schoenberguianas do início. Por alguns momentos, parece um documentário mais convencional, de montagem de conversas - por elas mesmas, valiosíssimas. Porém, não estamos no terreno de uma "cineasta de invenção" por acaso: Paula Gaitán também serve-se de repetições, que funcionam como circunlóquios em defesa da resistência política, a partir da própria existência da Arte. Além de ter envelhecido muito bem em termos físicos (Arrigo Barnabé segue muito bonito), ele demonstra uma consciência política invejável, explicitada em sua definição mui particular da "música erudita popular", subgênero do qual faz parte. A execução do "Canto dos Vagalumes" é um dos píncaros instrumentais deste filme, que estende-se para além da sua duração, visto que o debate que segue ruminado em nossas mentes tem a ver com a proposta dialogística da diretora. Mais que um filme-processo, um processo também extra-fílmico. Quando Arrigo sai nas ruas, sentimos falta da máscara, o que justifica-se nos créditos finais: as filmagens ocorreram em 2018. Maravilhoso! (WPC>)
Que o ostinato vá pro título mostra o interesse de Paula na repetição, algo de presença muito forte em seu outro novo filme, Hace o camino ao andar. Arrigo explica sobre o ostinato numa série. A série na dodecafonia é pra evitar a repetição, a poralização, o centro. Ao usar o ostinato, portanto, ele se diferencia dessa música frequentemente associada a ele e se aproxima da música popular. Daí a ideia do Arrigo, que ele repete ainda uma vez, de que sua música é um erudito-popular.
Mais um filme muito falado sobre um músico, ainda que não seja uma biografia. Arrigo já atuara com Paula e sua câmera é muito próxima dele. Quando fala de Beethoven, é curioso ver como ele próprio se parece com o autor de A Grande Fuga , uma peça-pensamento, segundo o próprio Arrigo, que diz isso após se levantar do piano, em que encostava a cabeça num misto de cansaço e de escuta atenta ao que a diretora fala numa conversa em que o confronta, sem qualquer agressividade, mas que soa como uma abordagem inesperada e fornece um outro filme na segunda parte do documentário.
Paula, que é uma cineasta muito sonora, chega a expor sua relação com a música nessa fala que se contrapõe a do Arrigo, e em algum momento do papo arremessa sobre ele uma declamação de um texto do Benjamin na voz do próprio Arrigo.
Não há nada de deselegante no diálogo entre os dois, muito pelo contrário. Se nessa segunda parte vemos Arrigo se propor a improvisar ao piano, Paula o conduz a uma improvisação no campo do pensamento.
Impressionante!!! O documentado parece que perdeu a capacidade de se comunicar. Sua comunicação se dá apenas com a música mesmo.
O título faz menções às repetições, muito requeridas na produção musical do entrevistado e validadas pelas citações schoenberguianas do início. Por alguns momentos, parece um documentário mais convencional, de montagem de conversas - por elas mesmas, valiosíssimas. Porém, não estamos no terreno de uma "cineasta de invenção" por acaso: Paula Gaitán também serve-se de repetições, que funcionam como circunlóquios em defesa da resistência política, a partir da própria existência da Arte. Além de ter envelhecido muito bem em termos físicos (Arrigo Barnabé segue muito bonito), ele demonstra uma consciência política invejável, explicitada em sua definição mui particular da "música erudita popular", subgênero do qual faz parte. A execução do "Canto dos Vagalumes" é um dos píncaros instrumentais deste filme, que estende-se para além da sua duração, visto que o debate que segue ruminado em nossas mentes tem a ver com a proposta dialogística da diretora. Mais que um filme-processo, um processo também extra-fílmico. Quando Arrigo sai nas ruas, sentimos falta da máscara, o que justifica-se nos créditos finais: as filmagens ocorreram em 2018. Maravilhoso! (WPC>)