Apesar de o Japão ser um país com muitos idosos, Yasukichi sente na pele o preconceito que as pessoas têm com os mais velhos. Patriarca de uma família disfuncional, tem uma relação complicada com os três filhos, em especial Tokuko, mulher de meia idade que sofre de bipolaridade e ainda mora com ele, e a todo custo tenta convencê-lo a ir para um asilo.
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Rentaro Mikuni já no fim de sua carreira ainda dando show em cena, impecável com um papel cativante. Adoro esses filmes que retratam a velhice. Também vale destacar o trabalho da Shinobu Otake, muito boa atriz. Kaneto Shindô sabia mexer com o coração dos espectadores como poucos.
Maravilhoso filme. Mais de cinco décadas de trabalho só podia resultar em um filme maduro e bem construído como este. Destaco a ideia de solidão da velhice , e seu abandono – lembro sempre do sociólogo alemão Norbert Elias, Ozu e certo cinema polonês de Dorota Kedzierzawska que discutiram isso com maestria e exaustão. Uma cena de embate em um bar entre Yasukichi e um jovem que diz ser perda de tempo cuidar dos velhos, em tempos de guerra, reflete bem essa velha dicotomia entre o velho e o novo.
Outra questão que destaco é a lenda contada em preto-e-branco por Yasukichi, mesma lenda que levou Keisuke Kinoshita a rodar o antológico Balada de Narayama em 58, adaptação do romance de Shichiro Fukazawa, de 1956. Isso por si já é fantástico. Me fez ler melhor o Balada de Narayama de Kinoshita. Até então tinha lido esta lenda (o encontro de Orin com o monte Narayama) como o encontro do Ser com sua própria finitude, num caminho de silêncio e êxtase, a máxima heideggeriana “sein zum tode”. Mas depois desse filme vi melhor o lugar do próprio abandono nesta lenda.
Kaneto Shindô tem essa maestria de no mesmo filme tratar de muitas questões, como já desde “Onibaba”. Este não escapa. Depressão dos tempos modernos, os liames razão e loucura, tempo etc. Querer viver se dá não só por essa tentativa do protagonista de ultrapassar a solidão imposta, mas também porque a vida lhe é sonho. E ele repete isso no filme: “a vida é o sonho dos sonhos”. Lembra o Waly Salomão, nosso velho poeta baiano, que também repetia à exaustão “a vida é sonho”, assim como grande parte dos poetas românticos do séc. 19 também bradavam, a vida é sonho. Ou se encara de frente a vida, como fazia o Waly e nossos poetas “marginais”, e Yasukichi está próximo destes, ou se cai num escapismo, como faziam os românticos lá do séc. 19. Fato é que este filme é – ou melhor, foi, para mim – grandioso. Marcou-me.