Trauma, submissão, fetiche e romantização da pedofilia. Uma desconstrução de um crime hediondo através do fetiche do Hank sobre Aaron. Já vi filmes horríveis, e gratuitos (que esse de forma ligeira se enquadra). Gostaria de ter pensado mais sobre o filme, mas a realidade é exposta de forma tão crua que a reflexão quase se torna redundante. Triste, interessante e perturbador. Hank tentando lutar contra seu próprio monstro e Aaron se afundando no obscuro da mente humana por dinheiro deixando de ser ele mesmo aos poucos.
Consegue ser tão perturbador quanto um filme de terror. São tantas camadas. Levarei dias pra digerir tudo. A produção e simples mas o texto é excelente.
BLUE FILM Direção: Elliot Tuttle Ano: 2025 Assistido em: 18/10/2026
Eu admito que não sou o que podemos chamar de fã de filmes que colocam personagens em um único espaço, onde toda a ação se desenvolve por meio de diálogos que tentam funcionar como uma espécie de terapia. Esse tipo de abordagem não é muito a minha praia. No entanto, quando tomei conhecimento deste filme, achei a ideia interessante e resolvi apostar. Só não imaginava que, por trás de uma premissa aparentemente superficial, envolvendo um homem mais velho que contrata os serviços sexuais de um rapaz mais jovem, existiria toda uma problemática, com uma discussão muito mais profunda sobre crimes que, muitas vezes, sequer chegam a ser debatidos em nossa sociedade.
Aaron Eagle é um artista de webcam especializado em fetiches que aceita passar uma noite com um cliente anônimo em troca de US$ 50 mil. Ao chegar ao encontro, ele se depara com um homem mascarado que o submete a uma série de perguntas cada vez mais pessoais. À medida que a noite avança, Aaron percebe que o desconhecido possui uma ligação perturbadora com seu passado, transformando o encontro em um confronto íntimo com memórias, desejos e segredos que ambos tentaram deixar para trás.
Esse é um tipo de filme naturalmente incômodo e propositalmente reflexivo. Ele quer que você compreenda os sentimentos das personagens em cena e faz algo impensável para muitas pessoas: dá voz e espaço a um abusador. Geralmente, quando tratamos de crimes hediondos, como os relacionados à pedofilia, dificilmente vemos o criminoso se expor, se abrir e apresentar sua própria perspectiva. Honestamente, ter esse ponto de vista não foi necessariamente um problema para mim. Acho até interessante observar como alguém que comete um crime enxerga a própria situação. No entanto, do ponto de vista narrativo, o roteiro toma decisões que são, no mínimo, questionáveis.
Meu maior problema com o filme é que, apesar de todos os aspectos apresentados, o roteiro acaba recompensando o pedófilo. O senhor Grand admite sentir atração por Alex desde quando ele ainda era criança ou adolescente e, na vida adulta, consegue, ainda que de maneira incompleta, passar uma noite com o alvo de seu desejo. Por mais que o filme coloque constantemente na boca de seus personagens a afirmação de que aquilo não é algo normal, a narrativa acaba entregando um prêmio de bandeja ao abusador. Ele sempre quis aquele homem mais jovem e, no fim, consegue aquilo que deseja.
Foi justamente isso que me fez questionar o verdadeiro propósito do filme. Trazer à luz uma problemática e abrir espaço para um diálogo entre uma vítima e seu predador é uma coisa. Fazer com que o criminoso saia dessa situação recompensado é outra completamente diferente. A grande questão que fica é: por quê? Ao final do filme, não consegui encontrar uma resposta satisfatória sobre a real intenção do roteiro.
Este é um filme de pequeno porte, algo que podemos perceber pelos espaços mínimos, pela ausência de grandes cenários, pelos figurinos simples e pela trilha sonora bastante discreta. Não estamos diante de uma produção de grande escala, mas de um filme intimista cujo foco principal está nas atuações. Nesse aspecto, os protagonistas entregam muito. Kieron Moore e Reed Birney sustentam muito bem seus personagens, conseguindo transmitir a complexidade emocional de figuras que, convenhamos, estão longe de ser simples.
Blue Film não é para todos os públicos. Seu tema principal é perturbador e certamente provocará muito desconforto em determinadas pessoas. Ainda assim, é inegável que a obra apresenta bem a dualidade de duas perspectivas conflitantes. O problema é que uma única decisão narrativa, extremamente questionável, que não se justifica ao longo do filme, compromete seu resultado final. Passei boa parte da sessão esperando uma explicação plausível para o caminho escolhido pelo roteiro, mas, para mim, ela não veio em momento algum.
Vale a pena assistir? Sim, mas é preciso ter cautela e algumas ressalvas, pois o filme pode provocar um desconforto considerável em muita gente, e isso é totalmente compreensível. No meu caso, o que permaneceu foi a sensação de que a obra levanta uma problemática importante, mas não sabe exatamente como encerrá-la. Ela provoca uma discussão, apresenta um conflito complexo, mas não consegue desenvolver uma conclusão que dê sentido às escolhas que fez.
Trauma, submissão, fetiche e romantização da pedofilia.
Uma desconstrução de um crime hediondo através do fetiche do Hank sobre Aaron. Já vi filmes horríveis, e gratuitos (que esse de forma ligeira se enquadra). Gostaria de ter pensado mais sobre o filme, mas a realidade é exposta de forma tão crua que a reflexão quase se torna redundante. Triste, interessante e perturbador.
Hank tentando lutar contra seu próprio monstro e Aaron se afundando no obscuro da mente humana por dinheiro deixando de ser ele mesmo aos poucos.
Consegue ser tão perturbador quanto um filme de terror. São tantas camadas. Levarei dias pra digerir tudo.
A produção e simples mas o texto é excelente.
BLUE FILM
Direção: Elliot Tuttle
Ano: 2025
Assistido em: 18/10/2026
Eu admito que não sou o que podemos chamar de fã de filmes que colocam personagens em um único espaço, onde toda a ação se desenvolve por meio de diálogos que tentam funcionar como uma espécie de terapia. Esse tipo de abordagem não é muito a minha praia. No entanto, quando tomei conhecimento deste filme, achei a ideia interessante e resolvi apostar. Só não imaginava que, por trás de uma premissa aparentemente superficial, envolvendo um homem mais velho que contrata os serviços sexuais de um rapaz mais jovem, existiria toda uma problemática, com uma discussão muito mais profunda sobre crimes que, muitas vezes, sequer chegam a ser debatidos em nossa sociedade.
Aaron Eagle é um artista de webcam especializado em fetiches que aceita passar uma noite com um cliente anônimo em troca de US$ 50 mil. Ao chegar ao encontro, ele se depara com um homem mascarado que o submete a uma série de perguntas cada vez mais pessoais. À medida que a noite avança, Aaron percebe que o desconhecido possui uma ligação perturbadora com seu passado, transformando o encontro em um confronto íntimo com memórias, desejos e segredos que ambos tentaram deixar para trás.
Esse é um tipo de filme naturalmente incômodo e propositalmente reflexivo. Ele quer que você compreenda os sentimentos das personagens em cena e faz algo impensável para muitas pessoas: dá voz e espaço a um abusador. Geralmente, quando tratamos de crimes hediondos, como os relacionados à pedofilia, dificilmente vemos o criminoso se expor, se abrir e apresentar sua própria perspectiva. Honestamente, ter esse ponto de vista não foi necessariamente um problema para mim. Acho até interessante observar como alguém que comete um crime enxerga a própria situação. No entanto, do ponto de vista narrativo, o roteiro toma decisões que são, no mínimo, questionáveis.
Meu maior problema com o filme é que, apesar de todos os aspectos apresentados, o roteiro acaba recompensando o pedófilo. O senhor Grand admite sentir atração por Alex desde quando ele ainda era criança ou adolescente e, na vida adulta, consegue, ainda que de maneira incompleta, passar uma noite com o alvo de seu desejo. Por mais que o filme coloque constantemente na boca de seus personagens a afirmação de que aquilo não é algo normal, a narrativa acaba entregando um prêmio de bandeja ao abusador. Ele sempre quis aquele homem mais jovem e, no fim, consegue aquilo que deseja.
Foi justamente isso que me fez questionar o verdadeiro propósito do filme. Trazer à luz uma problemática e abrir espaço para um diálogo entre uma vítima e seu predador é uma coisa. Fazer com que o criminoso saia dessa situação recompensado é outra completamente diferente. A grande questão que fica é: por quê? Ao final do filme, não consegui encontrar uma resposta satisfatória sobre a real intenção do roteiro.
Este é um filme de pequeno porte, algo que podemos perceber pelos espaços mínimos, pela ausência de grandes cenários, pelos figurinos simples e pela trilha sonora bastante discreta. Não estamos diante de uma produção de grande escala, mas de um filme intimista cujo foco principal está nas atuações. Nesse aspecto, os protagonistas entregam muito. Kieron Moore e Reed Birney sustentam muito bem seus personagens, conseguindo transmitir a complexidade emocional de figuras que, convenhamos, estão longe de ser simples.
Blue Film não é para todos os públicos. Seu tema principal é perturbador e certamente provocará muito desconforto em determinadas pessoas. Ainda assim, é inegável que a obra apresenta bem a dualidade de duas perspectivas conflitantes. O problema é que uma única decisão narrativa, extremamente questionável, que não se justifica ao longo do filme, compromete seu resultado final. Passei boa parte da sessão esperando uma explicação plausível para o caminho escolhido pelo roteiro, mas, para mim, ela não veio em momento algum.
Vale a pena assistir? Sim, mas é preciso ter cautela e algumas ressalvas, pois o filme pode provocar um desconforto considerável em muita gente, e isso é totalmente compreensível. No meu caso, o que permaneceu foi a sensação de que a obra levanta uma problemática importante, mas não sabe exatamente como encerrá-la. Ela provoca uma discussão, apresenta um conflito complexo, mas não consegue desenvolver uma conclusão que dê sentido às escolhas que fez.
17/10/2026.
Interessantíssimo.