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Data de lançamento
9 Jan. 2011Duração
A história gira em torno dos Gallaghers, uma família da classe operária de Chicago que precisam lidar com a crise econômica americana. Macy interpreta um alcoólatra, pai de seis filhos, casado com uma mulher que o troca por outra mulher. A família se mantém unida graças à filha Fiona (Emmy Rossum, de Mystic River), jovem de 18 anos que se divide entre cuidar dos 5 irmãos e irmãs, tentar manter o pai sóbrio e ainda descobrir uma forma de seguir seu próprio caminho.
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Uma série de muitos altos e baixos, com episódios horríveis, medianos e outros realmente ótimos. Confesso que não tinha a menor intenção de assistir, mas a quantidade de cortes que apareciam nas redes sociais acabou me obrigando a dar uma chance. E aí fica o dilema: curti? Não. Achei ruim? Também não. É uma série que fica nesse meio-termo, sem conseguir me empolgar de verdade. Mesmo assim, vou partir para a segunda temporada para descobrir se ela consegue melhorar ou se continua na mesma.
Frank tá no top 5 de personagens mais odiáveis que já vi.
Que série viciante!
Não acredito que demorei tanto tempo pra assistir!
Eu já tinha cruzado com várias cenas soltas de Shameless no TikTok e sempre ficava com essa sensação de que a série era “pra frente” demais pra televisão tradicional. Apareciam cortes de situações que normalmente são tratadas como tabu, sempre com um grau de ousadia e naturalidade que me chamava muita atenção. Eu tinha a impressão de que era aquele tipo de história que fala de sexo, drogas, precariedade e coisas “feias” da vida sem pedir desculpa, e isso já me deixava curiosa.
Quando finalmente sentei pra ver a primeira temporada, foi amor em tempo recorde. Logo no primeiro episódio eu já estava completamente fisgada, e ali pelos dois primeiros eu já tinha entendido que não era só mais uma dramédia “politicamente incorreta”: era uma série com muito conteúdo por trás da sujeira, do caos e da gritaria. É óbvio que tem momentos extremamente ácidos, piadas cruéis, cenas bem explícitas e situações que, em qualquer outra produção, soariam apenas gratuitas. Mas aqui eu senti exatamente o contrário: o fato de conseguirem encaixar obscenidade, nudez, humor pesado e temas espinhosos com tanta naturalidade e, ao mesmo tempo, com profundidade de enredo, virou um mérito, não um defeito.
Shameless consegue fazer algo difícil: mostrar uma família quebrada, atolada em problemas financeiros, emocionais e afetivos, sem cair nem na romantização boba nem no miserê apelativo. A série fala de sobrecarga emocional, de filhos que viram cuidadores, de amizades que funcionam como rede de apoio improvisada, de gente que se vira com o que tem, do jeito que dá, em um contexto de abandono estrutural. Tudo isso atravessado por um humor ácido e sagaz, que às vezes faz você rir e, dois segundos depois, perceber o quão trágica é a situação que acabou de achar engraçada. No fim das contas, a primeira temporada me passou essa sensação de que, por trás de todas as cenas “obscenas” e do choque inicial, existe uma história muito bem escrita sobre família, lealdade e sobrevivência emocional em um mundo que não está minimamente preocupado em ser gentil com ninguém.
Nos personagens, pra mim, a temporada se organiza muito em torno de três eixos: Fiona, Frank e Lip. A Fiona é o exemplo mais gritante de alguém que abdicou da própria vida pra segurar um castelo que vive caindo. Ela é, de fato, o pilar daquela casa, não por vocação materna fofinha, mas porque a mãe fugiu e o pai é um Homer Simpson de Chernobyl, incapaz de assumir qualquer responsabilidade que não seja a próxima garrafa. Gosto muito de como a série mostra o cansaço dela, o jeito que ela tenta ter uma vida própria e, ao mesmo tempo, não consegue não cuidar de todo mundo. A primeira temporada já deixa claro que ela merecia um mundo mais gentil do que aquele, mas também que sem ela tudo desmorona em dois minutos.
O Lip é um dos meus favoritos. Ele é meio porra louca, vive tomando decisões questionáveis, mas o coração dele está no lugar o tempo todo. É o típico garoto superinteligente, autossabotado pelo contexto e pelas próprias escolhas, que às vezes parece que vai ser engolido pelo ambiente onde vive. Gosto de como ele equilibra cinismo com cuidado real pela família, sem nunca virar “o bonzinho” da história. Já o Ian eu achei simplesmente adorável desde o começo. Ele é introvertido, mais contido, mas muito corajoso na forma como vive a própria homossexualidade ali naquele contexto todo torto. A namorada de fachada, a amiga da escola, as pequenas estratégias pra se proteger e, ao mesmo tempo, não negar quem ele é… tudo isso foi me ganhando.
A irmã mais nova, a Debbie, é outro destaque gigante. Ela é muito inteligente, muito avançada pra idade, com um senso de cuidado e de leitura emocional das coisas que às vezes supera o dos adultos. É aquela criança que você sente que merecia uma infância muito mais leve, mas que faz o possível dentro do caos que tem. O Carl, por outro lado, é quase o oposto: a criança com uma violência meio inata, que reage às coisas mais bizarras e perturbadoras com uma naturalidade assustadora. E é justamente isso que rende alguns dos momentos mais engraçados e mais incômodos ao mesmo tempo, porque a série não esconde que tem algo errado ali, mas também usa essa “brincadeira com a brutalidade” como comentário sobre o ambiente em que ele está crescendo.
O Frank, como já dá pra perceber desde o primeiro episódio, é esse Homer Simpson elevado à enésima potência: um pai tão ruim que até o Homer pareceria responsável ao lado dele. Ele funciona como alívio cômico em várias cenas, mas também como retrato muito incômodo de um alcoolismo narcísico que atravessa a vida de muita gente. Ele ri, manipula, some, reaparece, faz discurso bonito quando interessa, e a série não tenta redimir isso com facilidade. A Sheila, a mulher com quem ele vai morar, entra quase como uma co-protagonista, trazendo essa mistura muito específica de fragilidade, esquisitice e doçura. É uma personagem que, mesmo cheia de manias e limitações, acaba oferecendo um tipo de afeto e cuidado que o Frank nunca teve em lugar nenhum.
Sobre o Steve (que na verdade é Jimmy), eu comecei gostando muito dele. A forma como ele trata a Fiona, o jeito como parece entrar na bagunça da família sem julgamento, tudo isso faz com que ele ganhe muitos pontos rápido. Só que a primeira temporada também vai revelando as camadas de mentira: o nome falso, a família que ele esconde, a escolha de fugir em vez de encarar as consequências e ir pra cadeia. No fim das contas, por mais carismático que ele seja, tudo isso derruba bastante o crédito dele. E aí sobra o policial loiro, o Tony, que é quase o oposto: doce, correto, devotado, aquele cara que ajuda a tirar os irmãos da cadeia, que se declara, que tem a virgindade “roubada” pela Fiona… e, ainda assim, não é suficiente pra despertar desejo nela. Dá até dó, porque ele claramente merecia alguém que olhasse pra ele com o mesmo brilho que ela reserva pros caras mais caóticos. Mas é coerente: a série mostra que a Fiona se sente viva justamente com esses homens mais perigosos e instáveis, e a segunda temporada já começa deixando isso bem claro.
Pra mim, a cereja do bolo da primeira temporada é, sem dúvida, a Sheila. No comecinho, eu jurei que ela ia ser só uma personagem irritante, meio caricata, presa na própria neurose. Aquelas manias, a casa hermeticamente fechada, o pânico absoluto diante da porta… tudo parecia raso de propósito. Só que, conforme a temporada avança, a série vai abrindo camadas dela com uma delicadeza absurda. A fobia de sair de casa deixa de ser “esquisitice” e vira um retrato muito sensível de trauma, medo e paralisia, e é muito bonito ver como, mesmo apavorada, ela consegue atravessar esses limites quando é realmente necessário: seja por desespero, seja por raiva, seja pra proteger o bebê da Fiona ou defender a própria filha do pai abusivo.
Tem uma cena específica, aliás, que ficou marcada em mim de um jeito quase doloroso de tão bonita: quando a Sheila fica responsável de cuidar do bebê a pedido do Steve. Ver ela se divertindo, se encantando e se organizando em torno daquele corpinho pequeno ativou muito o meu instinto materno, porque dá para sentir que aquele cuidado faz bem para todo mundo ao mesmo tempo: para ela, que encontra uma função amorosa concreta; para o bebê, que recebe um colo seguro; e para a família dele, que pode respirar um pouco fora da lógica exaustiva dos cuidados. Ali eu tive a sensação de que a Sheila vira, de fato, uma das figuras mais importantes do enredo: ela é quem encarna a função materna para os personagens mais jovens e funciona como uma espécie de esposa carinhosa improvisada para o Frank, mesmo sem nunca ter assinado papel nenhum.
Gosto muito de como, aos poucos, a Sheila vai deixando de ser “a mulher estranha do Frank” pra se tornar um dos corações mais humanos da série. Tem uma cena perto do final da temporada em que o Frank diz que ela é a única pessoa capaz de ser gentil com ele, e aquilo resume bem o lugar que ela ocupa ali. Ela é carinhosa com a filha, com o Frank, com as crianças, com quem cruzar o caminho dela, quase como se esse coração enorme nem coubesse só na própria história. A primeira impressão é de figura cômica e irritante; a última é de uma mulher profundamente doce, complexa e corajosa, que a gente aprende a amar sem nem perceber quando foi que isso aconteceu.
Essa série me pegou muito desprevenida. Eu queria ver um trecho por trás de um meme, achando que era só uma comédia meia boca, e quando vi estava maratonando a primeira temporada. É intenso, pesado e apaixonante. Pra quem tem família grande e cresceu no meio do caos é impossível não se identificar.