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"Good Luck, Have Fun, Don’t Die" (2026) é uma ficção científica muito ousada. Ele flerta com o terror, com a fantasia e até com uma certa lógica de pesadelo tecnológico, mas, no fim, o que ele está tentando fazer é sci-fi de verdade: brincar com IA pós-singularidade, viagem no tempo, simulação, clonagem e colapso do real sem mastigar tudo para o espectador. E isso, pra mim, tem muito valor.
Ao mesmo tempo, tive uma sensação curiosa assistindo: parece um filme mais longo do que realmente é. Não porque seja arrastado o tempo todo, mas porque em alguns momentos ele perde um pouco da tração que precisaria ter para sustentar tantas ideias grandes ao mesmo tempo. Ainda assim, é o tipo de filme que eu admiro mais do que a média justamente por mirar alto, por querer ser estranho, ambicioso e meio perturbador.
O problema é que uma coisa é ser complexo, outra é parecer um pouco furado. Assim como eu comentei na minha avaliação de "Primer" (2004), eu não tenho nenhum problema com filme difícil. Gosto, inclusive. O que me incomoda é quando a sensação não é de complexidade bem arquitetada, mas de que os próprios roteiristas talvez não tenham pensado todas as respostas antes de filmar. Aí deixa de ser só instigante e passa a soar um pouco como queijo suíço narrativo: fascinante, mas cheio de buracos.
Mesmo assim, achei interessantíssimo. Tem imagens muito fortes, conceitos realmente provocativos e uma ousadia rara dentro da ficção científica contemporânea. É daqueles filmes que continuam ecoando depois, mesmo quando você termina ainda meio confusa e vai parar em análise no YouTube e thread no Reddit tentando montar o quebra-cabeça inteiro. Talvez ele não feche tão bem quanto deveria, mas a ambição dele é grande o bastante para me ganhar.
Pra mim, o filme faz mais sentido quando a gente para de tentar encaixá-lo como uma ficção científica “limpa” de viagem no tempo e aceita que ele funciona numa lógica mais híbrida, quase de videogame. Não necessariamente no sentido de que “era tudo simulação desde o começo”, mas de que aquele mundo já está contaminado por loops, retries, prompts e camadas de realidade manipulada. Isso explica melhor por que tanta coisa parece ao mesmo tempo concreta e estranha, e por que a sensação final não é exatamente de vitória.
Também acho que a Ingrid é muito mais central do que o filme faz parecer no começo. A chave dela não é só ser parceira do homem do futuro, mas ser uma exceção biológica real num mundo dominado pela tecnologia. A alergia dela deixa de parecer só uma esquisitice e passa a soar como possível antídoto. Então o novo plano do homem do futuro, no fim, não seria apenas “tentar de novo”, mas investigar uma forma de perpetuar ou reproduzir essa exceção biológica como resistência à IA.
E aí entra um detalhe que, pra mim, muda bastante coisa: o cartão dado à Ingrid no final parece ser o mesmo da agência ligada à Susan e à clonagem de filhos. Isso faz a cena ganhar outro peso, porque sugere que o novo plano pode passar justamente por essa infraestrutura de clonagem. O filme não mastiga tudo, mas claramente liga maternidade, clonagem, repetição e futuro de um jeito que não parece gratuito.
Sobre o final, o que mais fez sentido pra mim foi pensar que a “vitória” deles já estava contaminada. A IA não quer só destruir; ela quer capturar, seduzir e oferecer uma realidade confortável o bastante para que ninguém mais queira resistir. Por isso aquele desfecho perfeito demais parece menos um final feliz e mais uma armadilha elegante.
No fim, a leitura que mais funcionou pra mim foi essa: é um filme em que viagem no tempo, IA, clonagem e simulação já se embaralharam tanto que até a própria ideia de realidade virou uma coisa instável. Isso não resolve todos os furos, mas pelo menos organiza melhor o caos.
A 2ª temporada foi, até agora, a melhor de Shameless pra mim. A 1ª tinha muito essa função de apresentar aquele universo e os personagens, né? Já aqui, como tudo já está montado, a série consegue aprofundar muito mais as relações e os conflitos. E o mais impressionante é que ela faz isso sem perder o humor: continua tendo cenas absurdamente engraçadas, daquelas de fazer chorar de rir, mas ao mesmo tempo entrega momentos de uma profundidade psicológica e afetiva muito real.
O que mais me pegou nessa temporada foi a forma como Shameless trabalha maternidade e paternidade. A série deixa muito claro que ser pai ou mãe não tem a ver, necessariamente, com biologia. Frank e Monica são os pais “de sangue”, mas isso por si só não faz deles figuras capazes de sustentar esse lugar de forma estável, protetora ou responsável. A Monica até tem afeto, isso dá pra ver, mas afeto sozinho não segura ninguém quando falta estrutura emocional e psíquica. Em contrapartida, a temporada mostra personagens que, mesmo sem laço biológico, conseguem ocupar esse lugar de cuidado de um jeito muito mais verdadeiro.
E foi aí que a relação entre Kevin e Ethel me pegou de jeito. Tem algo de muito bonito e muito doloroso na forma como ele vai se tornando, pra ela, a primeira figura paterna que realmente cuida, acolhe e protege. A cena em que ela, arrumando as malas, agradece “por tudo” me desmontou completamente. Porque não parece um agradecimento por um gesto específico, mas por tudo aquilo que ela finalmente recebeu ali: cuidado, amparo, humanidade. Pra mim, a temporada inteira bate muito nessa tecla de que paternidade e maternidade têm muito mais a ver com presença, vontade de cuidar e responsabilidade afetiva do que com sangue.
A Karen também entra forte nessa discussão. A série não romantiza em nada a maternidade biológica, e eu gostei muito disso. Desde antes do bebê nascer já fica claro que ela não quer ocupar esse lugar, e Shameless não tenta maquiar isso nem transformar recusa em ternura falsa. Acho muito forte quando a série encara essas verdades desconfortáveis sem cair em moralismo barato.
Outra coisa que me conquistou demais foi a relação entre Kevin e Veronica. Eles não são só um casal com química e desejo, embora isso exista muito. O que mais me pega ali é a cumplicidade. Existe entre os dois uma intimidade muito viva, uma sensação de parceria real, de pertencimento, como se eles compartilhassem não só tesão, mas uma vida mesmo. Até quando entram em conflito, quando há ciúme, raiva, erro e desgaste, continua existindo amor, desejo e uma sensação de que um realmente é casa pro outro. E isso deixa tudo ainda mais bonito.
No fundo, o que mais me atravessou nessa temporada foi essa ideia de que um casal e uma família podem, às vezes, virar a chance de viver de outro jeito aquilo que foi ferida na infância. Não no sentido de cura mágica, mas de reparação possível. De finalmente encontrar, no amor e no cuidado, uma cena diferente daquela que faltou antes. Acho que Shameless toca nisso de um jeito muito forte.
No fim, essa temporada me ganhou justamente porque consegue ser caótica, engraçadíssima, triste e profundamente humana ao mesmo tempo. Por trás de toda a sujeira, do humor absurdo e dos personagens completamente disfuncionais, existe uma leitura muito afiada sobre abandono, afeto, cuidado e família. E é aí que a série cresce de verdade.
Últimos recados
Acabei de ver seu site e achei muito legal! Vamos ser amigas?
Amizade aceita brother! Seja bem vindo! 👊
Ooi! Tudo bem!?
Cada vez mais apaixonada por essa série.