Achei lindo. Lindo mesmo, no sentido menos preguiçoso da palavra: visualmente cheio de presença, artisticamente muito seguro, com aquela cara de coisa feita por quem entende que Avatar nunca foi só “gente jogando elemento um no outro”, mas uma mistura muito específica de mito, política, humor, trauma e beleza respirável. Como continuidade canônica de A Lenda de Aang, funciona demais. Eu tinha medo de parecer apêndice tardio, caça-nostalgia com verba, mas não: ele consegue voltar para esse mundo sem profanar o templo nem ficar ajoelhado demais diante dele.
Também gostei bastante de como ele entende o lugar histórico do Aang. Não é só “mais uma aventura da Gaang adulta”, embora isso por si só já fosse uma delícia. O filme pega a ferida que sempre ficou ali, meio impossível de resolver — Aang como último sobrevivente cultural dos Nômades do Ar — e coloca essa dor em diálogo com o mundo que depois vai virar Korra: mais urbano, mais desigual, mais politicamente quebrado, mais cheio de gente perguntando por que certos poderes pertencem a alguns corpos e não a outros. Nesse sentido, ele é uma ponte muito boa entre a fábula espiritual de Aang e a modernidade neurótica de Korra.
E eu gostei muito do arco do cetro, sinceramente. Para mim ele não soou como MacGuffin jogado na história só para mover bonequinho no tabuleiro: tudo acaba fechando ao redor dele — Sonam, Tagah, os Denied, quem podia usar, para quê, por que estava escondido, por que era tentador e por que precisava ser destruído. A batalha final também me funcionou por causa disso. Aang só vira o jogo quando entende a lógica do próprio ataque espiritualizado do Tagah e, principalmente, quando consegue acesso ao cetro; não é só “Avatar ficou mais forte porque sim”, é ele compreendendo o mecanismo espiritual e moral da coisa. O mais bonito é justamente essa crueldade narrativa: antes da restauração cósmica dos dobradores de ar em Korra, existiu uma tentativa artificial, desesperada e perigosa de devolver a dobra a quem nunca teve. Aang encontra uma resposta possível para a maior dor dele — e precisa quebrá-la, porque aquilo não restauraria uma cultura, só fabricaria poder com roupa de reparação.
Dito isso, o filme corre. Corre bonito, mas corre. Os Denied são uma ideia ótima — não-dobradores que não querem tirar dobra dos dobradores, mas ganhar dobra também — e mereciam mais carne, mais cotidiano, mais contradição. E o Tagah, embora faça sentido dentro da estrutura, cai um pouco no arquétipo que Korra já tinha gasto com Zaheer: o dominador de ar maligno, a liberdade virando ameaça, o vento descobrindo que também sabe ser faca. Ainda assim, saldo muito positivo. Não achei perfeito, mas achei digno, emocionante e canonicamente muito mais esperto do que eu esperava. Um filme que entende que continuar Aang não é só dar outra missão para ele, é encostar de novo naquilo que nem derrotar Ozai conseguiu curar.
Saí de "Todo Mundo em Pânico" (2026) gostando bem mais do que esperava, especialmente porque o filme entende muito bem a própria linhagem. Para mim, a graça da franquia nunca foi só “parodiar filmes de terror”, mas transformar o pânico cultural da época em piada: primeiro pelo absurdo, depois pelo humor negro, e só então pela crítica social, que muitas vezes aparece por baixo da cena. Nesse sentido, achei o humor bem próximo dos Simpsons das primeiras temporadas: aparentemente idiota, inconveniente e caótico, mas frequentemente cutucando racismo, mídia, moralismo, linguagem, poder e hipocrisia social.
Acho que isso fica muito claro nas piadas envolvendo racismo. O filme não está simplesmente “fazendo piada com raça”, mas expondo o ridículo e a violência de certas estruturas racistas, muitas vezes de forma explícita mesmo. Com a questão trans, senti que a franquia ainda está num terreno mais inicial, talvez porque esse debate não estava no centro da cultura pop quando os filmes anteriores foram feitos. Ainda assim, não achei que o personagem trans tenha sido ridicularizado por ser trans. Na maior parte do tempo, o alvo parece ser muito mais a tentativa confusa de inclusão, especialmente por parte do pai do personagem, e essa performance social meio atrapalhada em torno da linguagem e dos pronomes.
Minha ressalva real é pontual: achei desagradável o uso de um termo pejorativo na dublagem e a forma como isso aparece associado ao Ray, ao gay panic e à ideia antiga de travesti/trans como choque sexual ou segredo vergonhoso. Isso me incomodou mesmo, porque é uma piada velha, vinda de uma gramática que a gente já conhece bem demais. Mas também não achei que essa cena contaminasse o filme inteiro, nem que transformasse a obra em algo simplesmente transfóbico. Para mim, é mais um resíduo mal resolvido de uma franquia tentando atualizar um tipo de humor que nasceu em outra década.
O que mais me ganhou, no fim, foi a metalinguagem. As quebras de quarta parede e as piadas com a própria produção dos filmes antigos funcionam muito porque o filme sabe que é uma relíquia tentando sobreviver em 2026. E quando ele assume isso, fica realmente engraçado: ele ri dos filmes de terror, ri da cultura atual e ri de si mesmo. Achei imperfeito, às vezes meio torto, mas vivo. E, se houver próximos filmes, acho que existe espaço para a franquia elaborar melhor essa camada trans sem perder a acidez, porque quando Todo Mundo em Pânico acerta, ele não está só fazendo piada ofensiva: está mostrando como a cultura entra em pânico com ela mesma.
O que mais me impressionou em Disclosure Day, antes de qualquer discussão de mérito, foi lembrar como Spielberg ainda é monstruoso construindo suspense.
Ele sabe erguer uma cena como quem aperta lentamente uma mola. A tensão sobe, o ar da sala muda, tudo parece prestes a estourar, e então vem uma resolução curtíssima, que dá aquele alívio físico de quem finalmente soltou a respiração. É uma direção muito segura, muito consciente do corpo do espectador.
A fotografia também é absurda. Não é só “bonita” no sentido decorativo; ela realmente coloca a gente dentro da cena. Os ângulos de câmera trabalham DEMAIS para criar imersão, e funciona. Em vários momentos eu senti menos que estava assistindo aos personagens e mais que estava sendo empurrada para dentro daquela pressão junto com eles.
E Emily Blunt, a eterna assistente da Miranda de O Diabo Veste Prada, entrega tudo. Ela faz a Margaret com uma mistura muito difícil de vulnerabilidade, inteligência, desespero e autoridade. Nas mãos de outra atriz, a personagem poderia cair fácil naquele lugar de “protagonista escolhida pelo roteiro”. Com ela, a Margaret tem corpo, medo, dignidade e presença.
O que me pegou no mérito do filme é que Disclosure Day não é apenas uma ficção sobre alienígenas, mas sobre o momento em que uma hipótese deixa de caber confortavelmente no deboche. O filme não prova nada, claro, e nem acho que funcione como documento. Mas Spielberg filma como alguém interessado em dramatizar uma pressão cultural muito real: essa sensação de que existe um segredo grande demais sendo contido por por estruturas de poder.
Talvez por isso esse filme funcione tão bem como alegoria. Menos como “revelação” e mais como encenação de uma pergunta que está ficando cada vez mais difícil de ridicularizar sem pensar: e se a verdade já estivesse rachando por dentro das instituições?
Meu grande problema é o vilão. Achei batido, óbvio e pouco tridimensional. O roteiro até tenta dar um passado de perda e trauma para justificar suas ações, mas isso não basta para transformá-lo em alguém realmente complexo. Ele parece mais uma peça funcional de bloqueio narrativo do que uma presença à altura do resto do filme. E no clímax isso fica muito evidente: quando Margaret consegue restaurar a energia e ele simplesmente deixa de impedir o disclosure, a costura aparece demais. Narrativamente, se ele ainda estava tão comprometido com impedir aquilo, bastava atirar nela ali mesmo. O filme precisa que ele pare de ser eficiente para que a protagonista cumpra seu destino, e esse tipo de conveniência enfraquece bastante a reta final.
Ainda assim, é um filme fortíssimo. Imperfeito, sim, mas grande. Grande na direção, na atmosfera, na atuação da Emily Blunt e principalmente naquilo que Spielberg parece estar tentando fazer: transformar o clima contemporâneo dos UFOs em mito popular, suspense institucional e quase liturgia de massa.
Disclosure Day não me convenceu porque “prova” alguma coisa. Me convenceu porque entende que, às vezes, antes de uma verdade chegar ao mundo, ela aparece como imagem, medo, cinema e pressentimento.
Avatar: Fogo e Cinzas é, antes de tudo, um filme muito bonito. E olha que beleza visual sozinha, por si só, não costuma me ganhar tão fácil assim. Mas aqui ganha. Pandora continua tendo aquele ar de sagrado, intocado, vivo, como se cada paisagem tivesse sido pensada para provocar deslumbramento e uma espécie de melancolia cósmica ao mesmo tempo. É um filme lindo de ver e de sentir.
Ao mesmo tempo, ele também sofre da mesma doença dos outros dois anteriores: é excessivamente longo. Não chega a ser arrastado o tempo todo, porque há beleza e movimento suficientes para sustentar a experiência, mas ainda assim fica aquela sensação de que James Cameron olha para um filme de 2 horas e pensa: “covardia”.
O que mais me decepcionou, porém, foi perceber que a franquia continua rodando em círculos mais do que deveria. Eu queria sentir aqui uma ruptura mais nítida, um salto mais corajoso, uma sensação real de que a saga finalmente estava se permitindo sair da própria sombra. Mas não. O filme até flerta com isso, só que recua. Continua muito preso à fórmula, ao eixo emocional e ao tipo de conflito que já conhecemos bem demais. E isso pesa, porque Pandora é rica o suficiente para comportar algo mais estranho, mais arriscado, mais inesquecível.
Dito isso, houve uma coisa que realmente me pegou: a centralidade das baleias ancestrais na trama. Gostei muito disso. Muito mesmo. Toda aquela dimensão mais mítica, ritualística e solene envolvendo elas foi, para mim, uma das partes mais interessantes do filme inteiro. E a estética daquele conselho delas — não sei o nome exato, mas enfim, vocês vão entender — é simplesmente belíssima. Ali, sim, senti um vislumbre de novidade, de mistério, de imaginação viva. Queria sinceramente que o filme tivesse confiado ainda mais nisso.
E preciso falar do elefante na sala, ou melhor, do maldito vilão: continua muito presente a sensação de “porra, esse vilão já não tinha morrido?”. E isso já passou do ponto de ser dramático ou intrigante. A esta altura, é só ridículo. Em vez de deixar certos fantasmas descansarem e abrir espaço para uma ameaça nova de verdade, o filme insiste em reciclar um eixo que já deveria ter sido enterrado faz tempo. Então fiquei com uma sensação meio ingrata no fim: vi um filme belíssimo, com momentos de verdadeiro encanto, mas também mais acomodado do que deveria. Bonito, sim. Grande, sim. Mas menos novo do que gostaria — e, por isso mesmo, menos arrebatador do que poderia ter sido.
"Good Luck, Have Fun, Don’t Die" (2026) é uma ficção científica muito ousada. Ele flerta com o terror, com a fantasia e até com uma certa lógica de pesadelo tecnológico, mas, no fim, o que ele está tentando fazer é sci-fi de verdade: brincar com IA pós-singularidade, viagem no tempo, simulação, clonagem e colapso do real sem mastigar tudo para o espectador. E isso, pra mim, tem muito valor. Ao mesmo tempo, tive uma sensação curiosa assistindo: parece um filme mais longo do que realmente é. Não porque seja arrastado o tempo todo, mas porque em alguns momentos ele perde um pouco da tração que precisaria ter para sustentar tantas ideias grandes ao mesmo tempo. Ainda assim, é o tipo de filme que eu admiro mais do que a média justamente por mirar alto, por querer ser estranho, ambicioso e meio perturbador. O problema é que uma coisa é ser complexo, outra é parecer um pouco furado. Assim como eu comentei na minha avaliação de "Primer" (2004), eu não tenho nenhum problema com filme difícil. Gosto, inclusive. O que me incomoda é quando a sensação não é de complexidade bem arquitetada, mas de que os próprios roteiristas talvez não tenham pensado todas as respostas antes de filmar. Aí deixa de ser só instigante e passa a soar um pouco como queijo suíço narrativo: fascinante, mas cheio de buracos. Mesmo assim, achei interessantíssimo. Tem imagens muito fortes, conceitos realmente provocativos e uma ousadia rara dentro da ficção científica contemporânea. É daqueles filmes que continuam ecoando depois, mesmo quando você termina ainda meio confusa e vai parar em análise no YouTube e thread no Reddit tentando montar o quebra-cabeça inteiro. Talvez ele não feche tão bem quanto deveria, mas a ambição dele é grande o bastante para me ganhar.
Pra mim, o filme faz mais sentido quando a gente para de tentar encaixá-lo como uma ficção científica “limpa” de viagem no tempo e aceita que ele funciona numa lógica mais híbrida, quase de videogame. Não necessariamente no sentido de que “era tudo simulação desde o começo”, mas de que aquele mundo já está contaminado por loops, retries, prompts e camadas de realidade manipulada. Isso explica melhor por que tanta coisa parece ao mesmo tempo concreta e estranha, e por que a sensação final não é exatamente de vitória.
Também acho que a Ingrid é muito mais central do que o filme faz parecer no começo. A chave dela não é só ser parceira do homem do futuro, mas ser uma exceção biológica real num mundo dominado pela tecnologia. A alergia dela deixa de parecer só uma esquisitice e passa a soar como possível antídoto. Então o novo plano do homem do futuro, no fim, não seria apenas “tentar de novo”, mas investigar uma forma de perpetuar ou reproduzir essa exceção biológica como resistência à IA.
E aí entra um detalhe que, pra mim, muda bastante coisa: o cartão dado à Ingrid no final parece ser o mesmo da agência ligada à Susan e à clonagem de filhos. Isso faz a cena ganhar outro peso, porque sugere que o novo plano pode passar justamente por essa infraestrutura de clonagem. O filme não mastiga tudo, mas claramente liga maternidade, clonagem, repetição e futuro de um jeito que não parece gratuito.
Sobre o final, o que mais fez sentido pra mim foi pensar que a “vitória” deles já estava contaminada. A IA não quer só destruir; ela quer capturar, seduzir e oferecer uma realidade confortável o bastante para que ninguém mais queira resistir. Por isso aquele desfecho perfeito demais parece menos um final feliz e mais uma armadilha elegante.
No fim, a leitura que mais funcionou pra mim foi essa: é um filme em que viagem no tempo, IA, clonagem e simulação já se embaralharam tanto que até a própria ideia de realidade virou uma coisa instável. Isso não resolve todos os furos, mas pelo menos organiza melhor o caos.
O filme realmente é muito ruim, em termos de roteiro. Não tem um "pacing" legal, não cativa. A única coisa legal é a parte da fantasia sci-fi. Mas o filme, em si, é uma bosta.
Another Earth é aquele tipo de “ficção científica” que usa carcaça de sci-fi, mas não está nem aí pra explicar cientificamente nada. O filme não quer discutir astrofísica, quer perguntar outra coisa: o que você faz depois de destruir a vida de alguém e continuar existindo? A tal Earth 2 funciona como um espelho meio cruel, meio fascinante: a ideia de que existe, em algum lugar, uma versão sua que viveu exatamente a mesma história até certo ponto… mas talvez não tenha cometido aquele erro específico. O filme costura culpa, luto, desejo de segunda chance e, principalmente, a dificuldade de perdoar o outro e a si mesmo, em diálogos aparentemente simples, silêncios desconfortáveis e no jeito como o corpo e o toque viram linguagem quando as palavras já não dão conta.
Gosto muito de como a relação entre os dois protagonistas é construída sempre em cima de fissuras. Tem a curiosidade real que um sente pelo outro, a conversa sobre Platão e a caverna, as especulações sobre a outra Terra… e, ao mesmo tempo, uma tensão moral enorme que o filme não tenta romantizar. É um sci-fi intimista que troca grandes efeitos por duas pessoas quebradas tentando se aproximar sem saber se merecem isso. No meio desse desconforto todo, o filme vai abrindo pequenas frestas de cuidado, música e presença física que, pra mim, são o verdadeiro coração da história.
Pra quem gosta de Eneagrama, eu diria que é o filme mais “tipo 4” que eu já vi na vida: essa coisa de viver tudo em alta voltagem emocional, transformar culpa em estética, procurar sentido dentro da própria ferida. Pra quem não sabe o que é Eneagrama 4, pensa naquele arquétipo da pessoa que sente tudo fundo, se percebe diferente, carrega melancolia bonita e, mesmo assim, insiste em encontrar beleza no meio do desastre. Tem uma cena em especial, estranha e linda, em que ele leva ela para um lugar vazio e toca um “violino” que na verdade é um serrote de verdade. É bizarro, poético e emocionalmente deslocado do jeito mais 4 possível.
Tem três blocos específicos que me pegaram de um jeito muito pessoal.
O primeiro envolve justamente essa mistura de fascínio estético e desconforto moral. Depois de toda a aproximação, ele leva ela pra esse espaço vazio, toca aquela música absurda usando um serrote como se fosse violino, cria um momento quase hipnótico… e os dois acabam transando. Até aí já existe um estranhamento ético forte, porque a gente sabe o que ela fez com a vida dele e o filme não tenta fingir que isso é um romance “fofo”. Logo depois, quando ele começa a falar sobre a motorista adolescente que causou o acidente, sem saber que está falando dela, a contradição explode. E o corpo dela simplesmente devolve tudo: ela sai, pega o metrô, se olha no espelho e vomita. Não é “nojo” dele, é o corpo recusando a posição impossível em que ela se colocou: ao mesmo tempo amante e algoz daquele homem. Esse desconforto é totalmente intencional, e eu achei muito forte o filme ter coragem de ir até aí sem aliviar.
O segundo momento, pra mim o mais poderoso de todos, é a cena do faxineiro que colocou cloro nos próprios olhos e ouvidos, ficou cego e surdo e está internado. Ele é quase uma versão extrema do impulso dela de desaparecer do mundo. Quando ela chega perto, ele reconhece a presença dela só pelo toque e fala o nome dela, mesmo sem ver nem ouvir. Ela deita na cama junto com ele, cria ali um tipo de aconchego que não passa pela linguagem, é só corpo, calor, peso. E então vem o detalhe que eu achei absolutamente sublime: ela pega a palma da mão dele e escreve, letra por letra, “forgive”. Os dois choram. É a mensagem inteira do filme condensada em um gesto mínimo: a possibilidade de perdoar o outro e, principalmente, de começar a se perdoar.
O final amarra tudo isso de um jeito que eu achei muito bonito. Ela ganha a passagem pra Earth 2, o grande prêmio, a chance literal de fugir pra um lugar onde talvez “nada disso” tenha acontecido. E escolhe dar o bilhete pra ele, o homem cuja família ela matou, pra que ele possa ir descobrir se, na outra Terra, a família ainda está viva. Ela encontra um tipo estranho de paz ali: não porque as coisas se resolveram magicamente, mas porque, dentro do irreparável, ela fez o máximo que podia. Abriu mão da própria fuga pra oferecer a ele uma possibilidade de reencontro.
E aí vem a cena final, quando uma outra ela – a “ela” da Earth 2 – aparece na sua frente. Esse encontro só existe porque ela ficou na Earth 1. É justamente ao entregar o convite que era dela que ela consegue, simbolicamente e literalmente, se reencontrar consigo mesma. No fim, Another Earth, pra mim, é sobre isso: viver com a dor do que não tem conserto e, ainda assim, encontrar coragem pra permanecer, perdoar e se olhar de volta sem desviar o rosto.
Filme bem legalzinho. Cumpre o papel de entreter e faz dar algumas risadas. Entrega TUDO em elenco. Passa rápido: quando você dá conta, o filme já acabou. Só achei que as coisas se resolveram rápido demais, como se tivesse faltado conflitos.
Sinceramente, achei de uma qualidade de humor, de diálogos e de profundidade muito maior do que os filmes de hoje em dia. Assim como "He's Just Not That Into You", que também foi lançado em 2009, TiMER mostra a força do cinema da primeira década dos anos 2000.
A Steph é talvez a personagem mais interessante do filme inteiro – e ela sabe disso. Inapropriada de um jeito genial. Já o Mikey mostrou que, mesmo um jovem rapaz tem potencial de ser um grande homem, se souber como tratar uma grande mulher.
A cena final, da Oona com o Dan, mostra que, sim, há uma fagulha entre eles, que, mais cedo ou mais tarde, acabará se tornando inevitável que se transforme em um grande amor. Mas, apesar disso, não é ele quem ela está escolhendo amar no momento, e sim o Mikey – que provou (junto com o exemplo da separação dos pais da Oona) que, no fim, o que vale é esse amor que se constrói, sem idealizações, mas com atos concretos de amor.
Callum Turner ("Luke") é um dos meus maiores crushes do cinema. Elizabeth Olsen ("Joan") é uma das minhas maiores inspirações. Vocês façam as contas. Como 1+1=2, esse elenco está incrível.
O filme é divertido. Romance que une comédia e fantasia. A proposta é legal. Adorei ver os cartazes das eternidades.
Só achei que foi um furo de roteiro passar uma máfia inteira na frente do filho do protagonista, naquela cena do desembarque de trem, e ninguém ver o garoto. E depois verem ele no meio da rua, sozinho, à noite, e não desconfiarem. O garoto é invisível por acaso?
Tenta ser um filme de humor, mas nem sempre consegue. Francamente, eu prefiro 10 mil vezes o filme de tema análogo, "He's Just Not That Into You" (2009), ao lado do qual este aqui fica bem fraco. Mas enfim, não é um filme de todo ruim.
Esse filme me pegou como um rito de iniciação. Como filha devota de Afrodite, assistir The Love Witch foi como atravessar um espelho encantado — e do outro lado, encontrar o reflexo distorcido de tudo aquilo que a deusa do amor pode se tornar quando o desejo escapa da alma e vira compulsão.
Visualmente, ele é um deleite: parece um filme perdido da década de 70, resgatado de um baú mágico. A paleta saturada, os figurinos, os olhares longos e a atmosfera de feitiço permanente… tudo evoca uma estética cuidadosamente artificial, que seduz como perfume doce demais. Me senti assistindo uma mistura de Elvira, Rainha das Trevas com as alucinações de Alejandro Jodorowsky, temperada com aquela sensação estranha e encantada de uma cidadezinha à la Twin Peaks, onde o bizarro é rotina.
A protagonista, Elaine, é uma bruxa sensual que usa feitiçaria para ser amada — mas os homens que ela seduz acabam arruinados, porque o amor que ela quer é impossível: ela não busca um vínculo, busca ser adorada. E isso é o ponto mais agudo da dor. Pra mim, é evidente: ela é uma filha de Afrodite que perdeu o eixo. Representa o que acontece quando o arquétipo do amor vira excesso — quando o desejo de ser amada se transforma em vício, e a feminilidade, em maldição. Elaine é ao mesmo tempo inspiração e alerta: símbolo do poder da beleza, mas também da prisão que ela pode se tornar.
A diretora, Anna Biller, diz que o filme não é uma paródia, mas uma tragédia sobre a experiência feminina. E faz sentido. Tudo ali gira em torno de como a mulher é ensinada a ser desejável, a performar o encanto, mas raramente a existir fora disso. A bruxaria é metáfora: feminilidade como feitiço — potente, perigosa, e muitas vezes fatal.
Na internet, o filme gerou divisões: tem quem ame como obra feminista brilhante, tem quem ache problemático ou vazio. Também surgiram acusações ideológicas contra a diretora (como ser TERF), mas até agora, tudo especulativo — nada confirmado. O que permanece é a obra em si: estranha, teatral e incômoda no melhor dos sentidos.
No fim, achei o filme curioso, interessante e peculiar. Um tanto estranho (o que é bom), por vezes anticlimático. Mas inquietante. Me deixou com a sensação de ter tocado num espelho mágico — desses que não mostram o que você é, mas o que você poderia ser, se esquecesse quem é.
Assisti a esse filme pela primeira vez e posso dizer com toda certeza: virou um dos meus preferidos. Não só dentro da comédia romântica – que, convenhamos, costuma reaproveitar os mesmos clichês de sempre – mas como obra mesmo. Na superfície, é uma das comédias mais engraçadas que já vi, com um tipo de humor que não depende de escândalo nem obviedade. É um riso que vem da inteligência e da sutileza. Mas, por baixo, há um filme absurdamente sensível, que toca em lugares que nem todo mundo percebe de primeira.
É o tipo de história que fala de afeto de um jeito maduro, quase silencioso. Te mostra como identificar sinais – mas também como não se perder tentando traduzir os outros. Como sair do modo “detetive de migalhas” e entrar no lugar de quem se permite ser escolhida com clareza. E isso não vem em discursos ensaiados – vem no subtexto, nos gestos minúsculos, nas pausas que dizem mais do que algumas confissões.
A Carla Lemos falou que esse filme desmonta nossas idealizações românticas sem fazer a gente desistir do amor – e é isso. Ele não quebra o encanto; ele desloca. Tira o foco das promessas mirabolantes e coloca no que realmente acolhe: presença, constância, paz. Ísis de Oliveira também escreveu que é um filme leve e sério ao mesmo tempo – e não consigo pensar em definição melhor. Ele te faz rir de verdade, mas também te deixa com aquela pontinha de silêncio depois. Um tipo de silêncio que convida. A repensar padrões. A questionar o quanto a gente insiste onde não há retorno. A lembrar que, às vezes, o problema não é sentir demais – é esperar no lugar errado.
Passei anos tentando lembrar qual era o filme em que o cavalo virava estátua – ou algo assim. Só agora, por acaso no TikTok, descobri que era Um Passo de Mágica (A Simple Wish, 1997). Na real, o cavalo vira rato, e o pai da menina é quem vira estátua. Finalmente encontrei! E a protagonista é a mesma atriz de Matilda. O filme tem uma vibe deliciosa que lembra Convenção das Bruxas (1990) – nostálgico, bizarro e mágico na medida certa.
Propositadamente tosco. As expressões faciais da Becka são impagáveis. A cena dela esguichando sangue na sala de estar dos Cullen me pegou, eu chorei de rir.
Avatar Aang: O Último Mestre do Ar
4.1 61 Assista AgoraAchei lindo. Lindo mesmo, no sentido menos preguiçoso da palavra: visualmente cheio de presença, artisticamente muito seguro, com aquela cara de coisa feita por quem entende que Avatar nunca foi só “gente jogando elemento um no outro”, mas uma mistura muito específica de mito, política, humor, trauma e beleza respirável. Como continuidade canônica de A Lenda de Aang, funciona demais. Eu tinha medo de parecer apêndice tardio, caça-nostalgia com verba, mas não: ele consegue voltar para esse mundo sem profanar o templo nem ficar ajoelhado demais diante dele.
Também gostei bastante de como ele entende o lugar histórico do Aang. Não é só “mais uma aventura da Gaang adulta”, embora isso por si só já fosse uma delícia. O filme pega a ferida que sempre ficou ali, meio impossível de resolver — Aang como último sobrevivente cultural dos Nômades do Ar — e coloca essa dor em diálogo com o mundo que depois vai virar Korra: mais urbano, mais desigual, mais politicamente quebrado, mais cheio de gente perguntando por que certos poderes pertencem a alguns corpos e não a outros. Nesse sentido, ele é uma ponte muito boa entre a fábula espiritual de Aang e a modernidade neurótica de Korra.
E eu gostei muito do arco do cetro, sinceramente. Para mim ele não soou como MacGuffin jogado na história só para mover bonequinho no tabuleiro: tudo acaba fechando ao redor dele — Sonam, Tagah, os Denied, quem podia usar, para quê, por que estava escondido, por que era tentador e por que precisava ser destruído. A batalha final também me funcionou por causa disso. Aang só vira o jogo quando entende a lógica do próprio ataque espiritualizado do Tagah e, principalmente, quando consegue acesso ao cetro; não é só “Avatar ficou mais forte porque sim”, é ele compreendendo o mecanismo espiritual e moral da coisa. O mais bonito é justamente essa crueldade narrativa: antes da restauração cósmica dos dobradores de ar em Korra, existiu uma tentativa artificial, desesperada e perigosa de devolver a dobra a quem nunca teve. Aang encontra uma resposta possível para a maior dor dele — e precisa quebrá-la, porque aquilo não restauraria uma cultura, só fabricaria poder com roupa de reparação.
Dito isso, o filme corre. Corre bonito, mas corre. Os Denied são uma ideia ótima — não-dobradores que não querem tirar dobra dos dobradores, mas ganhar dobra também — e mereciam mais carne, mais cotidiano, mais contradição. E o Tagah, embora faça sentido dentro da estrutura, cai um pouco no arquétipo que Korra já tinha gasto com Zaheer: o dominador de ar maligno, a liberdade virando ameaça, o vento descobrindo que também sabe ser faca. Ainda assim, saldo muito positivo. Não achei perfeito, mas achei digno, emocionante e canonicamente muito mais esperto do que eu esperava. Um filme que entende que continuar Aang não é só dar outra missão para ele, é encostar de novo naquilo que nem derrotar Ozai conseguiu curar.
Todo Mundo em Pânico
2.6 352 Assista AgoraSaí de "Todo Mundo em Pânico" (2026) gostando bem mais do que esperava, especialmente porque o filme entende muito bem a própria linhagem. Para mim, a graça da franquia nunca foi só “parodiar filmes de terror”, mas transformar o pânico cultural da época em piada: primeiro pelo absurdo, depois pelo humor negro, e só então pela crítica social, que muitas vezes aparece por baixo da cena. Nesse sentido, achei o humor bem próximo dos Simpsons das primeiras temporadas: aparentemente idiota, inconveniente e caótico, mas frequentemente cutucando racismo, mídia, moralismo, linguagem, poder e hipocrisia social.
Acho que isso fica muito claro nas piadas envolvendo racismo. O filme não está simplesmente “fazendo piada com raça”, mas expondo o ridículo e a violência de certas estruturas racistas, muitas vezes de forma explícita mesmo. Com a questão trans, senti que a franquia ainda está num terreno mais inicial, talvez porque esse debate não estava no centro da cultura pop quando os filmes anteriores foram feitos. Ainda assim, não achei que o personagem trans tenha sido ridicularizado por ser trans. Na maior parte do tempo, o alvo parece ser muito mais a tentativa confusa de inclusão, especialmente por parte do pai do personagem, e essa performance social meio atrapalhada em torno da linguagem e dos pronomes.
Minha ressalva real é pontual: achei desagradável o uso de um termo pejorativo na dublagem e a forma como isso aparece associado ao Ray, ao gay panic e à ideia antiga de travesti/trans como choque sexual ou segredo vergonhoso. Isso me incomodou mesmo, porque é uma piada velha, vinda de uma gramática que a gente já conhece bem demais. Mas também não achei que essa cena contaminasse o filme inteiro, nem que transformasse a obra em algo simplesmente transfóbico. Para mim, é mais um resíduo mal resolvido de uma franquia tentando atualizar um tipo de humor que nasceu em outra década.
O que mais me ganhou, no fim, foi a metalinguagem. As quebras de quarta parede e as piadas com a própria produção dos filmes antigos funcionam muito porque o filme sabe que é uma relíquia tentando sobreviver em 2026. E quando ele assume isso, fica realmente engraçado: ele ri dos filmes de terror, ri da cultura atual e ri de si mesmo. Achei imperfeito, às vezes meio torto, mas vivo. E, se houver próximos filmes, acho que existe espaço para a franquia elaborar melhor essa camada trans sem perder a acidez, porque quando Todo Mundo em Pânico acerta, ele não está só fazendo piada ofensiva: está mostrando como a cultura entra em pânico com ela mesma.
Dia D
3.0 539 Assista AgoraO que mais me impressionou em Disclosure Day, antes de qualquer discussão de mérito, foi lembrar como Spielberg ainda é monstruoso construindo suspense.
Ele sabe erguer uma cena como quem aperta lentamente uma mola. A tensão sobe, o ar da sala muda, tudo parece prestes a estourar, e então vem uma resolução curtíssima, que dá aquele alívio físico de quem finalmente soltou a respiração. É uma direção muito segura, muito consciente do corpo do espectador.
A fotografia também é absurda. Não é só “bonita” no sentido decorativo; ela realmente coloca a gente dentro da cena. Os ângulos de câmera trabalham DEMAIS para criar imersão, e funciona. Em vários momentos eu senti menos que estava assistindo aos personagens e mais que estava sendo empurrada para dentro daquela pressão junto com eles.
E Emily Blunt, a eterna assistente da Miranda de O Diabo Veste Prada, entrega tudo. Ela faz a Margaret com uma mistura muito difícil de vulnerabilidade, inteligência, desespero e autoridade. Nas mãos de outra atriz, a personagem poderia cair fácil naquele lugar de “protagonista escolhida pelo roteiro”. Com ela, a Margaret tem corpo, medo, dignidade e presença.
O que me pegou no mérito do filme é que Disclosure Day não é apenas uma ficção sobre alienígenas, mas sobre o momento em que uma hipótese deixa de caber confortavelmente no deboche. O filme não prova nada, claro, e nem acho que funcione como documento. Mas Spielberg filma como alguém interessado em dramatizar uma pressão cultural muito real: essa sensação de que existe um segredo grande demais sendo contido por por estruturas de poder.
Talvez por isso esse filme funcione tão bem como alegoria. Menos como “revelação” e mais como encenação de uma pergunta que está ficando cada vez mais difícil de ridicularizar sem pensar: e se a verdade já estivesse rachando por dentro das instituições?
Meu grande problema é o vilão. Achei batido, óbvio e pouco tridimensional. O roteiro até tenta dar um passado de perda e trauma para justificar suas ações, mas isso não basta para transformá-lo em alguém realmente complexo. Ele parece mais uma peça funcional de bloqueio narrativo do que uma presença à altura do resto do filme. E no clímax isso fica muito evidente: quando Margaret consegue restaurar a energia e ele simplesmente deixa de impedir o disclosure, a costura aparece demais. Narrativamente, se ele ainda estava tão comprometido com impedir aquilo, bastava atirar nela ali mesmo. O filme precisa que ele pare de ser eficiente para que a protagonista cumpra seu destino, e esse tipo de conveniência enfraquece bastante a reta final.
Ainda assim, é um filme fortíssimo. Imperfeito, sim, mas grande. Grande na direção, na atmosfera, na atuação da Emily Blunt e principalmente naquilo que Spielberg parece estar tentando fazer: transformar o clima contemporâneo dos UFOs em mito popular, suspense institucional e quase liturgia de massa.
Disclosure Day não me convenceu porque “prova” alguma coisa. Me convenceu porque entende que, às vezes, antes de uma verdade chegar ao mundo, ela aparece como imagem, medo, cinema e pressentimento.
Avatar: Fogo e Cinzas
3.5 355 Assista AgoraAvatar: Fogo e Cinzas é, antes de tudo, um filme muito bonito. E olha que beleza visual sozinha, por si só, não costuma me ganhar tão fácil assim. Mas aqui ganha. Pandora continua tendo aquele ar de sagrado, intocado, vivo, como se cada paisagem tivesse sido pensada para provocar deslumbramento e uma espécie de melancolia cósmica ao mesmo tempo. É um filme lindo de ver e de sentir.
Ao mesmo tempo, ele também sofre da mesma doença dos outros dois anteriores: é excessivamente longo. Não chega a ser arrastado o tempo todo, porque há beleza e movimento suficientes para sustentar a experiência, mas ainda assim fica aquela sensação de que James Cameron olha para um filme de 2 horas e pensa: “covardia”.
O que mais me decepcionou, porém, foi perceber que a franquia continua rodando em círculos mais do que deveria. Eu queria sentir aqui uma ruptura mais nítida, um salto mais corajoso, uma sensação real de que a saga finalmente estava se permitindo sair da própria sombra. Mas não. O filme até flerta com isso, só que recua. Continua muito preso à fórmula, ao eixo emocional e ao tipo de conflito que já conhecemos bem demais. E isso pesa, porque Pandora é rica o suficiente para comportar algo mais estranho, mais arriscado, mais inesquecível.
Dito isso, houve uma coisa que realmente me pegou: a centralidade das baleias ancestrais na trama. Gostei muito disso. Muito mesmo. Toda aquela dimensão mais mítica, ritualística e solene envolvendo elas foi, para mim, uma das partes mais interessantes do filme inteiro. E a estética daquele conselho delas — não sei o nome exato, mas enfim, vocês vão entender — é simplesmente belíssima. Ali, sim, senti um vislumbre de novidade, de mistério, de imaginação viva. Queria sinceramente que o filme tivesse confiado ainda mais nisso.
E preciso falar do elefante na sala, ou melhor, do maldito vilão: continua muito presente a sensação de “porra, esse vilão já não tinha morrido?”. E isso já passou do ponto de ser dramático ou intrigante. A esta altura, é só ridículo. Em vez de deixar certos fantasmas descansarem e abrir espaço para uma ameaça nova de verdade, o filme insiste em reciclar um eixo que já deveria ter sido enterrado faz tempo. Então fiquei com uma sensação meio ingrata no fim: vi um filme belíssimo, com momentos de verdadeiro encanto, mas também mais acomodado do que deveria. Bonito, sim. Grande, sim. Mas menos novo do que gostaria — e, por isso mesmo, menos arrebatador do que poderia ter sido.
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
3.3 79"Good Luck, Have Fun, Don’t Die" (2026) é uma ficção científica muito ousada. Ele flerta com o terror, com a fantasia e até com uma certa lógica de pesadelo tecnológico, mas, no fim, o que ele está tentando fazer é sci-fi de verdade: brincar com IA pós-singularidade, viagem no tempo, simulação, clonagem e colapso do real sem mastigar tudo para o espectador. E isso, pra mim, tem muito valor.
Ao mesmo tempo, tive uma sensação curiosa assistindo: parece um filme mais longo do que realmente é. Não porque seja arrastado o tempo todo, mas porque em alguns momentos ele perde um pouco da tração que precisaria ter para sustentar tantas ideias grandes ao mesmo tempo. Ainda assim, é o tipo de filme que eu admiro mais do que a média justamente por mirar alto, por querer ser estranho, ambicioso e meio perturbador.
O problema é que uma coisa é ser complexo, outra é parecer um pouco furado. Assim como eu comentei na minha avaliação de "Primer" (2004), eu não tenho nenhum problema com filme difícil. Gosto, inclusive. O que me incomoda é quando a sensação não é de complexidade bem arquitetada, mas de que os próprios roteiristas talvez não tenham pensado todas as respostas antes de filmar. Aí deixa de ser só instigante e passa a soar um pouco como queijo suíço narrativo: fascinante, mas cheio de buracos.
Mesmo assim, achei interessantíssimo. Tem imagens muito fortes, conceitos realmente provocativos e uma ousadia rara dentro da ficção científica contemporânea. É daqueles filmes que continuam ecoando depois, mesmo quando você termina ainda meio confusa e vai parar em análise no YouTube e thread no Reddit tentando montar o quebra-cabeça inteiro. Talvez ele não feche tão bem quanto deveria, mas a ambição dele é grande o bastante para me ganhar.
Pra mim, o filme faz mais sentido quando a gente para de tentar encaixá-lo como uma ficção científica “limpa” de viagem no tempo e aceita que ele funciona numa lógica mais híbrida, quase de videogame. Não necessariamente no sentido de que “era tudo simulação desde o começo”, mas de que aquele mundo já está contaminado por loops, retries, prompts e camadas de realidade manipulada. Isso explica melhor por que tanta coisa parece ao mesmo tempo concreta e estranha, e por que a sensação final não é exatamente de vitória.
Também acho que a Ingrid é muito mais central do que o filme faz parecer no começo. A chave dela não é só ser parceira do homem do futuro, mas ser uma exceção biológica real num mundo dominado pela tecnologia. A alergia dela deixa de parecer só uma esquisitice e passa a soar como possível antídoto. Então o novo plano do homem do futuro, no fim, não seria apenas “tentar de novo”, mas investigar uma forma de perpetuar ou reproduzir essa exceção biológica como resistência à IA.
E aí entra um detalhe que, pra mim, muda bastante coisa: o cartão dado à Ingrid no final parece ser o mesmo da agência ligada à Susan e à clonagem de filhos. Isso faz a cena ganhar outro peso, porque sugere que o novo plano pode passar justamente por essa infraestrutura de clonagem. O filme não mastiga tudo, mas claramente liga maternidade, clonagem, repetição e futuro de um jeito que não parece gratuito.
Sobre o final, o que mais fez sentido pra mim foi pensar que a “vitória” deles já estava contaminada. A IA não quer só destruir; ela quer capturar, seduzir e oferecer uma realidade confortável o bastante para que ninguém mais queira resistir. Por isso aquele desfecho perfeito demais parece menos um final feliz e mais uma armadilha elegante.
No fim, a leitura que mais funcionou pra mim foi essa: é um filme em que viagem no tempo, IA, clonagem e simulação já se embaralharam tanto que até a própria ideia de realidade virou uma coisa instável. Isso não resolve todos os furos, mas pelo menos organiza melhor o caos.
A Torre Negra
2.6 841 Assista AgoraO filme realmente é muito ruim, em termos de roteiro. Não tem um "pacing" legal, não cativa. A única coisa legal é a parte da fantasia sci-fi. Mas o filme, em si, é uma bosta.
A Outra Terra
3.7 877 Assista AgoraAnother Earth é aquele tipo de “ficção científica” que usa carcaça de sci-fi, mas não está nem aí pra explicar cientificamente nada. O filme não quer discutir astrofísica, quer perguntar outra coisa: o que você faz depois de destruir a vida de alguém e continuar existindo? A tal Earth 2 funciona como um espelho meio cruel, meio fascinante: a ideia de que existe, em algum lugar, uma versão sua que viveu exatamente a mesma história até certo ponto… mas talvez não tenha cometido aquele erro específico. O filme costura culpa, luto, desejo de segunda chance e, principalmente, a dificuldade de perdoar o outro e a si mesmo, em diálogos aparentemente simples, silêncios desconfortáveis e no jeito como o corpo e o toque viram linguagem quando as palavras já não dão conta.
Gosto muito de como a relação entre os dois protagonistas é construída sempre em cima de fissuras. Tem a curiosidade real que um sente pelo outro, a conversa sobre Platão e a caverna, as especulações sobre a outra Terra… e, ao mesmo tempo, uma tensão moral enorme que o filme não tenta romantizar. É um sci-fi intimista que troca grandes efeitos por duas pessoas quebradas tentando se aproximar sem saber se merecem isso. No meio desse desconforto todo, o filme vai abrindo pequenas frestas de cuidado, música e presença física que, pra mim, são o verdadeiro coração da história.
Pra quem gosta de Eneagrama, eu diria que é o filme mais “tipo 4” que eu já vi na vida: essa coisa de viver tudo em alta voltagem emocional, transformar culpa em estética, procurar sentido dentro da própria ferida. Pra quem não sabe o que é Eneagrama 4, pensa naquele arquétipo da pessoa que sente tudo fundo, se percebe diferente, carrega melancolia bonita e, mesmo assim, insiste em encontrar beleza no meio do desastre. Tem uma cena em especial, estranha e linda, em que ele leva ela para um lugar vazio e toca um “violino” que na verdade é um serrote de verdade. É bizarro, poético e emocionalmente deslocado do jeito mais 4 possível.
Tem três blocos específicos que me pegaram de um jeito muito pessoal.
O primeiro envolve justamente essa mistura de fascínio estético e desconforto moral. Depois de toda a aproximação, ele leva ela pra esse espaço vazio, toca aquela música absurda usando um serrote como se fosse violino, cria um momento quase hipnótico… e os dois acabam transando. Até aí já existe um estranhamento ético forte, porque a gente sabe o que ela fez com a vida dele e o filme não tenta fingir que isso é um romance “fofo”. Logo depois, quando ele começa a falar sobre a motorista adolescente que causou o acidente, sem saber que está falando dela, a contradição explode. E o corpo dela simplesmente devolve tudo: ela sai, pega o metrô, se olha no espelho e vomita. Não é “nojo” dele, é o corpo recusando a posição impossível em que ela se colocou: ao mesmo tempo amante e algoz daquele homem. Esse desconforto é totalmente intencional, e eu achei muito forte o filme ter coragem de ir até aí sem aliviar.
O segundo momento, pra mim o mais poderoso de todos, é a cena do faxineiro que colocou cloro nos próprios olhos e ouvidos, ficou cego e surdo e está internado. Ele é quase uma versão extrema do impulso dela de desaparecer do mundo. Quando ela chega perto, ele reconhece a presença dela só pelo toque e fala o nome dela, mesmo sem ver nem ouvir. Ela deita na cama junto com ele, cria ali um tipo de aconchego que não passa pela linguagem, é só corpo, calor, peso. E então vem o detalhe que eu achei absolutamente sublime: ela pega a palma da mão dele e escreve, letra por letra, “forgive”. Os dois choram. É a mensagem inteira do filme condensada em um gesto mínimo: a possibilidade de perdoar o outro e, principalmente, de começar a se perdoar.
O final amarra tudo isso de um jeito que eu achei muito bonito. Ela ganha a passagem pra Earth 2, o grande prêmio, a chance literal de fugir pra um lugar onde talvez “nada disso” tenha acontecido. E escolhe dar o bilhete pra ele, o homem cuja família ela matou, pra que ele possa ir descobrir se, na outra Terra, a família ainda está viva. Ela encontra um tipo estranho de paz ali: não porque as coisas se resolveram magicamente, mas porque, dentro do irreparável, ela fez o máximo que podia. Abriu mão da própria fuga pra oferecer a ele uma possibilidade de reencontro.
E aí vem a cena final, quando uma outra ela – a “ela” da Earth 2 – aparece na sua frente. Esse encontro só existe porque ela ficou na Earth 1. É justamente ao entregar o convite que era dela que ela consegue, simbolicamente e literalmente, se reencontrar consigo mesma. No fim, Another Earth, pra mim, é sobre isso: viver com a dor do que não tem conserto e, ainda assim, encontrar coragem pra permanecer, perdoar e se olhar de volta sem desviar o rosto.
Pisque Duas Vezes
3.5 663Um pouco difícil de entender (ligar os pontos), mas é um dos melhores filmes de terror que eu já vi até hoje.
Oito Mulheres e um Segredo
3.6 1,1K Assista AgoraFilme bem legalzinho. Cumpre o papel de entreter e faz dar algumas risadas. Entrega TUDO em elenco. Passa rápido: quando você dá conta, o filme já acabou. Só achei que as coisas se resolveram rápido demais, como se tivesse faltado conflitos.
Timer: Contagem Regressiva Para o Amor
3.2 186 Assista AgoraSinceramente, achei de uma qualidade de humor, de diálogos e de profundidade muito maior do que os filmes de hoje em dia. Assim como "He's Just Not That Into You", que também foi lançado em 2009, TiMER mostra a força do cinema da primeira década dos anos 2000.
A Steph é talvez a personagem mais interessante do filme inteiro – e ela sabe disso. Inapropriada de um jeito genial. Já o Mikey mostrou que, mesmo um jovem rapaz tem potencial de ser um grande homem, se souber como tratar uma grande mulher.
A cena final, da Oona com o Dan, mostra que, sim, há uma fagulha entre eles, que, mais cedo ou mais tarde, acabará se tornando inevitável que se transforme em um grande amor. Mas, apesar disso, não é ele quem ela está escolhendo amar no momento, e sim o Mikey – que provou (junto com o exemplo da separação dos pais da Oona) que, no fim, o que vale é esse amor que se constrói, sem idealizações, mas com atos concretos de amor.
Eternidade
3.5 178 Assista AgoraCallum Turner ("Luke") é um dos meus maiores crushes do cinema. Elizabeth Olsen ("Joan") é uma das minhas maiores inspirações. Vocês façam as contas. Como 1+1=2, esse elenco está incrível.
O filme é divertido. Romance que une comédia e fantasia. A proposta é legal. Adorei ver os cartazes das eternidades.
A maior demonstração de amor do Larry foi deixá-la ir embora, por imaginar que esse seria o ápice da felicidade dela.
Família do Bagulho
3.6 1,5K Assista AgoraDivertido. Filme vibe "Sessão da Tarde para +18 com alusão a incesto e a contrabando internacional". 😅
A Família
3.4 526 Assista grátisFilme divertido, mas um pouco fraco. "O Grande Chefão" em versão Sessão da Tarde.
Só achei que foi um furo de roteiro passar uma máfia inteira na frente do filho do protagonista, naquela cena do desembarque de trem, e ninguém ver o garoto. E depois verem ele no meio da rua, sozinho, à noite, e não desconfiarem. O garoto é invisível por acaso?
Apocalipse nos Trópicos
3.8 189 Assista AgoraFilme de terror da vida real!
Como Ser Solteira
3.3 493 Assista AgoraTenta ser um filme de humor, mas nem sempre consegue. Francamente, eu prefiro 10 mil vezes o filme de tema análogo, "He's Just Not That Into You" (2009), ao lado do qual este aqui fica bem fraco. Mas enfim, não é um filme de todo ruim.
A Bruxa do Amor
3.6 232 Assista AgoraEsse filme me pegou como um rito de iniciação. Como filha devota de Afrodite, assistir The Love Witch foi como atravessar um espelho encantado — e do outro lado, encontrar o reflexo distorcido de tudo aquilo que a deusa do amor pode se tornar quando o desejo escapa da alma e vira compulsão.
Visualmente, ele é um deleite: parece um filme perdido da década de 70, resgatado de um baú mágico. A paleta saturada, os figurinos, os olhares longos e a atmosfera de feitiço permanente… tudo evoca uma estética cuidadosamente artificial, que seduz como perfume doce demais. Me senti assistindo uma mistura de Elvira, Rainha das Trevas com as alucinações de Alejandro Jodorowsky, temperada com aquela sensação estranha e encantada de uma cidadezinha à la Twin Peaks, onde o bizarro é rotina.
A protagonista, Elaine, é uma bruxa sensual que usa feitiçaria para ser amada — mas os homens que ela seduz acabam arruinados, porque o amor que ela quer é impossível: ela não busca um vínculo, busca ser adorada. E isso é o ponto mais agudo da dor. Pra mim, é evidente: ela é uma filha de Afrodite que perdeu o eixo. Representa o que acontece quando o arquétipo do amor vira excesso — quando o desejo de ser amada se transforma em vício, e a feminilidade, em maldição. Elaine é ao mesmo tempo inspiração e alerta: símbolo do poder da beleza, mas também da prisão que ela pode se tornar.
A diretora, Anna Biller, diz que o filme não é uma paródia, mas uma tragédia sobre a experiência feminina. E faz sentido. Tudo ali gira em torno de como a mulher é ensinada a ser desejável, a performar o encanto, mas raramente a existir fora disso. A bruxaria é metáfora: feminilidade como feitiço — potente, perigosa, e muitas vezes fatal.
Na internet, o filme gerou divisões: tem quem ame como obra feminista brilhante, tem quem ache problemático ou vazio. Também surgiram acusações ideológicas contra a diretora (como ser TERF), mas até agora, tudo especulativo — nada confirmado. O que permanece é a obra em si: estranha, teatral e incômoda no melhor dos sentidos.
No fim, achei o filme curioso, interessante e peculiar. Um tanto estranho (o que é bom), por vezes anticlimático. Mas inquietante. Me deixou com a sensação de ter tocado num espelho mágico — desses que não mostram o que você é, mas o que você poderia ser, se esquecesse quem é.
Românticos Anônimos
3.9 491Água com açúcar, mas com protagonistas muito fofinhos. Só achei ruim a escolha do ator. O cara parece ter idade pra ser pai da moça.
O Convite
3.3 1,1KNão dá para dizer que é um filme ruim, mas também não dá para dizer que é um filme bom.
Nós
3.8 2,4K Assista AgoraFoda para caralho. Até o humor desse filme é foda. Precisei ver uns vídeos no YouTube pra entender certinho.
Amor a Toda Prova
3.8 2,1K Assista AgoraComédia romântica de altíssima qualidade.
Ele Não Está Tão a Fim de Você
3.3 1,6K Assista AgoraAssisti a esse filme pela primeira vez e posso dizer com toda certeza: virou um dos meus preferidos. Não só dentro da comédia romântica – que, convenhamos, costuma reaproveitar os mesmos clichês de sempre – mas como obra mesmo. Na superfície, é uma das comédias mais engraçadas que já vi, com um tipo de humor que não depende de escândalo nem obviedade. É um riso que vem da inteligência e da sutileza. Mas, por baixo, há um filme absurdamente sensível, que toca em lugares que nem todo mundo percebe de primeira.
É o tipo de história que fala de afeto de um jeito maduro, quase silencioso. Te mostra como identificar sinais – mas também como não se perder tentando traduzir os outros. Como sair do modo “detetive de migalhas” e entrar no lugar de quem se permite ser escolhida com clareza. E isso não vem em discursos ensaiados – vem no subtexto, nos gestos minúsculos, nas pausas que dizem mais do que algumas confissões.
A Carla Lemos falou que esse filme desmonta nossas idealizações românticas sem fazer a gente desistir do amor – e é isso. Ele não quebra o encanto; ele desloca. Tira o foco das promessas mirabolantes e coloca no que realmente acolhe: presença, constância, paz. Ísis de Oliveira também escreveu que é um filme leve e sério ao mesmo tempo – e não consigo pensar em definição melhor. Ele te faz rir de verdade, mas também te deixa com aquela pontinha de silêncio depois. Um tipo de silêncio que convida. A repensar padrões. A questionar o quanto a gente insiste onde não há retorno. A lembrar que, às vezes, o problema não é sentir demais – é esperar no lugar errado.
Um Passe de Mágica
3.0 103Passei anos tentando lembrar qual era o filme em que o cavalo virava estátua – ou algo assim. Só agora, por acaso no TikTok, descobri que era Um Passo de Mágica (A Simple Wish, 1997). Na real, o cavalo vira rato, e o pai da menina é quem vira estátua. Finalmente encontrei! E a protagonista é a mesma atriz de Matilda. O filme tem uma vibe deliciosa que lembra Convenção das Bruxas (1990) – nostálgico, bizarro e mágico na medida certa.
Os Vampiros que se Mordam
2.0 2,0K Assista AgoraPropositadamente tosco. As expressões faciais da Becka são impagáveis. A cena dela esguichando sangue na sala de estar dos Cullen me pegou, eu chorei de rir.
Te Amarei Para Sempre
3.7 1,4KA premissa é interessante, mas não é um filme que nos prende.