Achei lindo. Lindo mesmo, no sentido menos preguiçoso da palavra: visualmente cheio de presença, artisticamente muito seguro, com aquela cara de coisa feita por quem entende que Avatar nunca foi só “gente jogando elemento um no outro”, mas uma mistura muito específica de mito, política, humor, trauma e beleza respirável. Como continuidade canônica de A Lenda de Aang, funciona demais. Eu tinha medo de parecer apêndice tardio, caça-nostalgia com verba, mas não: ele consegue voltar para esse mundo sem profanar o templo nem ficar ajoelhado demais diante dele.
Também gostei bastante de como ele entende o lugar histórico do Aang. Não é só “mais uma aventura da Gaang adulta”, embora isso por si só já fosse uma delícia. O filme pega a ferida que sempre ficou ali, meio impossível de resolver — Aang como último sobrevivente cultural dos Nômades do Ar — e coloca essa dor em diálogo com o mundo que depois vai virar Korra: mais urbano, mais desigual, mais politicamente quebrado, mais cheio de gente perguntando por que certos poderes pertencem a alguns corpos e não a outros. Nesse sentido, ele é uma ponte muito boa entre a fábula espiritual de Aang e a modernidade neurótica de Korra.
E eu gostei muito do arco do cetro, sinceramente. Para mim ele não soou como MacGuffin jogado na história só para mover bonequinho no tabuleiro: tudo acaba fechando ao redor dele — Sonam, Tagah, os Denied, quem podia usar, para quê, por que estava escondido, por que era tentador e por que precisava ser destruído. A batalha final também me funcionou por causa disso. Aang só vira o jogo quando entende a lógica do próprio ataque espiritualizado do Tagah e, principalmente, quando consegue acesso ao cetro; não é só “Avatar ficou mais forte porque sim”, é ele compreendendo o mecanismo espiritual e moral da coisa. O mais bonito é justamente essa crueldade narrativa: antes da restauração cósmica dos dobradores de ar em Korra, existiu uma tentativa artificial, desesperada e perigosa de devolver a dobra a quem nunca teve. Aang encontra uma resposta possível para a maior dor dele — e precisa quebrá-la, porque aquilo não restauraria uma cultura, só fabricaria poder com roupa de reparação.
Dito isso, o filme corre. Corre bonito, mas corre. Os Denied são uma ideia ótima — não-dobradores que não querem tirar dobra dos dobradores, mas ganhar dobra também — e mereciam mais carne, mais cotidiano, mais contradição. E o Tagah, embora faça sentido dentro da estrutura, cai um pouco no arquétipo que Korra já tinha gasto com Zaheer: o dominador de ar maligno, a liberdade virando ameaça, o vento descobrindo que também sabe ser faca. Ainda assim, saldo muito positivo. Não achei perfeito, mas achei digno, emocionante e canonicamente muito mais esperto do que eu esperava. Um filme que entende que continuar Aang não é só dar outra missão para ele, é encostar de novo naquilo que nem derrotar Ozai conseguiu curar.
Saí de "Todo Mundo em Pânico" (2026) gostando bem mais do que esperava, especialmente porque o filme entende muito bem a própria linhagem. Para mim, a graça da franquia nunca foi só “parodiar filmes de terror”, mas transformar o pânico cultural da época em piada: primeiro pelo absurdo, depois pelo humor negro, e só então pela crítica social, que muitas vezes aparece por baixo da cena. Nesse sentido, achei o humor bem próximo dos Simpsons das primeiras temporadas: aparentemente idiota, inconveniente e caótico, mas frequentemente cutucando racismo, mídia, moralismo, linguagem, poder e hipocrisia social.
Acho que isso fica muito claro nas piadas envolvendo racismo. O filme não está simplesmente “fazendo piada com raça”, mas expondo o ridículo e a violência de certas estruturas racistas, muitas vezes de forma explícita mesmo. Com a questão trans, senti que a franquia ainda está num terreno mais inicial, talvez porque esse debate não estava no centro da cultura pop quando os filmes anteriores foram feitos. Ainda assim, não achei que o personagem trans tenha sido ridicularizado por ser trans. Na maior parte do tempo, o alvo parece ser muito mais a tentativa confusa de inclusão, especialmente por parte do pai do personagem, e essa performance social meio atrapalhada em torno da linguagem e dos pronomes.
Minha ressalva real é pontual: achei desagradável o uso de um termo pejorativo na dublagem e a forma como isso aparece associado ao Ray, ao gay panic e à ideia antiga de travesti/trans como choque sexual ou segredo vergonhoso. Isso me incomodou mesmo, porque é uma piada velha, vinda de uma gramática que a gente já conhece bem demais. Mas também não achei que essa cena contaminasse o filme inteiro, nem que transformasse a obra em algo simplesmente transfóbico. Para mim, é mais um resíduo mal resolvido de uma franquia tentando atualizar um tipo de humor que nasceu em outra década.
O que mais me ganhou, no fim, foi a metalinguagem. As quebras de quarta parede e as piadas com a própria produção dos filmes antigos funcionam muito porque o filme sabe que é uma relíquia tentando sobreviver em 2026. E quando ele assume isso, fica realmente engraçado: ele ri dos filmes de terror, ri da cultura atual e ri de si mesmo. Achei imperfeito, às vezes meio torto, mas vivo. E, se houver próximos filmes, acho que existe espaço para a franquia elaborar melhor essa camada trans sem perder a acidez, porque quando Todo Mundo em Pânico acerta, ele não está só fazendo piada ofensiva: está mostrando como a cultura entra em pânico com ela mesma.
O que mais me impressionou em Disclosure Day, antes de qualquer discussão de mérito, foi lembrar como Spielberg ainda é monstruoso construindo suspense.
Ele sabe erguer uma cena como quem aperta lentamente uma mola. A tensão sobe, o ar da sala muda, tudo parece prestes a estourar, e então vem uma resolução curtíssima, que dá aquele alívio físico de quem finalmente soltou a respiração. É uma direção muito segura, muito consciente do corpo do espectador.
A fotografia também é absurda. Não é só “bonita” no sentido decorativo; ela realmente coloca a gente dentro da cena. Os ângulos de câmera trabalham DEMAIS para criar imersão, e funciona. Em vários momentos eu senti menos que estava assistindo aos personagens e mais que estava sendo empurrada para dentro daquela pressão junto com eles.
E Emily Blunt, a eterna assistente da Miranda de O Diabo Veste Prada, entrega tudo. Ela faz a Margaret com uma mistura muito difícil de vulnerabilidade, inteligência, desespero e autoridade. Nas mãos de outra atriz, a personagem poderia cair fácil naquele lugar de “protagonista escolhida pelo roteiro”. Com ela, a Margaret tem corpo, medo, dignidade e presença.
O que me pegou no mérito do filme é que Disclosure Day não é apenas uma ficção sobre alienígenas, mas sobre o momento em que uma hipótese deixa de caber confortavelmente no deboche. O filme não prova nada, claro, e nem acho que funcione como documento. Mas Spielberg filma como alguém interessado em dramatizar uma pressão cultural muito real: essa sensação de que existe um segredo grande demais sendo contido por por estruturas de poder.
Talvez por isso esse filme funcione tão bem como alegoria. Menos como “revelação” e mais como encenação de uma pergunta que está ficando cada vez mais difícil de ridicularizar sem pensar: e se a verdade já estivesse rachando por dentro das instituições?
Meu grande problema é o vilão. Achei batido, óbvio e pouco tridimensional. O roteiro até tenta dar um passado de perda e trauma para justificar suas ações, mas isso não basta para transformá-lo em alguém realmente complexo. Ele parece mais uma peça funcional de bloqueio narrativo do que uma presença à altura do resto do filme. E no clímax isso fica muito evidente: quando Margaret consegue restaurar a energia e ele simplesmente deixa de impedir o disclosure, a costura aparece demais. Narrativamente, se ele ainda estava tão comprometido com impedir aquilo, bastava atirar nela ali mesmo. O filme precisa que ele pare de ser eficiente para que a protagonista cumpra seu destino, e esse tipo de conveniência enfraquece bastante a reta final.
Ainda assim, é um filme fortíssimo. Imperfeito, sim, mas grande. Grande na direção, na atmosfera, na atuação da Emily Blunt e principalmente naquilo que Spielberg parece estar tentando fazer: transformar o clima contemporâneo dos UFOs em mito popular, suspense institucional e quase liturgia de massa.
Disclosure Day não me convenceu porque “prova” alguma coisa. Me convenceu porque entende que, às vezes, antes de uma verdade chegar ao mundo, ela aparece como imagem, medo, cinema e pressentimento.
Childhood’s End é uma minissérie de altíssima qualidade em quase tudo: atmosfera, elenco, direção de arte, trilha, fotografia, escala, ambiguidade moral, aquela sensação deliciosa e incômoda de que tem alguma coisa enorme acontecendo por trás da serenidade toda. E a premissa já nasce forte: alienígenas com aparência demoníaca chegam à Terra não como monstros, mas como deuses benevolentes, oferecendo paz, fim da miséria, fim das guerras, uma espécie de utopia administrada. Só isso já sustentaria uma boa história. Mas a série quer mais. Ela começa falando de fé, controle, obediência, salvação e medo, e vai abrindo uma porta muito maior do que parecia existir no começo.
Meu único problema real é que essa porta abre rápido demais. Não acho que seja erro de ideia; pelo contrário, acho que a ideia final é provavelmente a parte mais potente da obra. O problema é que a minissérie parece não ter espaço suficiente para metabolizar o próprio tamanho. Ela quer falar de utopia alienígena, crise religiosa, controle político, destino evolutivo, horror cósmico e transcendência em poucos episódios, e quase consegue. Quase. Mas esse “quase” pesa justamente porque o material é bom demais para ser resolvido com tanta pressa.
A ideia do Overmind, das crianças como próxima forma de consciência e dos adultos como uma espécie de resto evolutivo é fascinante. Linda, horrível, absurda, grandiosa. Só que a série joga essa explicação com uma velocidade meio cruel. Durante boa parte da história, a pergunta parece ser “qual é a real intenção dos Overlords?”. A resposta, de repente, vem numa escala muito maior do que o mistério parecia estar preparando: a humanidade individual era só a infância da consciência cósmica. Nesse sentido, me lembrou muito Pluribus (2025–), mas com uma diferença importante: Pluribus assume desde o início que está falando de consciência coletiva, contágio, perda do eu e assimilação; Childhood’s End esconde esse verdadeiro centro por tempo demais, como se estivesse contando uma história sobre alienígenas benevolentes e, quase no fim, revelasse que sempre esteve contando uma história sobre o fim da individualidade humana. Como conceito, é fortíssimo. Como virada, funciona. Como construção narrativa, eu queria mais tempo para respirar, absorver, entender.
Ainda assim, o impacto fica. Childhood’s End é daquelas obras que continuam crescendo depois que acabam, como se a última imagem demorasse um pouco para atravessar a cabeça. Não dou 5 estrelas porque senti falta de uma construção mais paciente para sustentar o salto final, mas dou 4,5 com muita convicção, porque poucas séries conseguem ser tão elegantes, tão estranhas e tão ambiciosas sem virar só bagunça pretensiosa. É uma obra linda. E meio monstruosa. Tipo um apocalipse falando manso.
A minissérie é bem produzida, especialmente na fotografia, e acaba servindo como uma importante obra de memória e conscientização do que ocorreu em Goiânia. Só achei que, em termos narrativos, é um pouco fraca, arrastada... Tive que assistir em muitas parcelas. Mas não deixa de ser importante para a história nacional e para a educação dos jovens sobre os perigos da ignorância, especialmente em tempos de negacionismo científico.
Eu já gostava muito de Shameless desde a 1ª e a 2ª temporadas, que pra mim foram sensacionais, praticamente impecáveis. A 3ª ainda foi boa, longe de ser ruim, mas senti uma leve queda em comparação com o brilho das duas primeiras. Já a 4ª temporada, sinceramente? Me pegou de um jeito especial. Aqui a série parece ficar ainda mais afiada, mais pesada e, ao mesmo tempo, mais humana.
O que mais me impressionou foi o aprofundamento dos personagens. Não são mais só figuras caóticas, carismáticas e absurdamente engraçadas, embora continuem sendo isso também. Eles ganham mais espessura, mais contradição, mais dor real. E a Fiona, em especial, cresce muito nessa temporada. A série mostra um lado dela muito mais vulnerável, complexo e tridimensional, sem perder a força que sempre fez dela uma personagem tão fascinante.
E isso tudo acontece sem Shameless deixar de ser divertida. Essa temporada tem cenas hilárias, daquelas que te pegam desprevenida, mas também tem cenas extremamente tocantes, pesadas mesmo, que dão um nó na garganta. É justamente essa mistura de humor, miséria, afeto e tragédia que faz a série ser tão única.
No fim das contas, achei a 4ª temporada perfeita. E esse último episódio, então? Sensacional. Daqueles que te deixam olhando pra tela pensando: caralho, como essa série é boa.
Para mim, essa foi a única temporada (até agora) que realmente deixou a desejar.
E digo isso com pesar, porque as duas primeiras foram maravilhosas. A primeira me pegou em cheio, e a segunda, mesmo terminando em cliffhanger, ainda tinha força, coesão e impacto narrativo de sobra. Já essa terceira foi a primeira vez em que senti a obra recaindo naquele efeito que os gringos resumem muito bem como: it got too far up its own ass.
E isso não é um fenômeno exclusivo de Jujutsu, claro. Várias séries acabam caindo nessa em algum momento: ficam tão hipnotizadas pela própria complexidade, pela própria mitologia e pela própria lógica interna que começam a se comunicar mal com quem está do lado de fora. Só que, no caso de Jujutsu, o terreno para isso já existia desde o começo, porque o sistema de magia sempre foi bem complexo. E, nessa terceira temporada, isso desandou de vez.
Teve episódio praticamente inteiro só para info dump, fora vários outros despejos de explicação ao longo da temporada, e mesmo assim o arco continuou quase incompreensível em vários momentos. E isso, para mim, é um problemão. Não me incomoda obra complexa. O que me incomoda é quando a obra fica tão bêbada da própria complexidade que explica, explica, explica, e ainda assim continua confusa.
O outro problema é que a temporada basicamente termina na metade do arco, o que também é um pé no saco. Fica aquela sensação de que você assistiu um bloco enorme de preparação, luta, regra, exposição e movimentação, mas sem a recompensa narrativa correspondente. E isso pesa ainda mais justamente porque o Culling Game já é um arco naturalmente embolado.
Por causa desses dois fatores, essa terceira temporada foi altamente decepcionante do ponto de vista narrativo, sobretudo quando comparada às duas anteriores.
Dito isso, seria desonesto fingir que o resto desabou, porque não desabou. Os diálogos continuam muito bons, os personagens continuam phodas, a animação segue absurda, as lutas continuam um espetáculo, e o advogado com aquele juiz/shikigami que anula feitiços é simplesmente brilhante. Então não é uma temporada ruim no geral. É uma temporada narrativamente frustrante, embora continue fortíssima em quase todo o resto.
No fim, sigo gostando muito de Jujutsu Kaisen. Mas, para mim, essa foi disparada a temporada mais decepcionante até agora.
Avatar: Fogo e Cinzas é, antes de tudo, um filme muito bonito. E olha que beleza visual sozinha, por si só, não costuma me ganhar tão fácil assim. Mas aqui ganha. Pandora continua tendo aquele ar de sagrado, intocado, vivo, como se cada paisagem tivesse sido pensada para provocar deslumbramento e uma espécie de melancolia cósmica ao mesmo tempo. É um filme lindo de ver e de sentir.
Ao mesmo tempo, ele também sofre da mesma doença dos outros dois anteriores: é excessivamente longo. Não chega a ser arrastado o tempo todo, porque há beleza e movimento suficientes para sustentar a experiência, mas ainda assim fica aquela sensação de que James Cameron olha para um filme de 2 horas e pensa: “covardia”.
O que mais me decepcionou, porém, foi perceber que a franquia continua rodando em círculos mais do que deveria. Eu queria sentir aqui uma ruptura mais nítida, um salto mais corajoso, uma sensação real de que a saga finalmente estava se permitindo sair da própria sombra. Mas não. O filme até flerta com isso, só que recua. Continua muito preso à fórmula, ao eixo emocional e ao tipo de conflito que já conhecemos bem demais. E isso pesa, porque Pandora é rica o suficiente para comportar algo mais estranho, mais arriscado, mais inesquecível.
Dito isso, houve uma coisa que realmente me pegou: a centralidade das baleias ancestrais na trama. Gostei muito disso. Muito mesmo. Toda aquela dimensão mais mítica, ritualística e solene envolvendo elas foi, para mim, uma das partes mais interessantes do filme inteiro. E a estética daquele conselho delas — não sei o nome exato, mas enfim, vocês vão entender — é simplesmente belíssima. Ali, sim, senti um vislumbre de novidade, de mistério, de imaginação viva. Queria sinceramente que o filme tivesse confiado ainda mais nisso.
E preciso falar do elefante na sala, ou melhor, do maldito vilão: continua muito presente a sensação de “porra, esse vilão já não tinha morrido?”. E isso já passou do ponto de ser dramático ou intrigante. A esta altura, é só ridículo. Em vez de deixar certos fantasmas descansarem e abrir espaço para uma ameaça nova de verdade, o filme insiste em reciclar um eixo que já deveria ter sido enterrado faz tempo. Então fiquei com uma sensação meio ingrata no fim: vi um filme belíssimo, com momentos de verdadeiro encanto, mas também mais acomodado do que deveria. Bonito, sim. Grande, sim. Mas menos novo do que gostaria — e, por isso mesmo, menos arrebatador do que poderia ter sido.
"Good Luck, Have Fun, Don’t Die" (2026) é uma ficção científica muito ousada. Ele flerta com o terror, com a fantasia e até com uma certa lógica de pesadelo tecnológico, mas, no fim, o que ele está tentando fazer é sci-fi de verdade: brincar com IA pós-singularidade, viagem no tempo, simulação, clonagem e colapso do real sem mastigar tudo para o espectador. E isso, pra mim, tem muito valor. Ao mesmo tempo, tive uma sensação curiosa assistindo: parece um filme mais longo do que realmente é. Não porque seja arrastado o tempo todo, mas porque em alguns momentos ele perde um pouco da tração que precisaria ter para sustentar tantas ideias grandes ao mesmo tempo. Ainda assim, é o tipo de filme que eu admiro mais do que a média justamente por mirar alto, por querer ser estranho, ambicioso e meio perturbador. O problema é que uma coisa é ser complexo, outra é parecer um pouco furado. Assim como eu comentei na minha avaliação de "Primer" (2004), eu não tenho nenhum problema com filme difícil. Gosto, inclusive. O que me incomoda é quando a sensação não é de complexidade bem arquitetada, mas de que os próprios roteiristas talvez não tenham pensado todas as respostas antes de filmar. Aí deixa de ser só instigante e passa a soar um pouco como queijo suíço narrativo: fascinante, mas cheio de buracos. Mesmo assim, achei interessantíssimo. Tem imagens muito fortes, conceitos realmente provocativos e uma ousadia rara dentro da ficção científica contemporânea. É daqueles filmes que continuam ecoando depois, mesmo quando você termina ainda meio confusa e vai parar em análise no YouTube e thread no Reddit tentando montar o quebra-cabeça inteiro. Talvez ele não feche tão bem quanto deveria, mas a ambição dele é grande o bastante para me ganhar.
Pra mim, o filme faz mais sentido quando a gente para de tentar encaixá-lo como uma ficção científica “limpa” de viagem no tempo e aceita que ele funciona numa lógica mais híbrida, quase de videogame. Não necessariamente no sentido de que “era tudo simulação desde o começo”, mas de que aquele mundo já está contaminado por loops, retries, prompts e camadas de realidade manipulada. Isso explica melhor por que tanta coisa parece ao mesmo tempo concreta e estranha, e por que a sensação final não é exatamente de vitória.
Também acho que a Ingrid é muito mais central do que o filme faz parecer no começo. A chave dela não é só ser parceira do homem do futuro, mas ser uma exceção biológica real num mundo dominado pela tecnologia. A alergia dela deixa de parecer só uma esquisitice e passa a soar como possível antídoto. Então o novo plano do homem do futuro, no fim, não seria apenas “tentar de novo”, mas investigar uma forma de perpetuar ou reproduzir essa exceção biológica como resistência à IA.
E aí entra um detalhe que, pra mim, muda bastante coisa: o cartão dado à Ingrid no final parece ser o mesmo da agência ligada à Susan e à clonagem de filhos. Isso faz a cena ganhar outro peso, porque sugere que o novo plano pode passar justamente por essa infraestrutura de clonagem. O filme não mastiga tudo, mas claramente liga maternidade, clonagem, repetição e futuro de um jeito que não parece gratuito.
Sobre o final, o que mais fez sentido pra mim foi pensar que a “vitória” deles já estava contaminada. A IA não quer só destruir; ela quer capturar, seduzir e oferecer uma realidade confortável o bastante para que ninguém mais queira resistir. Por isso aquele desfecho perfeito demais parece menos um final feliz e mais uma armadilha elegante.
No fim, a leitura que mais funcionou pra mim foi essa: é um filme em que viagem no tempo, IA, clonagem e simulação já se embaralharam tanto que até a própria ideia de realidade virou uma coisa instável. Isso não resolve todos os furos, mas pelo menos organiza melhor o caos.
A 2ª temporada foi, até agora, a melhor de Shameless pra mim. A 1ª tinha muito essa função de apresentar aquele universo e os personagens, né? Já aqui, como tudo já está montado, a série consegue aprofundar muito mais as relações e os conflitos. E o mais impressionante é que ela faz isso sem perder o humor: continua tendo cenas absurdamente engraçadas, daquelas de fazer chorar de rir, mas ao mesmo tempo entrega momentos de uma profundidade psicológica e afetiva muito real.
O que mais me pegou nessa temporada foi a forma como Shameless trabalha maternidade e paternidade. A série deixa muito claro que ser pai ou mãe não tem a ver, necessariamente, com biologia. Frank e Monica são os pais “de sangue”, mas isso por si só não faz deles figuras capazes de sustentar esse lugar de forma estável, protetora ou responsável. A Monica até tem afeto, isso dá pra ver, mas afeto sozinho não segura ninguém quando falta estrutura emocional e psíquica. Em contrapartida, a temporada mostra personagens que, mesmo sem laço biológico, conseguem ocupar esse lugar de cuidado de um jeito muito mais verdadeiro.
E foi aí que a relação entre Kevin e Ethel me pegou de jeito. Tem algo de muito bonito e muito doloroso na forma como ele vai se tornando, pra ela, a primeira figura paterna que realmente cuida, acolhe e protege. A cena em que ela, arrumando as malas, agradece “por tudo” me desmontou completamente. Porque não parece um agradecimento por um gesto específico, mas por tudo aquilo que ela finalmente recebeu ali: cuidado, amparo, humanidade. Pra mim, a temporada inteira bate muito nessa tecla de que paternidade e maternidade têm muito mais a ver com presença, vontade de cuidar e responsabilidade afetiva do que com sangue.
A Karen também entra forte nessa discussão. A série não romantiza em nada a maternidade biológica, e eu gostei muito disso. Desde antes do bebê nascer já fica claro que ela não quer ocupar esse lugar, e Shameless não tenta maquiar isso nem transformar recusa em ternura falsa. Acho muito forte quando a série encara essas verdades desconfortáveis sem cair em moralismo barato.
Outra coisa que me conquistou demais foi a relação entre Kevin e Veronica. Eles não são só um casal com química e desejo, embora isso exista muito. O que mais me pega ali é a cumplicidade. Existe entre os dois uma intimidade muito viva, uma sensação de parceria real, de pertencimento, como se eles compartilhassem não só tesão, mas uma vida mesmo. Até quando entram em conflito, quando há ciúme, raiva, erro e desgaste, continua existindo amor, desejo e uma sensação de que um realmente é casa pro outro. E isso deixa tudo ainda mais bonito.
No fundo, o que mais me atravessou nessa temporada foi essa ideia de que um casal e uma família podem, às vezes, virar a chance de viver de outro jeito aquilo que foi ferida na infância. Não no sentido de cura mágica, mas de reparação possível. De finalmente encontrar, no amor e no cuidado, uma cena diferente daquela que faltou antes. Acho que Shameless toca nisso de um jeito muito forte.
No fim, essa temporada me ganhou justamente porque consegue ser caótica, engraçadíssima, triste e profundamente humana ao mesmo tempo. Por trás de toda a sujeira, do humor absurdo e dos personagens completamente disfuncionais, existe uma leitura muito afiada sobre abandono, afeto, cuidado e família. E é aí que a série cresce de verdade.
Eu já tinha cruzado com várias cenas soltas de Shameless no TikTok e sempre ficava com essa sensação de que a série era “pra frente” demais pra televisão tradicional. Apareciam cortes de situações que normalmente são tratadas como tabu, sempre com um grau de ousadia e naturalidade que me chamava muita atenção. Eu tinha a impressão de que era aquele tipo de história que fala de sexo, drogas, precariedade e coisas “feias” da vida sem pedir desculpa, e isso já me deixava curiosa.
Quando finalmente sentei pra ver a primeira temporada, foi amor em tempo recorde. Logo no primeiro episódio eu já estava completamente fisgada, e ali pelos dois primeiros eu já tinha entendido que não era só mais uma dramédia “politicamente incorreta”: era uma série com muito conteúdo por trás da sujeira, do caos e da gritaria. É óbvio que tem momentos extremamente ácidos, piadas cruéis, cenas bem explícitas e situações que, em qualquer outra produção, soariam apenas gratuitas. Mas aqui eu senti exatamente o contrário: o fato de conseguirem encaixar obscenidade, nudez, humor pesado e temas espinhosos com tanta naturalidade e, ao mesmo tempo, com profundidade de enredo, virou um mérito, não um defeito.
Shameless consegue fazer algo difícil: mostrar uma família quebrada, atolada em problemas financeiros, emocionais e afetivos, sem cair nem na romantização boba nem no miserê apelativo. A série fala de sobrecarga emocional, de filhos que viram cuidadores, de amizades que funcionam como rede de apoio improvisada, de gente que se vira com o que tem, do jeito que dá, em um contexto de abandono estrutural. Tudo isso atravessado por um humor ácido e sagaz, que às vezes faz você rir e, dois segundos depois, perceber o quão trágica é a situação que acabou de achar engraçada. No fim das contas, a primeira temporada me passou essa sensação de que, por trás de todas as cenas “obscenas” e do choque inicial, existe uma história muito bem escrita sobre família, lealdade e sobrevivência emocional em um mundo que não está minimamente preocupado em ser gentil com ninguém.
Nos personagens, pra mim, a temporada se organiza muito em torno de três eixos: Fiona, Frank e Lip. A Fiona é o exemplo mais gritante de alguém que abdicou da própria vida pra segurar um castelo que vive caindo. Ela é, de fato, o pilar daquela casa, não por vocação materna fofinha, mas porque a mãe fugiu e o pai é um Homer Simpson de Chernobyl, incapaz de assumir qualquer responsabilidade que não seja a próxima garrafa. Gosto muito de como a série mostra o cansaço dela, o jeito que ela tenta ter uma vida própria e, ao mesmo tempo, não consegue não cuidar de todo mundo. A primeira temporada já deixa claro que ela merecia um mundo mais gentil do que aquele, mas também que sem ela tudo desmorona em dois minutos.
O Lip é um dos meus favoritos. Ele é meio porra louca, vive tomando decisões questionáveis, mas o coração dele está no lugar o tempo todo. É o típico garoto superinteligente, autossabotado pelo contexto e pelas próprias escolhas, que às vezes parece que vai ser engolido pelo ambiente onde vive. Gosto de como ele equilibra cinismo com cuidado real pela família, sem nunca virar “o bonzinho” da história. Já o Ian eu achei simplesmente adorável desde o começo. Ele é introvertido, mais contido, mas muito corajoso na forma como vive a própria homossexualidade ali naquele contexto todo torto. A namorada de fachada, a amiga da escola, as pequenas estratégias pra se proteger e, ao mesmo tempo, não negar quem ele é… tudo isso foi me ganhando.
A irmã mais nova, a Debbie, é outro destaque gigante. Ela é muito inteligente, muito avançada pra idade, com um senso de cuidado e de leitura emocional das coisas que às vezes supera o dos adultos. É aquela criança que você sente que merecia uma infância muito mais leve, mas que faz o possível dentro do caos que tem. O Carl, por outro lado, é quase o oposto: a criança com uma violência meio inata, que reage às coisas mais bizarras e perturbadoras com uma naturalidade assustadora. E é justamente isso que rende alguns dos momentos mais engraçados e mais incômodos ao mesmo tempo, porque a série não esconde que tem algo errado ali, mas também usa essa “brincadeira com a brutalidade” como comentário sobre o ambiente em que ele está crescendo.
O Frank, como já dá pra perceber desde o primeiro episódio, é esse Homer Simpson elevado à enésima potência: um pai tão ruim que até o Homer pareceria responsável ao lado dele. Ele funciona como alívio cômico em várias cenas, mas também como retrato muito incômodo de um alcoolismo narcísico que atravessa a vida de muita gente. Ele ri, manipula, some, reaparece, faz discurso bonito quando interessa, e a série não tenta redimir isso com facilidade. A Sheila, a mulher com quem ele vai morar, entra quase como uma co-protagonista, trazendo essa mistura muito específica de fragilidade, esquisitice e doçura. É uma personagem que, mesmo cheia de manias e limitações, acaba oferecendo um tipo de afeto e cuidado que o Frank nunca teve em lugar nenhum.
Sobre o Steve (que na verdade é Jimmy), eu comecei gostando muito dele. A forma como ele trata a Fiona, o jeito como parece entrar na bagunça da família sem julgamento, tudo isso faz com que ele ganhe muitos pontos rápido. Só que a primeira temporada também vai revelando as camadas de mentira: o nome falso, a família que ele esconde, a escolha de fugir em vez de encarar as consequências e ir pra cadeia. No fim das contas, por mais carismático que ele seja, tudo isso derruba bastante o crédito dele. E aí sobra o policial loiro, o Tony, que é quase o oposto: doce, correto, devotado, aquele cara que ajuda a tirar os irmãos da cadeia, que se declara, que tem a virgindade “roubada” pela Fiona… e, ainda assim, não é suficiente pra despertar desejo nela. Dá até dó, porque ele claramente merecia alguém que olhasse pra ele com o mesmo brilho que ela reserva pros caras mais caóticos. Mas é coerente: a série mostra que a Fiona se sente viva justamente com esses homens mais perigosos e instáveis, e a segunda temporada já começa deixando isso bem claro.
Pra mim, a cereja do bolo da primeira temporada é, sem dúvida, a Sheila. No comecinho, eu jurei que ela ia ser só uma personagem irritante, meio caricata, presa na própria neurose. Aquelas manias, a casa hermeticamente fechada, o pânico absoluto diante da porta… tudo parecia raso de propósito. Só que, conforme a temporada avança, a série vai abrindo camadas dela com uma delicadeza absurda. A fobia de sair de casa deixa de ser “esquisitice” e vira um retrato muito sensível de trauma, medo e paralisia, e é muito bonito ver como, mesmo apavorada, ela consegue atravessar esses limites quando é realmente necessário: seja por desespero, seja por raiva, seja pra proteger o bebê da Fiona ou defender a própria filha do pai abusivo.
Tem uma cena específica, aliás, que ficou marcada em mim de um jeito quase doloroso de tão bonita: quando a Sheila fica responsável de cuidar do bebê a pedido do Steve. Ver ela se divertindo, se encantando e se organizando em torno daquele corpinho pequeno ativou muito o meu instinto materno, porque dá para sentir que aquele cuidado faz bem para todo mundo ao mesmo tempo: para ela, que encontra uma função amorosa concreta; para o bebê, que recebe um colo seguro; e para a família dele, que pode respirar um pouco fora da lógica exaustiva dos cuidados. Ali eu tive a sensação de que a Sheila vira, de fato, uma das figuras mais importantes do enredo: ela é quem encarna a função materna para os personagens mais jovens e funciona como uma espécie de esposa carinhosa improvisada para o Frank, mesmo sem nunca ter assinado papel nenhum.
Gosto muito de como, aos poucos, a Sheila vai deixando de ser “a mulher estranha do Frank” pra se tornar um dos corações mais humanos da série. Tem uma cena perto do final da temporada em que o Frank diz que ela é a única pessoa capaz de ser gentil com ele, e aquilo resume bem o lugar que ela ocupa ali. Ela é carinhosa com a filha, com o Frank, com as crianças, com quem cruzar o caminho dela, quase como se esse coração enorme nem coubesse só na própria história. A primeira impressão é de figura cômica e irritante; a última é de uma mulher profundamente doce, complexa e corajosa, que a gente aprende a amar sem nem perceber quando foi que isso aconteceu.
O filme realmente é muito ruim, em termos de roteiro. Não tem um "pacing" legal, não cativa. A única coisa legal é a parte da fantasia sci-fi. Mas o filme, em si, é uma bosta.
Severance sempre foi uma série que sabe caminhar em silêncio, e a primeira temporada fez isso com uma elegância rara. Cada cena parecia empurrar o mundo para um lugar mais estranho, mais tenso, mais inevitável. Terminei a S1 com a sensação de ter visto algo muito coeso, uma distopia íntima que não precisava gritar para ser brutal.
A segunda temporada, pra mim, quebra esse feitiço em dois pontos muito específicos: o episódio do retiro na neve e o episódio da cidade natal da Cobel. Eu entendo a intenção de abrir o mundo, aprofundar mitologia e dar textura. Mas do jeito que isso foi executado, a série saiu do próprio trilho e começou a girar em torno de si mesma. Não como expansão, mas como digressão que drena tensão.
O efeito foi direto e incômodo: eu não consegui assistir de forma contínua. Assisti parcelado, perdia o interesse, voltava outro dia, sempre me perguntando se ainda valia a pena continuar. Isso nunca aconteceu comigo na primeira temporada. Na S1, eu era puxada pela narrativa. Aqui, em certos momentos, me senti largada no acostamento.
O que dói é que Severance continua cheia de ideias fortes e imagens que ficam na cabeça. Mas esses desvios narrativos, pra mim, jogaram a percepção de qualidade da temporada no chão quando comparados com a precisão cirúrgica da primeira. Fica a sensação de um coração brilhante tentando bater dentro de uma estrutura que decidiu se alongar onde não precisava.
Another Earth é aquele tipo de “ficção científica” que usa carcaça de sci-fi, mas não está nem aí pra explicar cientificamente nada. O filme não quer discutir astrofísica, quer perguntar outra coisa: o que você faz depois de destruir a vida de alguém e continuar existindo? A tal Earth 2 funciona como um espelho meio cruel, meio fascinante: a ideia de que existe, em algum lugar, uma versão sua que viveu exatamente a mesma história até certo ponto… mas talvez não tenha cometido aquele erro específico. O filme costura culpa, luto, desejo de segunda chance e, principalmente, a dificuldade de perdoar o outro e a si mesmo, em diálogos aparentemente simples, silêncios desconfortáveis e no jeito como o corpo e o toque viram linguagem quando as palavras já não dão conta.
Gosto muito de como a relação entre os dois protagonistas é construída sempre em cima de fissuras. Tem a curiosidade real que um sente pelo outro, a conversa sobre Platão e a caverna, as especulações sobre a outra Terra… e, ao mesmo tempo, uma tensão moral enorme que o filme não tenta romantizar. É um sci-fi intimista que troca grandes efeitos por duas pessoas quebradas tentando se aproximar sem saber se merecem isso. No meio desse desconforto todo, o filme vai abrindo pequenas frestas de cuidado, música e presença física que, pra mim, são o verdadeiro coração da história.
Pra quem gosta de Eneagrama, eu diria que é o filme mais “tipo 4” que eu já vi na vida: essa coisa de viver tudo em alta voltagem emocional, transformar culpa em estética, procurar sentido dentro da própria ferida. Pra quem não sabe o que é Eneagrama 4, pensa naquele arquétipo da pessoa que sente tudo fundo, se percebe diferente, carrega melancolia bonita e, mesmo assim, insiste em encontrar beleza no meio do desastre. Tem uma cena em especial, estranha e linda, em que ele leva ela para um lugar vazio e toca um “violino” que na verdade é um serrote de verdade. É bizarro, poético e emocionalmente deslocado do jeito mais 4 possível.
Tem três blocos específicos que me pegaram de um jeito muito pessoal.
O primeiro envolve justamente essa mistura de fascínio estético e desconforto moral. Depois de toda a aproximação, ele leva ela pra esse espaço vazio, toca aquela música absurda usando um serrote como se fosse violino, cria um momento quase hipnótico… e os dois acabam transando. Até aí já existe um estranhamento ético forte, porque a gente sabe o que ela fez com a vida dele e o filme não tenta fingir que isso é um romance “fofo”. Logo depois, quando ele começa a falar sobre a motorista adolescente que causou o acidente, sem saber que está falando dela, a contradição explode. E o corpo dela simplesmente devolve tudo: ela sai, pega o metrô, se olha no espelho e vomita. Não é “nojo” dele, é o corpo recusando a posição impossível em que ela se colocou: ao mesmo tempo amante e algoz daquele homem. Esse desconforto é totalmente intencional, e eu achei muito forte o filme ter coragem de ir até aí sem aliviar.
O segundo momento, pra mim o mais poderoso de todos, é a cena do faxineiro que colocou cloro nos próprios olhos e ouvidos, ficou cego e surdo e está internado. Ele é quase uma versão extrema do impulso dela de desaparecer do mundo. Quando ela chega perto, ele reconhece a presença dela só pelo toque e fala o nome dela, mesmo sem ver nem ouvir. Ela deita na cama junto com ele, cria ali um tipo de aconchego que não passa pela linguagem, é só corpo, calor, peso. E então vem o detalhe que eu achei absolutamente sublime: ela pega a palma da mão dele e escreve, letra por letra, “forgive”. Os dois choram. É a mensagem inteira do filme condensada em um gesto mínimo: a possibilidade de perdoar o outro e, principalmente, de começar a se perdoar.
O final amarra tudo isso de um jeito que eu achei muito bonito. Ela ganha a passagem pra Earth 2, o grande prêmio, a chance literal de fugir pra um lugar onde talvez “nada disso” tenha acontecido. E escolhe dar o bilhete pra ele, o homem cuja família ela matou, pra que ele possa ir descobrir se, na outra Terra, a família ainda está viva. Ela encontra um tipo estranho de paz ali: não porque as coisas se resolveram magicamente, mas porque, dentro do irreparável, ela fez o máximo que podia. Abriu mão da própria fuga pra oferecer a ele uma possibilidade de reencontro.
E aí vem a cena final, quando uma outra ela – a “ela” da Earth 2 – aparece na sua frente. Esse encontro só existe porque ela ficou na Earth 1. É justamente ao entregar o convite que era dela que ela consegue, simbolicamente e literalmente, se reencontrar consigo mesma. No fim, Another Earth, pra mim, é sobre isso: viver com a dor do que não tem conserto e, ainda assim, encontrar coragem pra permanecer, perdoar e se olhar de volta sem desviar o rosto.
Filme bem legalzinho. Cumpre o papel de entreter e faz dar algumas risadas. Entrega TUDO em elenco. Passa rápido: quando você dá conta, o filme já acabou. Só achei que as coisas se resolveram rápido demais, como se tivesse faltado conflitos.
Sinceramente, achei de uma qualidade de humor, de diálogos e de profundidade muito maior do que os filmes de hoje em dia. Assim como "He's Just Not That Into You", que também foi lançado em 2009, TiMER mostra a força do cinema da primeira década dos anos 2000.
A Steph é talvez a personagem mais interessante do filme inteiro – e ela sabe disso. Inapropriada de um jeito genial. Já o Mikey mostrou que, mesmo um jovem rapaz tem potencial de ser um grande homem, se souber como tratar uma grande mulher.
A cena final, da Oona com o Dan, mostra que, sim, há uma fagulha entre eles, que, mais cedo ou mais tarde, acabará se tornando inevitável que se transforme em um grande amor. Mas, apesar disso, não é ele quem ela está escolhendo amar no momento, e sim o Mikey – que provou (junto com o exemplo da separação dos pais da Oona) que, no fim, o que vale é esse amor que se constrói, sem idealizações, mas com atos concretos de amor.
Callum Turner ("Luke") é um dos meus maiores crushes do cinema. Elizabeth Olsen ("Joan") é uma das minhas maiores inspirações. Vocês façam as contas. Como 1+1=2, esse elenco está incrível.
O filme é divertido. Romance que une comédia e fantasia. A proposta é legal. Adorei ver os cartazes das eternidades.
Só achei que foi um furo de roteiro passar uma máfia inteira na frente do filho do protagonista, naquela cena do desembarque de trem, e ninguém ver o garoto. E depois verem ele no meio da rua, sozinho, à noite, e não desconfiarem. O garoto é invisível por acaso?
Avatar Aang: O Último Mestre do Ar
4.1 61 Assista AgoraAchei lindo. Lindo mesmo, no sentido menos preguiçoso da palavra: visualmente cheio de presença, artisticamente muito seguro, com aquela cara de coisa feita por quem entende que Avatar nunca foi só “gente jogando elemento um no outro”, mas uma mistura muito específica de mito, política, humor, trauma e beleza respirável. Como continuidade canônica de A Lenda de Aang, funciona demais. Eu tinha medo de parecer apêndice tardio, caça-nostalgia com verba, mas não: ele consegue voltar para esse mundo sem profanar o templo nem ficar ajoelhado demais diante dele.
Também gostei bastante de como ele entende o lugar histórico do Aang. Não é só “mais uma aventura da Gaang adulta”, embora isso por si só já fosse uma delícia. O filme pega a ferida que sempre ficou ali, meio impossível de resolver — Aang como último sobrevivente cultural dos Nômades do Ar — e coloca essa dor em diálogo com o mundo que depois vai virar Korra: mais urbano, mais desigual, mais politicamente quebrado, mais cheio de gente perguntando por que certos poderes pertencem a alguns corpos e não a outros. Nesse sentido, ele é uma ponte muito boa entre a fábula espiritual de Aang e a modernidade neurótica de Korra.
E eu gostei muito do arco do cetro, sinceramente. Para mim ele não soou como MacGuffin jogado na história só para mover bonequinho no tabuleiro: tudo acaba fechando ao redor dele — Sonam, Tagah, os Denied, quem podia usar, para quê, por que estava escondido, por que era tentador e por que precisava ser destruído. A batalha final também me funcionou por causa disso. Aang só vira o jogo quando entende a lógica do próprio ataque espiritualizado do Tagah e, principalmente, quando consegue acesso ao cetro; não é só “Avatar ficou mais forte porque sim”, é ele compreendendo o mecanismo espiritual e moral da coisa. O mais bonito é justamente essa crueldade narrativa: antes da restauração cósmica dos dobradores de ar em Korra, existiu uma tentativa artificial, desesperada e perigosa de devolver a dobra a quem nunca teve. Aang encontra uma resposta possível para a maior dor dele — e precisa quebrá-la, porque aquilo não restauraria uma cultura, só fabricaria poder com roupa de reparação.
Dito isso, o filme corre. Corre bonito, mas corre. Os Denied são uma ideia ótima — não-dobradores que não querem tirar dobra dos dobradores, mas ganhar dobra também — e mereciam mais carne, mais cotidiano, mais contradição. E o Tagah, embora faça sentido dentro da estrutura, cai um pouco no arquétipo que Korra já tinha gasto com Zaheer: o dominador de ar maligno, a liberdade virando ameaça, o vento descobrindo que também sabe ser faca. Ainda assim, saldo muito positivo. Não achei perfeito, mas achei digno, emocionante e canonicamente muito mais esperto do que eu esperava. Um filme que entende que continuar Aang não é só dar outra missão para ele, é encostar de novo naquilo que nem derrotar Ozai conseguiu curar.
Todo Mundo em Pânico
2.6 352 Assista AgoraSaí de "Todo Mundo em Pânico" (2026) gostando bem mais do que esperava, especialmente porque o filme entende muito bem a própria linhagem. Para mim, a graça da franquia nunca foi só “parodiar filmes de terror”, mas transformar o pânico cultural da época em piada: primeiro pelo absurdo, depois pelo humor negro, e só então pela crítica social, que muitas vezes aparece por baixo da cena. Nesse sentido, achei o humor bem próximo dos Simpsons das primeiras temporadas: aparentemente idiota, inconveniente e caótico, mas frequentemente cutucando racismo, mídia, moralismo, linguagem, poder e hipocrisia social.
Acho que isso fica muito claro nas piadas envolvendo racismo. O filme não está simplesmente “fazendo piada com raça”, mas expondo o ridículo e a violência de certas estruturas racistas, muitas vezes de forma explícita mesmo. Com a questão trans, senti que a franquia ainda está num terreno mais inicial, talvez porque esse debate não estava no centro da cultura pop quando os filmes anteriores foram feitos. Ainda assim, não achei que o personagem trans tenha sido ridicularizado por ser trans. Na maior parte do tempo, o alvo parece ser muito mais a tentativa confusa de inclusão, especialmente por parte do pai do personagem, e essa performance social meio atrapalhada em torno da linguagem e dos pronomes.
Minha ressalva real é pontual: achei desagradável o uso de um termo pejorativo na dublagem e a forma como isso aparece associado ao Ray, ao gay panic e à ideia antiga de travesti/trans como choque sexual ou segredo vergonhoso. Isso me incomodou mesmo, porque é uma piada velha, vinda de uma gramática que a gente já conhece bem demais. Mas também não achei que essa cena contaminasse o filme inteiro, nem que transformasse a obra em algo simplesmente transfóbico. Para mim, é mais um resíduo mal resolvido de uma franquia tentando atualizar um tipo de humor que nasceu em outra década.
O que mais me ganhou, no fim, foi a metalinguagem. As quebras de quarta parede e as piadas com a própria produção dos filmes antigos funcionam muito porque o filme sabe que é uma relíquia tentando sobreviver em 2026. E quando ele assume isso, fica realmente engraçado: ele ri dos filmes de terror, ri da cultura atual e ri de si mesmo. Achei imperfeito, às vezes meio torto, mas vivo. E, se houver próximos filmes, acho que existe espaço para a franquia elaborar melhor essa camada trans sem perder a acidez, porque quando Todo Mundo em Pânico acerta, ele não está só fazendo piada ofensiva: está mostrando como a cultura entra em pânico com ela mesma.
Dia D
3.0 540 Assista AgoraO que mais me impressionou em Disclosure Day, antes de qualquer discussão de mérito, foi lembrar como Spielberg ainda é monstruoso construindo suspense.
Ele sabe erguer uma cena como quem aperta lentamente uma mola. A tensão sobe, o ar da sala muda, tudo parece prestes a estourar, e então vem uma resolução curtíssima, que dá aquele alívio físico de quem finalmente soltou a respiração. É uma direção muito segura, muito consciente do corpo do espectador.
A fotografia também é absurda. Não é só “bonita” no sentido decorativo; ela realmente coloca a gente dentro da cena. Os ângulos de câmera trabalham DEMAIS para criar imersão, e funciona. Em vários momentos eu senti menos que estava assistindo aos personagens e mais que estava sendo empurrada para dentro daquela pressão junto com eles.
E Emily Blunt, a eterna assistente da Miranda de O Diabo Veste Prada, entrega tudo. Ela faz a Margaret com uma mistura muito difícil de vulnerabilidade, inteligência, desespero e autoridade. Nas mãos de outra atriz, a personagem poderia cair fácil naquele lugar de “protagonista escolhida pelo roteiro”. Com ela, a Margaret tem corpo, medo, dignidade e presença.
O que me pegou no mérito do filme é que Disclosure Day não é apenas uma ficção sobre alienígenas, mas sobre o momento em que uma hipótese deixa de caber confortavelmente no deboche. O filme não prova nada, claro, e nem acho que funcione como documento. Mas Spielberg filma como alguém interessado em dramatizar uma pressão cultural muito real: essa sensação de que existe um segredo grande demais sendo contido por por estruturas de poder.
Talvez por isso esse filme funcione tão bem como alegoria. Menos como “revelação” e mais como encenação de uma pergunta que está ficando cada vez mais difícil de ridicularizar sem pensar: e se a verdade já estivesse rachando por dentro das instituições?
Meu grande problema é o vilão. Achei batido, óbvio e pouco tridimensional. O roteiro até tenta dar um passado de perda e trauma para justificar suas ações, mas isso não basta para transformá-lo em alguém realmente complexo. Ele parece mais uma peça funcional de bloqueio narrativo do que uma presença à altura do resto do filme. E no clímax isso fica muito evidente: quando Margaret consegue restaurar a energia e ele simplesmente deixa de impedir o disclosure, a costura aparece demais. Narrativamente, se ele ainda estava tão comprometido com impedir aquilo, bastava atirar nela ali mesmo. O filme precisa que ele pare de ser eficiente para que a protagonista cumpra seu destino, e esse tipo de conveniência enfraquece bastante a reta final.
Ainda assim, é um filme fortíssimo. Imperfeito, sim, mas grande. Grande na direção, na atmosfera, na atuação da Emily Blunt e principalmente naquilo que Spielberg parece estar tentando fazer: transformar o clima contemporâneo dos UFOs em mito popular, suspense institucional e quase liturgia de massa.
Disclosure Day não me convenceu porque “prova” alguma coisa. Me convenceu porque entende que, às vezes, antes de uma verdade chegar ao mundo, ela aparece como imagem, medo, cinema e pressentimento.
O Fim Da Infância
3.5 53Childhood’s End é uma minissérie de altíssima qualidade em quase tudo: atmosfera, elenco, direção de arte, trilha, fotografia, escala, ambiguidade moral, aquela sensação deliciosa e incômoda de que tem alguma coisa enorme acontecendo por trás da serenidade toda. E a premissa já nasce forte: alienígenas com aparência demoníaca chegam à Terra não como monstros, mas como deuses benevolentes, oferecendo paz, fim da miséria, fim das guerras, uma espécie de utopia administrada. Só isso já sustentaria uma boa história. Mas a série quer mais. Ela começa falando de fé, controle, obediência, salvação e medo, e vai abrindo uma porta muito maior do que parecia existir no começo.
Meu único problema real é que essa porta abre rápido demais. Não acho que seja erro de ideia; pelo contrário, acho que a ideia final é provavelmente a parte mais potente da obra. O problema é que a minissérie parece não ter espaço suficiente para metabolizar o próprio tamanho. Ela quer falar de utopia alienígena, crise religiosa, controle político, destino evolutivo, horror cósmico e transcendência em poucos episódios, e quase consegue. Quase. Mas esse “quase” pesa justamente porque o material é bom demais para ser resolvido com tanta pressa.
A ideia do Overmind, das crianças como próxima forma de consciência e dos adultos como uma espécie de resto evolutivo é fascinante. Linda, horrível, absurda, grandiosa. Só que a série joga essa explicação com uma velocidade meio cruel. Durante boa parte da história, a pergunta parece ser “qual é a real intenção dos Overlords?”. A resposta, de repente, vem numa escala muito maior do que o mistério parecia estar preparando: a humanidade individual era só a infância da consciência cósmica. Nesse sentido, me lembrou muito Pluribus (2025–), mas com uma diferença importante: Pluribus assume desde o início que está falando de consciência coletiva, contágio, perda do eu e assimilação; Childhood’s End esconde esse verdadeiro centro por tempo demais, como se estivesse contando uma história sobre alienígenas benevolentes e, quase no fim, revelasse que sempre esteve contando uma história sobre o fim da individualidade humana. Como conceito, é fortíssimo. Como virada, funciona. Como construção narrativa, eu queria mais tempo para respirar, absorver, entender.
Ainda assim, o impacto fica. Childhood’s End é daquelas obras que continuam crescendo depois que acabam, como se a última imagem demorasse um pouco para atravessar a cabeça. Não dou 5 estrelas porque senti falta de uma construção mais paciente para sustentar o salto final, mas dou 4,5 com muita convicção, porque poucas séries conseguem ser tão elegantes, tão estranhas e tão ambiciosas sem virar só bagunça pretensiosa. É uma obra linda. E meio monstruosa. Tipo um apocalipse falando manso.
Emergência Radioativa
3.9 220 Assista AgoraA minissérie é bem produzida, especialmente na fotografia, e acaba servindo como uma importante obra de memória e conscientização do que ocorreu em Goiânia. Só achei que, em termos narrativos, é um pouco fraca, arrastada... Tive que assistir em muitas parcelas. Mas não deixa de ser importante para a história nacional e para a educação dos jovens sobre os perigos da ignorância, especialmente em tempos de negacionismo científico.
Shameless (US) (5ª Temporada)
4.2 167 Assista AgoraMuito boa. Talvez só não seja tão boa quanto a quarta temporada.
Shameless (US) (4ª Temporada)
4.6 264 Assista AgoraQue temporada foda.
Eu já gostava muito de Shameless desde a 1ª e a 2ª temporadas, que pra mim foram sensacionais, praticamente impecáveis. A 3ª ainda foi boa, longe de ser ruim, mas senti uma leve queda em comparação com o brilho das duas primeiras. Já a 4ª temporada, sinceramente? Me pegou de um jeito especial. Aqui a série parece ficar ainda mais afiada, mais pesada e, ao mesmo tempo, mais humana.
O que mais me impressionou foi o aprofundamento dos personagens. Não são mais só figuras caóticas, carismáticas e absurdamente engraçadas, embora continuem sendo isso também. Eles ganham mais espessura, mais contradição, mais dor real. E a Fiona, em especial, cresce muito nessa temporada. A série mostra um lado dela muito mais vulnerável, complexo e tridimensional, sem perder a força que sempre fez dela uma personagem tão fascinante.
E isso tudo acontece sem Shameless deixar de ser divertida. Essa temporada tem cenas hilárias, daquelas que te pegam desprevenida, mas também tem cenas extremamente tocantes, pesadas mesmo, que dão um nó na garganta. É justamente essa mistura de humor, miséria, afeto e tragédia que faz a série ser tão única.
No fim das contas, achei a 4ª temporada perfeita. E esse último episódio, então? Sensacional. Daqueles que te deixam olhando pra tela pensando: caralho, como essa série é boa.
Jujutsu Kaisen (3ª Temporada)
4.0 32 Assista AgoraPara mim, essa foi a única temporada (até agora) que realmente deixou a desejar.
E digo isso com pesar, porque as duas primeiras foram maravilhosas. A primeira me pegou em cheio, e a segunda, mesmo terminando em cliffhanger, ainda tinha força, coesão e impacto narrativo de sobra. Já essa terceira foi a primeira vez em que senti a obra recaindo naquele efeito que os gringos resumem muito bem como: it got too far up its own ass.
E isso não é um fenômeno exclusivo de Jujutsu, claro. Várias séries acabam caindo nessa em algum momento: ficam tão hipnotizadas pela própria complexidade, pela própria mitologia e pela própria lógica interna que começam a se comunicar mal com quem está do lado de fora. Só que, no caso de Jujutsu, o terreno para isso já existia desde o começo, porque o sistema de magia sempre foi bem complexo. E, nessa terceira temporada, isso desandou de vez.
Teve episódio praticamente inteiro só para info dump, fora vários outros despejos de explicação ao longo da temporada, e mesmo assim o arco continuou quase incompreensível em vários momentos. E isso, para mim, é um problemão. Não me incomoda obra complexa. O que me incomoda é quando a obra fica tão bêbada da própria complexidade que explica, explica, explica, e ainda assim continua confusa.
O outro problema é que a temporada basicamente termina na metade do arco, o que também é um pé no saco. Fica aquela sensação de que você assistiu um bloco enorme de preparação, luta, regra, exposição e movimentação, mas sem a recompensa narrativa correspondente. E isso pesa ainda mais justamente porque o Culling Game já é um arco naturalmente embolado.
Por causa desses dois fatores, essa terceira temporada foi altamente decepcionante do ponto de vista narrativo, sobretudo quando comparada às duas anteriores.
Dito isso, seria desonesto fingir que o resto desabou, porque não desabou. Os diálogos continuam muito bons, os personagens continuam phodas, a animação segue absurda, as lutas continuam um espetáculo, e o advogado com aquele juiz/shikigami que anula feitiços é simplesmente brilhante. Então não é uma temporada ruim no geral. É uma temporada narrativamente frustrante, embora continue fortíssima em quase todo o resto.
No fim, sigo gostando muito de Jujutsu Kaisen. Mas, para mim, essa foi disparada a temporada mais decepcionante até agora.
Avatar: Fogo e Cinzas
3.5 355 Assista AgoraAvatar: Fogo e Cinzas é, antes de tudo, um filme muito bonito. E olha que beleza visual sozinha, por si só, não costuma me ganhar tão fácil assim. Mas aqui ganha. Pandora continua tendo aquele ar de sagrado, intocado, vivo, como se cada paisagem tivesse sido pensada para provocar deslumbramento e uma espécie de melancolia cósmica ao mesmo tempo. É um filme lindo de ver e de sentir.
Ao mesmo tempo, ele também sofre da mesma doença dos outros dois anteriores: é excessivamente longo. Não chega a ser arrastado o tempo todo, porque há beleza e movimento suficientes para sustentar a experiência, mas ainda assim fica aquela sensação de que James Cameron olha para um filme de 2 horas e pensa: “covardia”.
O que mais me decepcionou, porém, foi perceber que a franquia continua rodando em círculos mais do que deveria. Eu queria sentir aqui uma ruptura mais nítida, um salto mais corajoso, uma sensação real de que a saga finalmente estava se permitindo sair da própria sombra. Mas não. O filme até flerta com isso, só que recua. Continua muito preso à fórmula, ao eixo emocional e ao tipo de conflito que já conhecemos bem demais. E isso pesa, porque Pandora é rica o suficiente para comportar algo mais estranho, mais arriscado, mais inesquecível.
Dito isso, houve uma coisa que realmente me pegou: a centralidade das baleias ancestrais na trama. Gostei muito disso. Muito mesmo. Toda aquela dimensão mais mítica, ritualística e solene envolvendo elas foi, para mim, uma das partes mais interessantes do filme inteiro. E a estética daquele conselho delas — não sei o nome exato, mas enfim, vocês vão entender — é simplesmente belíssima. Ali, sim, senti um vislumbre de novidade, de mistério, de imaginação viva. Queria sinceramente que o filme tivesse confiado ainda mais nisso.
E preciso falar do elefante na sala, ou melhor, do maldito vilão: continua muito presente a sensação de “porra, esse vilão já não tinha morrido?”. E isso já passou do ponto de ser dramático ou intrigante. A esta altura, é só ridículo. Em vez de deixar certos fantasmas descansarem e abrir espaço para uma ameaça nova de verdade, o filme insiste em reciclar um eixo que já deveria ter sido enterrado faz tempo. Então fiquei com uma sensação meio ingrata no fim: vi um filme belíssimo, com momentos de verdadeiro encanto, mas também mais acomodado do que deveria. Bonito, sim. Grande, sim. Mas menos novo do que gostaria — e, por isso mesmo, menos arrebatador do que poderia ter sido.
Shameless (US) (3ª Temporada)
4.6 172Cada vez mais apaixonada por essa série.
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
3.3 79"Good Luck, Have Fun, Don’t Die" (2026) é uma ficção científica muito ousada. Ele flerta com o terror, com a fantasia e até com uma certa lógica de pesadelo tecnológico, mas, no fim, o que ele está tentando fazer é sci-fi de verdade: brincar com IA pós-singularidade, viagem no tempo, simulação, clonagem e colapso do real sem mastigar tudo para o espectador. E isso, pra mim, tem muito valor.
Ao mesmo tempo, tive uma sensação curiosa assistindo: parece um filme mais longo do que realmente é. Não porque seja arrastado o tempo todo, mas porque em alguns momentos ele perde um pouco da tração que precisaria ter para sustentar tantas ideias grandes ao mesmo tempo. Ainda assim, é o tipo de filme que eu admiro mais do que a média justamente por mirar alto, por querer ser estranho, ambicioso e meio perturbador.
O problema é que uma coisa é ser complexo, outra é parecer um pouco furado. Assim como eu comentei na minha avaliação de "Primer" (2004), eu não tenho nenhum problema com filme difícil. Gosto, inclusive. O que me incomoda é quando a sensação não é de complexidade bem arquitetada, mas de que os próprios roteiristas talvez não tenham pensado todas as respostas antes de filmar. Aí deixa de ser só instigante e passa a soar um pouco como queijo suíço narrativo: fascinante, mas cheio de buracos.
Mesmo assim, achei interessantíssimo. Tem imagens muito fortes, conceitos realmente provocativos e uma ousadia rara dentro da ficção científica contemporânea. É daqueles filmes que continuam ecoando depois, mesmo quando você termina ainda meio confusa e vai parar em análise no YouTube e thread no Reddit tentando montar o quebra-cabeça inteiro. Talvez ele não feche tão bem quanto deveria, mas a ambição dele é grande o bastante para me ganhar.
Pra mim, o filme faz mais sentido quando a gente para de tentar encaixá-lo como uma ficção científica “limpa” de viagem no tempo e aceita que ele funciona numa lógica mais híbrida, quase de videogame. Não necessariamente no sentido de que “era tudo simulação desde o começo”, mas de que aquele mundo já está contaminado por loops, retries, prompts e camadas de realidade manipulada. Isso explica melhor por que tanta coisa parece ao mesmo tempo concreta e estranha, e por que a sensação final não é exatamente de vitória.
Também acho que a Ingrid é muito mais central do que o filme faz parecer no começo. A chave dela não é só ser parceira do homem do futuro, mas ser uma exceção biológica real num mundo dominado pela tecnologia. A alergia dela deixa de parecer só uma esquisitice e passa a soar como possível antídoto. Então o novo plano do homem do futuro, no fim, não seria apenas “tentar de novo”, mas investigar uma forma de perpetuar ou reproduzir essa exceção biológica como resistência à IA.
E aí entra um detalhe que, pra mim, muda bastante coisa: o cartão dado à Ingrid no final parece ser o mesmo da agência ligada à Susan e à clonagem de filhos. Isso faz a cena ganhar outro peso, porque sugere que o novo plano pode passar justamente por essa infraestrutura de clonagem. O filme não mastiga tudo, mas claramente liga maternidade, clonagem, repetição e futuro de um jeito que não parece gratuito.
Sobre o final, o que mais fez sentido pra mim foi pensar que a “vitória” deles já estava contaminada. A IA não quer só destruir; ela quer capturar, seduzir e oferecer uma realidade confortável o bastante para que ninguém mais queira resistir. Por isso aquele desfecho perfeito demais parece menos um final feliz e mais uma armadilha elegante.
No fim, a leitura que mais funcionou pra mim foi essa: é um filme em que viagem no tempo, IA, clonagem e simulação já se embaralharam tanto que até a própria ideia de realidade virou uma coisa instável. Isso não resolve todos os furos, mas pelo menos organiza melhor o caos.
Shameless (US) (2ª Temporada)
4.5 158A 2ª temporada foi, até agora, a melhor de Shameless pra mim. A 1ª tinha muito essa função de apresentar aquele universo e os personagens, né? Já aqui, como tudo já está montado, a série consegue aprofundar muito mais as relações e os conflitos. E o mais impressionante é que ela faz isso sem perder o humor: continua tendo cenas absurdamente engraçadas, daquelas de fazer chorar de rir, mas ao mesmo tempo entrega momentos de uma profundidade psicológica e afetiva muito real.
O que mais me pegou nessa temporada foi a forma como Shameless trabalha maternidade e paternidade. A série deixa muito claro que ser pai ou mãe não tem a ver, necessariamente, com biologia. Frank e Monica são os pais “de sangue”, mas isso por si só não faz deles figuras capazes de sustentar esse lugar de forma estável, protetora ou responsável. A Monica até tem afeto, isso dá pra ver, mas afeto sozinho não segura ninguém quando falta estrutura emocional e psíquica. Em contrapartida, a temporada mostra personagens que, mesmo sem laço biológico, conseguem ocupar esse lugar de cuidado de um jeito muito mais verdadeiro.
E foi aí que a relação entre Kevin e Ethel me pegou de jeito. Tem algo de muito bonito e muito doloroso na forma como ele vai se tornando, pra ela, a primeira figura paterna que realmente cuida, acolhe e protege. A cena em que ela, arrumando as malas, agradece “por tudo” me desmontou completamente. Porque não parece um agradecimento por um gesto específico, mas por tudo aquilo que ela finalmente recebeu ali: cuidado, amparo, humanidade. Pra mim, a temporada inteira bate muito nessa tecla de que paternidade e maternidade têm muito mais a ver com presença, vontade de cuidar e responsabilidade afetiva do que com sangue.
A Karen também entra forte nessa discussão. A série não romantiza em nada a maternidade biológica, e eu gostei muito disso. Desde antes do bebê nascer já fica claro que ela não quer ocupar esse lugar, e Shameless não tenta maquiar isso nem transformar recusa em ternura falsa. Acho muito forte quando a série encara essas verdades desconfortáveis sem cair em moralismo barato.
Outra coisa que me conquistou demais foi a relação entre Kevin e Veronica. Eles não são só um casal com química e desejo, embora isso exista muito. O que mais me pega ali é a cumplicidade. Existe entre os dois uma intimidade muito viva, uma sensação de parceria real, de pertencimento, como se eles compartilhassem não só tesão, mas uma vida mesmo. Até quando entram em conflito, quando há ciúme, raiva, erro e desgaste, continua existindo amor, desejo e uma sensação de que um realmente é casa pro outro. E isso deixa tudo ainda mais bonito.
No fundo, o que mais me atravessou nessa temporada foi essa ideia de que um casal e uma família podem, às vezes, virar a chance de viver de outro jeito aquilo que foi ferida na infância. Não no sentido de cura mágica, mas de reparação possível. De finalmente encontrar, no amor e no cuidado, uma cena diferente daquela que faltou antes. Acho que Shameless toca nisso de um jeito muito forte.
No fim, essa temporada me ganhou justamente porque consegue ser caótica, engraçadíssima, triste e profundamente humana ao mesmo tempo. Por trás de toda a sujeira, do humor absurdo e dos personagens completamente disfuncionais, existe uma leitura muito afiada sobre abandono, afeto, cuidado e família. E é aí que a série cresce de verdade.
Shameless (US) (1ª Temporada)
4.5 264 Assista AgoraEu já tinha cruzado com várias cenas soltas de Shameless no TikTok e sempre ficava com essa sensação de que a série era “pra frente” demais pra televisão tradicional. Apareciam cortes de situações que normalmente são tratadas como tabu, sempre com um grau de ousadia e naturalidade que me chamava muita atenção. Eu tinha a impressão de que era aquele tipo de história que fala de sexo, drogas, precariedade e coisas “feias” da vida sem pedir desculpa, e isso já me deixava curiosa.
Quando finalmente sentei pra ver a primeira temporada, foi amor em tempo recorde. Logo no primeiro episódio eu já estava completamente fisgada, e ali pelos dois primeiros eu já tinha entendido que não era só mais uma dramédia “politicamente incorreta”: era uma série com muito conteúdo por trás da sujeira, do caos e da gritaria. É óbvio que tem momentos extremamente ácidos, piadas cruéis, cenas bem explícitas e situações que, em qualquer outra produção, soariam apenas gratuitas. Mas aqui eu senti exatamente o contrário: o fato de conseguirem encaixar obscenidade, nudez, humor pesado e temas espinhosos com tanta naturalidade e, ao mesmo tempo, com profundidade de enredo, virou um mérito, não um defeito.
Shameless consegue fazer algo difícil: mostrar uma família quebrada, atolada em problemas financeiros, emocionais e afetivos, sem cair nem na romantização boba nem no miserê apelativo. A série fala de sobrecarga emocional, de filhos que viram cuidadores, de amizades que funcionam como rede de apoio improvisada, de gente que se vira com o que tem, do jeito que dá, em um contexto de abandono estrutural. Tudo isso atravessado por um humor ácido e sagaz, que às vezes faz você rir e, dois segundos depois, perceber o quão trágica é a situação que acabou de achar engraçada. No fim das contas, a primeira temporada me passou essa sensação de que, por trás de todas as cenas “obscenas” e do choque inicial, existe uma história muito bem escrita sobre família, lealdade e sobrevivência emocional em um mundo que não está minimamente preocupado em ser gentil com ninguém.
Nos personagens, pra mim, a temporada se organiza muito em torno de três eixos: Fiona, Frank e Lip. A Fiona é o exemplo mais gritante de alguém que abdicou da própria vida pra segurar um castelo que vive caindo. Ela é, de fato, o pilar daquela casa, não por vocação materna fofinha, mas porque a mãe fugiu e o pai é um Homer Simpson de Chernobyl, incapaz de assumir qualquer responsabilidade que não seja a próxima garrafa. Gosto muito de como a série mostra o cansaço dela, o jeito que ela tenta ter uma vida própria e, ao mesmo tempo, não consegue não cuidar de todo mundo. A primeira temporada já deixa claro que ela merecia um mundo mais gentil do que aquele, mas também que sem ela tudo desmorona em dois minutos.
O Lip é um dos meus favoritos. Ele é meio porra louca, vive tomando decisões questionáveis, mas o coração dele está no lugar o tempo todo. É o típico garoto superinteligente, autossabotado pelo contexto e pelas próprias escolhas, que às vezes parece que vai ser engolido pelo ambiente onde vive. Gosto de como ele equilibra cinismo com cuidado real pela família, sem nunca virar “o bonzinho” da história. Já o Ian eu achei simplesmente adorável desde o começo. Ele é introvertido, mais contido, mas muito corajoso na forma como vive a própria homossexualidade ali naquele contexto todo torto. A namorada de fachada, a amiga da escola, as pequenas estratégias pra se proteger e, ao mesmo tempo, não negar quem ele é… tudo isso foi me ganhando.
A irmã mais nova, a Debbie, é outro destaque gigante. Ela é muito inteligente, muito avançada pra idade, com um senso de cuidado e de leitura emocional das coisas que às vezes supera o dos adultos. É aquela criança que você sente que merecia uma infância muito mais leve, mas que faz o possível dentro do caos que tem. O Carl, por outro lado, é quase o oposto: a criança com uma violência meio inata, que reage às coisas mais bizarras e perturbadoras com uma naturalidade assustadora. E é justamente isso que rende alguns dos momentos mais engraçados e mais incômodos ao mesmo tempo, porque a série não esconde que tem algo errado ali, mas também usa essa “brincadeira com a brutalidade” como comentário sobre o ambiente em que ele está crescendo.
O Frank, como já dá pra perceber desde o primeiro episódio, é esse Homer Simpson elevado à enésima potência: um pai tão ruim que até o Homer pareceria responsável ao lado dele. Ele funciona como alívio cômico em várias cenas, mas também como retrato muito incômodo de um alcoolismo narcísico que atravessa a vida de muita gente. Ele ri, manipula, some, reaparece, faz discurso bonito quando interessa, e a série não tenta redimir isso com facilidade. A Sheila, a mulher com quem ele vai morar, entra quase como uma co-protagonista, trazendo essa mistura muito específica de fragilidade, esquisitice e doçura. É uma personagem que, mesmo cheia de manias e limitações, acaba oferecendo um tipo de afeto e cuidado que o Frank nunca teve em lugar nenhum.
Sobre o Steve (que na verdade é Jimmy), eu comecei gostando muito dele. A forma como ele trata a Fiona, o jeito como parece entrar na bagunça da família sem julgamento, tudo isso faz com que ele ganhe muitos pontos rápido. Só que a primeira temporada também vai revelando as camadas de mentira: o nome falso, a família que ele esconde, a escolha de fugir em vez de encarar as consequências e ir pra cadeia. No fim das contas, por mais carismático que ele seja, tudo isso derruba bastante o crédito dele. E aí sobra o policial loiro, o Tony, que é quase o oposto: doce, correto, devotado, aquele cara que ajuda a tirar os irmãos da cadeia, que se declara, que tem a virgindade “roubada” pela Fiona… e, ainda assim, não é suficiente pra despertar desejo nela. Dá até dó, porque ele claramente merecia alguém que olhasse pra ele com o mesmo brilho que ela reserva pros caras mais caóticos. Mas é coerente: a série mostra que a Fiona se sente viva justamente com esses homens mais perigosos e instáveis, e a segunda temporada já começa deixando isso bem claro.
Pra mim, a cereja do bolo da primeira temporada é, sem dúvida, a Sheila. No comecinho, eu jurei que ela ia ser só uma personagem irritante, meio caricata, presa na própria neurose. Aquelas manias, a casa hermeticamente fechada, o pânico absoluto diante da porta… tudo parecia raso de propósito. Só que, conforme a temporada avança, a série vai abrindo camadas dela com uma delicadeza absurda. A fobia de sair de casa deixa de ser “esquisitice” e vira um retrato muito sensível de trauma, medo e paralisia, e é muito bonito ver como, mesmo apavorada, ela consegue atravessar esses limites quando é realmente necessário: seja por desespero, seja por raiva, seja pra proteger o bebê da Fiona ou defender a própria filha do pai abusivo.
Tem uma cena específica, aliás, que ficou marcada em mim de um jeito quase doloroso de tão bonita: quando a Sheila fica responsável de cuidar do bebê a pedido do Steve. Ver ela se divertindo, se encantando e se organizando em torno daquele corpinho pequeno ativou muito o meu instinto materno, porque dá para sentir que aquele cuidado faz bem para todo mundo ao mesmo tempo: para ela, que encontra uma função amorosa concreta; para o bebê, que recebe um colo seguro; e para a família dele, que pode respirar um pouco fora da lógica exaustiva dos cuidados. Ali eu tive a sensação de que a Sheila vira, de fato, uma das figuras mais importantes do enredo: ela é quem encarna a função materna para os personagens mais jovens e funciona como uma espécie de esposa carinhosa improvisada para o Frank, mesmo sem nunca ter assinado papel nenhum.
Gosto muito de como, aos poucos, a Sheila vai deixando de ser “a mulher estranha do Frank” pra se tornar um dos corações mais humanos da série. Tem uma cena perto do final da temporada em que o Frank diz que ela é a única pessoa capaz de ser gentil com ele, e aquilo resume bem o lugar que ela ocupa ali. Ela é carinhosa com a filha, com o Frank, com as crianças, com quem cruzar o caminho dela, quase como se esse coração enorme nem coubesse só na própria história. A primeira impressão é de figura cômica e irritante; a última é de uma mulher profundamente doce, complexa e corajosa, que a gente aprende a amar sem nem perceber quando foi que isso aconteceu.
A Torre Negra
2.6 841 Assista AgoraO filme realmente é muito ruim, em termos de roteiro. Não tem um "pacing" legal, não cativa. A única coisa legal é a parte da fantasia sci-fi. Mas o filme, em si, é uma bosta.
Ruptura (2ª Temporada)
4.1 350 Assista AgoraSeverance sempre foi uma série que sabe caminhar em silêncio, e a primeira temporada fez isso com uma elegância rara. Cada cena parecia empurrar o mundo para um lugar mais estranho, mais tenso, mais inevitável. Terminei a S1 com a sensação de ter visto algo muito coeso, uma distopia íntima que não precisava gritar para ser brutal.
A segunda temporada, pra mim, quebra esse feitiço em dois pontos muito específicos: o episódio do retiro na neve e o episódio da cidade natal da Cobel. Eu entendo a intenção de abrir o mundo, aprofundar mitologia e dar textura. Mas do jeito que isso foi executado, a série saiu do próprio trilho e começou a girar em torno de si mesma. Não como expansão, mas como digressão que drena tensão.
O efeito foi direto e incômodo: eu não consegui assistir de forma contínua. Assisti parcelado, perdia o interesse, voltava outro dia, sempre me perguntando se ainda valia a pena continuar. Isso nunca aconteceu comigo na primeira temporada. Na S1, eu era puxada pela narrativa. Aqui, em certos momentos, me senti largada no acostamento.
O que dói é que Severance continua cheia de ideias fortes e imagens que ficam na cabeça. Mas esses desvios narrativos, pra mim, jogaram a percepção de qualidade da temporada no chão quando comparados com a precisão cirúrgica da primeira. Fica a sensação de um coração brilhante tentando bater dentro de uma estrutura que decidiu se alongar onde não precisava.
A Outra Terra
3.7 878 Assista AgoraAnother Earth é aquele tipo de “ficção científica” que usa carcaça de sci-fi, mas não está nem aí pra explicar cientificamente nada. O filme não quer discutir astrofísica, quer perguntar outra coisa: o que você faz depois de destruir a vida de alguém e continuar existindo? A tal Earth 2 funciona como um espelho meio cruel, meio fascinante: a ideia de que existe, em algum lugar, uma versão sua que viveu exatamente a mesma história até certo ponto… mas talvez não tenha cometido aquele erro específico. O filme costura culpa, luto, desejo de segunda chance e, principalmente, a dificuldade de perdoar o outro e a si mesmo, em diálogos aparentemente simples, silêncios desconfortáveis e no jeito como o corpo e o toque viram linguagem quando as palavras já não dão conta.
Gosto muito de como a relação entre os dois protagonistas é construída sempre em cima de fissuras. Tem a curiosidade real que um sente pelo outro, a conversa sobre Platão e a caverna, as especulações sobre a outra Terra… e, ao mesmo tempo, uma tensão moral enorme que o filme não tenta romantizar. É um sci-fi intimista que troca grandes efeitos por duas pessoas quebradas tentando se aproximar sem saber se merecem isso. No meio desse desconforto todo, o filme vai abrindo pequenas frestas de cuidado, música e presença física que, pra mim, são o verdadeiro coração da história.
Pra quem gosta de Eneagrama, eu diria que é o filme mais “tipo 4” que eu já vi na vida: essa coisa de viver tudo em alta voltagem emocional, transformar culpa em estética, procurar sentido dentro da própria ferida. Pra quem não sabe o que é Eneagrama 4, pensa naquele arquétipo da pessoa que sente tudo fundo, se percebe diferente, carrega melancolia bonita e, mesmo assim, insiste em encontrar beleza no meio do desastre. Tem uma cena em especial, estranha e linda, em que ele leva ela para um lugar vazio e toca um “violino” que na verdade é um serrote de verdade. É bizarro, poético e emocionalmente deslocado do jeito mais 4 possível.
Tem três blocos específicos que me pegaram de um jeito muito pessoal.
O primeiro envolve justamente essa mistura de fascínio estético e desconforto moral. Depois de toda a aproximação, ele leva ela pra esse espaço vazio, toca aquela música absurda usando um serrote como se fosse violino, cria um momento quase hipnótico… e os dois acabam transando. Até aí já existe um estranhamento ético forte, porque a gente sabe o que ela fez com a vida dele e o filme não tenta fingir que isso é um romance “fofo”. Logo depois, quando ele começa a falar sobre a motorista adolescente que causou o acidente, sem saber que está falando dela, a contradição explode. E o corpo dela simplesmente devolve tudo: ela sai, pega o metrô, se olha no espelho e vomita. Não é “nojo” dele, é o corpo recusando a posição impossível em que ela se colocou: ao mesmo tempo amante e algoz daquele homem. Esse desconforto é totalmente intencional, e eu achei muito forte o filme ter coragem de ir até aí sem aliviar.
O segundo momento, pra mim o mais poderoso de todos, é a cena do faxineiro que colocou cloro nos próprios olhos e ouvidos, ficou cego e surdo e está internado. Ele é quase uma versão extrema do impulso dela de desaparecer do mundo. Quando ela chega perto, ele reconhece a presença dela só pelo toque e fala o nome dela, mesmo sem ver nem ouvir. Ela deita na cama junto com ele, cria ali um tipo de aconchego que não passa pela linguagem, é só corpo, calor, peso. E então vem o detalhe que eu achei absolutamente sublime: ela pega a palma da mão dele e escreve, letra por letra, “forgive”. Os dois choram. É a mensagem inteira do filme condensada em um gesto mínimo: a possibilidade de perdoar o outro e, principalmente, de começar a se perdoar.
O final amarra tudo isso de um jeito que eu achei muito bonito. Ela ganha a passagem pra Earth 2, o grande prêmio, a chance literal de fugir pra um lugar onde talvez “nada disso” tenha acontecido. E escolhe dar o bilhete pra ele, o homem cuja família ela matou, pra que ele possa ir descobrir se, na outra Terra, a família ainda está viva. Ela encontra um tipo estranho de paz ali: não porque as coisas se resolveram magicamente, mas porque, dentro do irreparável, ela fez o máximo que podia. Abriu mão da própria fuga pra oferecer a ele uma possibilidade de reencontro.
E aí vem a cena final, quando uma outra ela – a “ela” da Earth 2 – aparece na sua frente. Esse encontro só existe porque ela ficou na Earth 1. É justamente ao entregar o convite que era dela que ela consegue, simbolicamente e literalmente, se reencontrar consigo mesma. No fim, Another Earth, pra mim, é sobre isso: viver com a dor do que não tem conserto e, ainda assim, encontrar coragem pra permanecer, perdoar e se olhar de volta sem desviar o rosto.
Jeffrey Epstein: Poder e Perversão
3.7 148 Assista AgoraFilme de terror da vida real!
Pisque Duas Vezes
3.5 663Um pouco difícil de entender (ligar os pontos), mas é um dos melhores filmes de terror que eu já vi até hoje.
O Mistério de Varginha
3.2 36 Assista AgoraDocumentário excelente sobre uma história que marcou o Brasil e o mundo. Mostra todos os lados, todos os depoimentos e contradições.
Oito Mulheres e um Segredo
3.6 1,1K Assista AgoraFilme bem legalzinho. Cumpre o papel de entreter e faz dar algumas risadas. Entrega TUDO em elenco. Passa rápido: quando você dá conta, o filme já acabou. Só achei que as coisas se resolveram rápido demais, como se tivesse faltado conflitos.
Timer: Contagem Regressiva Para o Amor
3.2 186 Assista AgoraSinceramente, achei de uma qualidade de humor, de diálogos e de profundidade muito maior do que os filmes de hoje em dia. Assim como "He's Just Not That Into You", que também foi lançado em 2009, TiMER mostra a força do cinema da primeira década dos anos 2000.
A Steph é talvez a personagem mais interessante do filme inteiro – e ela sabe disso. Inapropriada de um jeito genial. Já o Mikey mostrou que, mesmo um jovem rapaz tem potencial de ser um grande homem, se souber como tratar uma grande mulher.
A cena final, da Oona com o Dan, mostra que, sim, há uma fagulha entre eles, que, mais cedo ou mais tarde, acabará se tornando inevitável que se transforme em um grande amor. Mas, apesar disso, não é ele quem ela está escolhendo amar no momento, e sim o Mikey – que provou (junto com o exemplo da separação dos pais da Oona) que, no fim, o que vale é esse amor que se constrói, sem idealizações, mas com atos concretos de amor.
Eternidade
3.5 178 Assista AgoraCallum Turner ("Luke") é um dos meus maiores crushes do cinema. Elizabeth Olsen ("Joan") é uma das minhas maiores inspirações. Vocês façam as contas. Como 1+1=2, esse elenco está incrível.
O filme é divertido. Romance que une comédia e fantasia. A proposta é legal. Adorei ver os cartazes das eternidades.
A maior demonstração de amor do Larry foi deixá-la ir embora, por imaginar que esse seria o ápice da felicidade dela.
Família do Bagulho
3.6 1,5K Assista AgoraDivertido. Filme vibe "Sessão da Tarde para +18 com alusão a incesto e a contrabando internacional". 😅
A Família
3.4 526 Assista grátisFilme divertido, mas um pouco fraco. "O Grande Chefão" em versão Sessão da Tarde.
Só achei que foi um furo de roteiro passar uma máfia inteira na frente do filho do protagonista, naquela cena do desembarque de trem, e ninguém ver o garoto. E depois verem ele no meio da rua, sozinho, à noite, e não desconfiarem. O garoto é invisível por acaso?