Um homem descobre um retrato de uma mulher pelo qual logo adquire uma paixão platônica. A mulher vem a conhecê-lo e se fascina com o ocorrido, porém logo percebe que a admiração não se torna recíproca à imagem real daquela mulher.
No início, Halil parece um abestalhado. Mas depois, percebe-se que ele tinha seu modo de amar, do qual se move, porém, com um pouco de orgulho e receio., com os quais o pai de Meral corrobora.
Imersão poética na alma do amor. Gracioso, romântico, ingênuo e idealista. Cantiga desarrazoada do coração. Um p&b tudo de bom. É um.filme amoroso. É bonito é bonito e irritante. Você tem que se deixar levar, se deleitar com a fulguração do amor. É uma inquietude, uma solidão compartilhada que arde do lado esquerdo do peito. Vinho inebriante e energético. Crime do qual se precisa de cúmplice para se cumprir. Ritmo marítimo do mistério. Pintura verdadeira de si e do outro. Forma sagrada da beleza: amor
Pelo que li, é um filme baseado em um conto sufi, que na tradição encara o caminho para o amor de modo místico. Isso ajuda a entender a abordagem aqui, menos verossímil, mais idealizada, ou poética. Na superestrutura as relações e ações das personagens parecem pouco críveis, mas de modo conceitual funcionam melhor, pois se trata aqui do contraste entre o amor por algo em abstrato ou idealizado ao invés do encontro com o real, do amor a uma representação que a figura real representada, da disposição a devoção a uma representação do olhar silencioso que a relação com algo que possa em algum momento se desalinhar em perspectiva. O caminho do amor seria a partir desse conflito interno, no tempo correto, finalmente encarar a concretude da relação amorosa.
Tecnicamente o filme abusa de uma tapeçaria de inspirados frames, planos e close-ups em preto e branco, e algumas excelentes blocagens que indicam as direções às vezes convergentes, às vezes divergentes do casal. Em termos de representação, talvez seja mal visto hoje a forma como se constrói a figura feminina (Meral), sempre solícita ao homem (Halil). Mas é interessante notar que a devoção de Meral por Halil é uma contrapartida a devoção deste pela sua (dela) fotografia. Halil é apaixonado por uma representação, por algo de divino que ele viu naqueles olhos, talvez. Mas Meral, a princípio, se apaixona por Halil por um conceito, por seu amor devoto e incondicional ao retrato. Em uma das cenas, Meral lê "A Arte de Amar", do poeta romano Ovídio, que é praticamente um "O Príncipe" de Maquiavel com relação ao amor. Portanto, há um jogo interessante aqui em relação ao que cada um vê ou procura no outro.
Apaixonar-se pelo quadro e não pela pessoa, um romance onde o protagonista passa o tempo todo tentando fugir da realidade, ou vivendo em sua própria. O ritmo do filme é lento, mas isso também reflete o conflito e indecisão dos protagonistas. 22/05/2024
Um cantinho, um alaude, um sapato bezuntado em lama e muita indecisão.
10/10
Que filme lindo! Os comentários abaixo me convenceram a vê-lo e eu não me arrependi. Fiquei muito satisfeita.
No início, Halil parece um abestalhado. Mas depois, percebe-se que ele tinha seu modo de amar, do qual se move, porém, com um pouco de orgulho e receio., com os quais o pai de Meral corrobora.
Imersão poética na alma do amor. Gracioso, romântico, ingênuo e idealista. Cantiga desarrazoada do coração. Um p&b tudo de bom. É um.filme amoroso. É bonito é bonito e irritante. Você tem que se deixar levar, se deleitar com a fulguração do amor. É uma inquietude, uma solidão compartilhada que arde do lado esquerdo do peito. Vinho inebriante e energético. Crime do qual se precisa de cúmplice para se cumprir. Ritmo marítimo do mistério. Pintura verdadeira de si e do outro. Forma sagrada da beleza: amor
Pelo que li, é um filme baseado em um conto sufi, que na tradição encara o caminho para o amor de modo místico. Isso ajuda a entender a abordagem aqui, menos verossímil, mais idealizada, ou poética. Na superestrutura as relações e ações das personagens parecem pouco críveis, mas de modo conceitual funcionam melhor, pois se trata aqui do contraste entre o amor por algo em abstrato ou idealizado ao invés do encontro com o real, do amor a uma representação que a figura real representada, da disposição a devoção a uma representação do olhar silencioso que a relação com algo que possa em algum momento se desalinhar em perspectiva. O caminho do amor seria a partir desse conflito interno, no tempo correto, finalmente encarar a concretude da relação amorosa.
Tecnicamente o filme abusa de uma tapeçaria de inspirados frames, planos e close-ups em preto e branco, e algumas excelentes blocagens que indicam as direções às vezes convergentes, às vezes divergentes do casal. Em termos de representação, talvez seja mal visto hoje a forma como se constrói a figura feminina (Meral), sempre solícita ao homem (Halil). Mas é interessante notar que a devoção de Meral por Halil é uma contrapartida a devoção deste pela sua (dela) fotografia. Halil é apaixonado por uma representação, por algo de divino que ele viu naqueles olhos, talvez. Mas Meral, a princípio, se apaixona por Halil por um conceito, por seu amor devoto e incondicional ao retrato. Em uma das cenas, Meral lê "A Arte de Amar", do poeta romano Ovídio, que é praticamente um "O Príncipe" de Maquiavel com relação ao amor. Portanto, há um jogo interessante aqui em relação ao que cada um vê ou procura no outro.
O final deixa claro que eles transcendem essa barreira, mesmo que brevemente.
Apaixonar-se pelo quadro e não pela pessoa, um romance onde o protagonista passa o tempo todo tentando fugir da realidade, ou vivendo em sua própria. O ritmo do filme é lento, mas isso também reflete o conflito e indecisão dos protagonistas. 22/05/2024