Crônicas do cotidiano no Iraque antes e depois da invasão Norte-americana.
‘Parte I: Antes da queda’ (duração: 2h40m). Durante vários meses o diretor filmou um grupo de iraquianos, na sua maioria membros de sua própria família, em suas expectativas sobre a guerra. Essa primeira parte do filme se encerra com o início dos ataques norte-americanos à Bagdá. ‘Parte II: Após a batalha’ (duração: 2h54m). Os americanos invadem o Iraque, e o filme mostra as consequências dessa invasão no cotidiano dos personagens.
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Homeland (Iraq Year Zero) e as memórias pessoais em um país em conflito
Homeland – Iraq Year Zero (Terra Natal – Iraque Ano Zero, Abbas Fahdel, 2015), mais que um filme político é um filme sobre o tempo. Abbas Fahdel, entre tantas possibilidades narrativas (ou não) e de linguagem, escolheu fazer um filme de 5h13. Admito que no segundo dia de Olhar de Cinema adentrei na sala 2 do Espaço Itaú com certa resistência. Eram 313 minutos de um dia ensolarado dedicados a um único filme, e que, eu sabia, seria denso, pois devido ao contexto não poderia ser diferente.
Dividido em duas partes, a primeira dedica-se aos meses anteriores à ocupação norte-americana do país e a segunda nos mostra a rotina dos iraquianos duas semanas após dos bombardeios em diante. Num aspecto lúdico, Abbas nos leva para sua casa, nos introduzindo no seio de uma família qualquer que poderia ser a minha ou a sua, porém é uma família que vive em meio a uma instável situação política e na expectativa de um iminente ataque.
Em forma de crônica, o diretor acompanha o dia a dia de seus familiares entre estocamentos, quedas de luz e cortes de água. Fui surpreendida pelo lirismo dos jovens em tentar encarar a realidade cruel da guerra com bom humor e união gerando no espectador empatia e identificação. Desta forma, Fahdel transforma em sujeito personagens cujas vidas a mídia ocidental se dedicou a distorcer, desumanizar e distanciar. Boa parte da obra é dedicada à exibição de rostos, milhares deles. Olhares assustados, curiosos com o artifício do câmera, desconfortáveis, tímidos, sorridentes, decepcionados, cansados… humanos.
De maneira crítica, contemplativa e, ao mesmo tempo, melancólica, vemos na tela fantasmas de um conflito que deixou casas e famílias iraquianas em ruínas. Mesmo com o descontento de muitos, parte da população iraquiana estava esperançosa pela queda do regime de Saddam Hussein na expectativa da instauração de uma democracia, de estabilidade política e econômica e por um sonho de crescimento. A decepção surge rapidamente após a truculência e falta de estratégia dos americanos ao deixarem a população iraquiana à beira do caos, da violência e da miséria.
Colocando-me no lugar de Abbas Fahdel, não é difícil entender o porquê de um filme tão longo. Fahdel, no período de um ano filmou pessoas que amava e, algumas delas, que perdeu. Mexer em um arquivo praticamente familiar depois de 13 anos deve trazer muita coisa à mente de um homem que, para mostrar o lado iraquiano da história, toca em feridas do próprio passado. Depois de tantas horas convivendo com os Fahdel, sentimo-nos quase um parente; rimos juntos, dividimos o mesmo medo e os dilemas. De caráter nostálgico, Abbas encontrou uma forma de estender as vidas de pessoas que sente falta, tornando eternos aqueles que se foram.
Para um filme tão pessoal, abrir mão do apego deve ser terrivelmente difícil. Como decidir o que colocar e o que cortar de imagens da própria vida? São cinco horas de memórias. Possíveis espectros de uma guerra que Fahdel carrega em forma de imagem, imagens e registros de momentos que mudariam sua vida e sua forma de ver o mundo para sempre. Assim como eu quando saí da sala de cinema à noite, com chuva, com fome, e mentalmente exausta. O sol se foi e tudo era diferente de quando entrei, Homeland faz isso com as pessoas…
não fosse o doc, nunca poderíamos ter presenciado isso. verdadeiro e íntimo pacas ❤
Originalmente publicado em produtor.org
O longa (longuíssima!), com mais de 5 horas e meia de duração documenta dois importantes momentos históricos do Iraque: a tensão pré-guerra, que acabou com a queda do ditador Saddam Hussein; e os resultados imediatos da ocupação norte-americana no país.
Fahdel, protegido por sua câmera, busca interferir o mínimo possível na história que sua lente registra, mas o fato de ele documentar diretamente a sua família, faz com que ele sempre seja trazido de volta para dentro da narrativa. Por mais contraditório que tal afirmação possa soar, suas filmagens encontram um limiar entre a obra de Frederick Wiseman, que através de sua câmera observa o mundo, junto das reflexões cotidianas e certeiras da câmera-olho de David Perlov em seus diários. As próprias palavras de Perlov podem descrever muito do trabalho de Fahdel: “Quando você filma um diário, o filme substitui a vida. (…) Você pode recriar a vida ou fragmentá-la.”
É através dessa fragmentação que Abbas Fahdel constrói um discurso harmônico onde há somente a tensão. A retratação de um lado humano em tempos de conflito faz com que o espectador se submerja em meio a história, onde qualquer momento de tensão é vivido à flor da pele, como se fossemos tão presentes na narrativa como a própria família do realizador. É um choque de realidade tentar compreender a visão de um país que vive à sua maneira uma espécie de “Guerra Fria”, sob o espectro da paranoia constante, onde famílias tentam transformar suas casas em fortalezas e toda a noção de existência se dá através da expectativa do ataque iminente. Ao adotar seu sobrinho Haidar, de apenas 11 anos como protagonista, Fahdel estabelece um ponto de vista que está sempre no limiar entre o abandono da inocência e a consciência de uma realidade dolorosa – se por um lado o vemos trabalhando horas a fio em um poço cavado em seu próprio quintal, também notamos que ele encara a guerra como possibilidade de não ter de frequentar aulas das quais ele não gosta. Com o passar das horas, notamos que Haidar talvez seja a pessoa mais madura de toda aquela família, justamente por emergir de uma geração que questiona as tradições e busca alternativas para esse mundo em crise que o permeia.
Já diria o velho ditado, por vezes o real é ainda mais estranho que a ficção. As propagandas televisivas pró-regime de Saddam são fantásticas, surreais, e mostram como um plano nacional de doutrinação pode perpetuar – e o pior, convencer a muita gente – a manutenção de um sistema que não beneficia ninguém, exceto a cúpula dos “amigos do rei”.
Em momento algum o longa se preocupa em dar conta do conflito, o corte que separa as suas duas partes ignora os bombardeios e ocupação norte-americana em si. O foco são as pessoas, e a forma como esses momentos as afetam direta ou indiretamente, e não a política nacional como um todo. Um segundo momento nos revelará que essa expectativa em prol de uma mudança positiva por conta da queda de Hussein se mostrará infundada, ao menos enquanto a barbárie de um for substituída pela barbárie de outros. Os escombros de Bagdá dividem, em clima de guerra civil, os soldados norte-americanos que muitas vezes atiram antes de perguntar, de saqueadores e gangues violentas que encontram na violência uma das únicas formas de sobrevivência, por conta da crise com o sistema de distribuição de cestas básicas que não necessariamente atendem a todos os necessitados, mesmo que por motivos completamente absurdos (por exemplo, habitantes de algumas cidades em específico não tem tal direito pois outrora não apoiaram o governo de Saddam, herança que se perpetua mesmo após a queda do antigo chefe de Estado).
Ao mostrar o cidadão médio, Abbas Fahdel acaba por revelar diversos contrastes entre os defensores de Saddam e aqueles que o condenam, revelando que alguns de seus familiares foram perseguidos e assassinados sem motivo aparente (um deles tinha apenas 13 anos quando foi abordado na escola e executado por forças oficiais). De qualquer forma, a suposta democracia americana jamais se revela como uma alternativa possível, e os locais compreendem que antes de tudo, a ocupação é uma decisão econômica: “A vida no Iraque era melhor antes do petróleo”, um deles afirma, em meio aos escombros do que um dia a cidade já foi. Estações de rádio, agências, ministérios, a memória cinematográfica de um país, todas amontoadas em meio à poeira, concreto e ferro retorcido, que servem de palco para brincadeiras infantis com cápsulas de projéteis e morteiros facilmente encontrados pelo chão.
O sentimento final é o de desolação, de desesperança, de saber que aquela população toda está fadada a conviver durante muito tempo com a presença de uma força hostil que os rege, qualquer seja sua origem, já que não há necessariamente um alinhamento ideológico em prol do benefício coletivo, pois os interesses individuais e econômicos prevalecem às necessidades básicas da população. Um dos planos finais do filme, chocante pela forma que se revela, me deixou anestesiado na cadeira, imóvel, sem palavras, e demorei a voltar ao mundo externo após o final da sessão. Quando finalmente retomei a consciência, a sala, já esvaziada, abrigava poucos incrédulos que como eu, acabaram de presenciar uma experiência que transcende o próprio cinema, que diz respeito à própria vida, que é arte por si só.