Dirigido por
Data de lançamento
26 Junho 1925Duração
No Alasca, Carlitos (Charles Chaplin) tenta a sorte como garimpeiro em meio a corrida do ouro de 1898. Lá ele conhece o gordo McKay (Mack Swaim), com quem cria bastante confusão após uma tempestade de neve, e se apaixona por uma dançarina (Georgia Hale).
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Chaplin sempre me pareceu um cineasta que entendeu uma coisa antes de muita gente: antes de o cinema aprender a falar, ele precisou aprender a se mover. E em The Gold Rush isso fica cristalino. O que mais gosto no filme — e no Chaplin em geral — é como tudo soa como desenho animado feito de carne e osso.
Décadas antes de um coiote despencar de penhascos ou de Tom perseguir Jerry por corredores impossíveis, ele já dobrava a realidade. Sério: em que outro filme eu veria um homem com tanta fome que começa a enxergar o companheiro como uma galinha? Em que outro uma arma aponta para um sujeito com a fidelidade de um girassol ao sol, acompanhando cada passo dele como se tivesse vontade própria? Se vai para o lado, ela vai junto. Se se abaixa, ela se abaixa também. Sei que isso não é realista — e ainda bem que não é.
Às vezes sinto falta disso no cinema de hoje. Parece que tudo precisa pedir licença para parecer plausível, tudo quer convencer que poderia acontecer de verdade. Chaplin não quer convencer ninguém. Ele quer divertir. Quer pegar as leis da física e dobrá-las no meio. O vento entra por uma porta e Charlie brinca com a correnteza. O desastre vira coreografia.
A parte da cabana concentra tudo isso como se fosse a pepita mais pura do filme. Quando a história se fecha naquele espaço com homens famintos, neve lá fora e desespero lá dentro, The Gold Rush encontra ouro de verdade. Ali está o tipo de humor que mais me diverte: o corpo lutando contra o ambiente, um sapato virando refeição, a cabana ganhando vida própria — ela range, balança, arranca o chapéu de Charlie, ameaça engolir todo mundo. Depois, quando amanhece pendurada no abismo — metade na montanha, metade no nada — o filme alcança algo raro. Muita gente lembra da dança dos pãezinhos, e com razão, mas para mim é aqui que grita gênio. Suspense e gargalhada dividem o mesmo espaço. Cada passo muda o equilíbrio da casa. O chão inclina, a câmera acompanha, o perigo cresce e a graça cresce junto. Chaplin anda para um lado e parece que o mundo inteiro escorrega com ele. Anda para o outro e a cabana responde como uma balança enlouquecida. É catástrofe transformada em brincadeira. Sinceramente, nem sei como filmaram isso na época, e talvez parte do encanto venha daí. Há algo de mágico em truques antigos que continuam funcionando. E eu amo o som da trilha cada vez que a cabana se inclina.
Já a parte do romance nunca me pega no mesmo nível. Entendo perfeitamente por que ela existe. Filmes daquela época também queriam oferecer ao público uma história de afeto, uma moça bonita, alguém por quem torcer. E Georgia cumpre esse papel. O problema é que, para mim, funciona mais como símbolo do que como personagem. Ela é a bela distante, a promessa de carinho, a pessoa que não enxerga Chaplin até tarde demais. Serve para reforçar a eterna tragédia cômica do Vagabundo: ele sempre ama mais do que é amado. Funciona emocionalmente, mas raramente ganha a substância que o restante do filme encontra no movimento e na imaginação. Ainda assim, não estraga nada, porque Chaplin sabe extrair melancolia até de um olhar ignorado ou de uma mesa vazia na noite de Ano-Novo. A célebre dança dos pãezinhos não é só engraçada; é um homem tentando transformar solidão em espetáculo. O riso, com Chaplin, quase sempre vem de mãos dadas com alguma tristeza.
Talvez por isso eu releve a falta de profundidade do romance. Mesmo quando a história entra em caminhos mais convencionais, Chaplin continua sendo Chaplin. Sempre existe um gesto, um olhar, um tropeço ou uma invenção visual que lembra quem está no comando. No fim, acabo preferindo a cabana ao romance. Na cabana está o artista absoluto, livre, inventando cinema com madeira torta e gravidade frouxa. No romance está o narrador atendendo ao que se esperava de um filme popular da época. Um lado pulsa mais do que o outro.
The Gold Rush prova que Chaplin garimpava em outro terreno. Enquanto todos buscavam ouro nas montanhas, ele procurava nas possibilidades do corpo, na fome virando galinha, na cabana pendurada, no riso surgindo do desastre. Algumas pepitas brilham por riqueza. As dele brilham porque ainda se movem cem anos depois.
Brilhante. Envolvido em todas as camadas, como direção, roteiro, elenco e produção, Charles Chaplin criar não só um dos grandes filmes do cinema mudo, mas também de todo o cinema como um todo. A história é leve, dinâmico e muito divertido. A cena da casa, próximo ao final, é genial. O uso da trilha se encaixa perfeitamente em cada cena. Por mais que o filme se pareça bobo, também tem camadas críticas dentro do roteiro, ajudando a elevar ainda mais o nível da obra.
**** (Ótimo)
É o filme favorito do saudoso Charles Chaplin e talvez seja o meu também dentro da sua grandiosa filmografia. Visto em 05/08/2025
Que imenso privilégio poder assistir esse filme no cinema!
visto na estreia da faixa Sessão Supermemórias no cinema do dragão do mar em Fortaleza.
Este eu nunca havia assistido, e fui na sessão especial remasterizada em 4k... E que filme incrível! Óbvio que em algum momento ele perde a energia, principalmente quando vai pra cidade e entra a trama com a Geórgia, mas depois recupera o fôlego e se torna incrível e realmente atemporal.