A primeira pergunta ou menção de um documentário sobre Kathleen Hanna é: Por que não havia sido feito? Creditada como um dos fundadoras da terceira onda do feminismo e riot grrrl - Hanna tem sido um ativista radical, músicista e ícone cultural há mais de vinte anos. Ela também tem sido um pára-raios para a controvérsia, e uma pessoa famosa de maneira privada. Cinco anos atrás, ela desapareceu dos olhos do público, e só agora está ressurgindo. A cantora Punk combina vinte anos de imagens de arquivo e um olhar íntimo em quatro temporadas consecutivas da sua vida, para contar a história do que aconteceu, e o que ela é agora.
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Uma mulher transforma sua raiva contra o machismo em revolução cultural, e o mundo nunca mais consegue silenciá-la.
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"Outras pessoas podem pensar o que quiserem. Meu problema é quando as pessoas ficam no caminho do feminismo ou no caminho de quem está doente, procurando ficar melhor, porque eles não entendem isso. E, se eles não querem acreditar nisso, ou não se preocupam, ok, mas deveriam passar longe de mim."
Você percebe que o documentário é bom quando ele pega um assunto que já dá um material rico e não se contenta em ser pragmático ou fazer o básico o tempo todo (só às vezes que a abordagem é mais tradicional), mas, sim, destrinchar, dentro do possível, as vertentes do movimento em questão. O material de arquivo é realmente impressionante, e as ligações, seja com outras bandas da época (como o Nirvana, que sempre esteve conectado ali, no meio) ou com o Manifesto da Primeira Onda do Feminismo, em 1848 (uma informação bem útil para quem não tem o costume de ler sobre isso), só estão ali para acrescentar. Sendo de dentro ou de fora do movimento, é um passeio completo.
A mídia estava preocupada em jogar os holofotes para uma pretensa rivalidade feminina entre a vocalista do Bikini Kill, Kathleen Hanna, e Courtney Love, do Hole, ou então prestava um desserviço público jogando shade em sua carreira, mas suas habilidades artísticas e sua influência de dentro dos inúmeros gêneros com os quais trabalhou superavam as questões externas.
Seja no Bikini Kill, com os sons guturais e os malabarismos e contorcionismos no palco que são a cara da Karen O, ou então o jeitão lo-fi de fazer música no Julie Ruin que certamente influenciou a trend do Bedroom Pop, ou o estilo descolado e divertido com toques eletrônicos do Le Tigre, que com certeza esteve no radar do Cansei de Ser Sexy, havia um pouco dela em toda parte.
O final é obviamente comovente, principalmente porque não se aproveita da condição da cantora (para quem não sabe, ela convive há um bom tempo com a doença de Lyme) para explorar um lado maniqueísta dessa sensível questão. Primeiro que ela nunca quis se encaixar no padrão de glamour da fama, e segundo que, a coragem que ela tinha no palco, permaneceu tendo em casa, falando abertamente do que tem, se mostrando disponível para a câmera sem nenhum tipo de pudor ou arrependimento. A consequência disso era achar disposição física e mental para se manter ativa em um outro projeto, e até isso ela conseguiu!
Quem já conhecia se sente contemplado e, quem não, se sente instigado a procurar e pesquisar. Material não falta.
Quando crescer quero ser igual a Kathleen Hanna.
“Eu só acho que há essa certa suposição de que quando um homem diz a verdade, é a verdade. E quando uma mulher como eu vou lhe dizer a verdade, eu sinto que eu tenho que negociar a forma como eu vou ser percebida. Tipo, eu sinto que há sempre a suspeita em torno de mulheres verdadeiras, a ideia de que você está exagerando”.