Últimas opiniões enviadas
Sally e Gillian Owens carregam nos ombros um peso que a maioria dos filmes de bruxa nem sequer tenta encarar: o de que a magia, aqui, é só metáfora para algo bem mais mundano, que é a dificuldade de amar sem se destruir no processo. Sandra Bullock e Nicole Kidman formam uma dupla de irmãs cuja química funciona muito antes de qualquer feitiço entrar em cena, e é justamente esse vínculo fraterno, mais do que os caldeirões e as velas, que sustenta o filme nos seus melhores momentos. Griffin Dunne parece entender que o verdadeiro encanto está na cozinha da casa das tias, entre risadas e margaritas de meia noite, não nos efeitos especiais.
O problema é que o roteiro, com três nomes de peso assinando (Robin Swicord, Akiva Goldsman e Adam Brooks), nunca decide que filme quer ser. Ele começa como comédia romântica saborosa, depois vira drama sobre violência doméstica, depois flerta com o suspense policial, e cada transição soa como uma costura mal escondida. É como se o roteiro fosse escrito por comitê, e cada integrante tivesse ficado responsável por um gênero diferente sem conversar direito com os outros. Aidan Quinn entra tarde demais e carrega um interesse romântico que existe mais por obrigação de gênero do que por necessidade dramática.
Ainda assim, há algo genuinamente afetuoso na forma como o filme trata suas mulheres. A ideia de que a bruxaria é also uma linguagem de resistência feminina, de mulheres que recusam se encaixar no papel de esposas domésticas da vizinhança, dá ao material uma camada de crítica social que o filme nunca explora com toda a profundidade que merece, mas que também nunca ignora. A trilha sonora, com Stevie Nicks e Joni Mitchell entrando em cena nos momentos certos, ajuda a costurar esse clima de nostalgia mágica que fica na memória bem depois dos créditos.
Pixote é daqueles filmes que parecem menos dirigidos e mais testemunhados. Hector Babenco não constrói cena, ele espia, e o espectador vira cúmplice desse olhar que se recusa a piscar diante da miséria. O filme acompanha um grupo de meninos jogados num reformatório paulista e depois nas ruas, e a câmera trata cada um deles com uma dignidade que o Estado brasileiro nunca demonstrou. É um cinema de estômago revirado, mas nunca gratuito.
O que impressiona é a ausência quase completa de sentimentalismo. Babenco não pede a nossa pena, ele nos nega o conforto de sentir pena à distância. Fernando Ramos da Silva, o garoto que interpreta Pixote, carrega o filme com uma naturalidade que atores profissionais gastam carreiras inteiras tentando fingir. Há uma tristeza duplicada em assistir a atuação dele hoje, sabendo o destino real que teve depois das câmeras, e o filme parece prever essa tragédia sem sequer tentar.
A estrutura é episódica, quase documental, e isso é proposital. Não existe arco de redenção porque a realidade que o filme retrata não oferece esse luxo. Cada capítulo, o reformatório, a fuga, o Rio de Janeiro, a vida do crime, funciona como um novo círculo de um inferno que não tem fundo. É desconfortável de assistir, mas é um desconforto necessário, do tipo que Ebert costumava dizer que separa o cinema que importa do cinema que apenas entretém.
Últimos recados
obrigado ^^ nem sabia que tinha assinatura. acho que tinha que ter mais vantagens. só não ter anúncio e selo é muito pouco. eu uso o brave aqui nem aparece anúncio.
bom dia ^^ como que faz para ter essa coroa no nome no filmow?
Obrigado por aceitar
Há algo de profundamente brasileiro e ao mesmo tempo universal na maneira como este filme observa uma família operária de São Paulo no início dos anos 80. O conflito não explode de repente. Ele se acumula em conversas de cozinha, em silêncios pesados depois do jantar, em olhares que dizem mais do que os gritos nas assembleias. O jovem metalúrgico que descobre a gravidez da namorada quer apenas um emprego estável e um futuro minimamente previsível. O pai, veterano de greves e de prisão, enxerga naquela mesma greve a única dignidade possível. Entre os dois fica a mãe, interpretada por Fernanda Montenegro com uma força quieta que segura a casa inteira.
O que impressiona é a recusa em transformar qualquer personagem em caricatura. O filho não é covarde. Ele tem medo legítimo de perder o pouco que conquistou. O pai não é um herói de cartaz. Carrega a teimosia de quem já pagou caro demais por suas convicções. A namorada, por sua vez, vai se politizando sem discursos prontos, apenas reagindo à vida que a cerca. As cenas domésticas têm o peso do real. Quando a câmera permanece sobre o casal de pais separando feijões depois de um velório, a dor se torna quase física. Não há trilha sonora manipuladora. Só o barulho miúdo dos grãos e a respiração contida.
Leon Hirszman adapta a peça de Gianfrancesco Guarnieri com inteligência e respeito. Mantém o clima teatral quando necessário, mas abre o espaço para a cidade, para as ruas, para a tensão das piquetes. A greve nunca é apenas pano de fundo. Ela invade a sala de jantar, o quarto do casal, as decisões mais íntimas. Ao mesmo tempo, o filme nunca esquece que por trás de cada bandeira existem pessoas que precisam comer no dia seguinte. Essa honestidade evita o panfletário e aproxima a história de qualquer espectador que já tenha sentido o aperto entre o ideal e a sobrevivência.
As atuações são o verdadeiro motor. Guarnieri, que escreveu a peça original, traz para o pai uma autenticidade que não se finge. Carlos Alberto Riccelli entrega um jovem dividido sem recorrer a gestos fáceis. Bete Mendes cresce em cena de forma orgânica. E Fernanda Montenegro, como sempre, ocupa o espaço com a economia de quem sabe que o silêncio pode ser mais eloquente que qualquer monólogo. Juntos eles constroem um retrato de família que resiste ao tempo porque fala de coisas que ainda nos atingem: lealdade, medo, esperança e o preço de cada escolha.