Como faz todos os anos, meu pai viaja de Portugal, onde faz sol, para uma visita de três dias à Holanda, o país monótono onde nasceu. Ele tem seus compromissos habituais e vai ao médico para seu check-up anual, acompanhado por mim, seu filho adulto e excêntrico…
Por causa de mágoas, ressentimentos ou desentendimentos, às vezes a vida vai endurecendo corações e cavando profundas crateras emocionais ao redor das pessoas, tornando quase impossível alcançá-las novamente. É bem comum que isso aconteça entre familiares próximos, pois apesar do laço sanguíneo não poder ser rompido, o mesmo não ocorre com os laços afetivos. Pais, filhos, irmãos passam a ostentar olhares frios uns para os outros, suas palavras tornam-se ásperas e escassas e os abraços de carinho ficam esquecidos em alguma gaveta do passado, cedendo o seu lugar para a distância física.
É com esse tema melancólico e intimista que o filme holandês "Three Days of Fish", do diretor Peter Hoogendoorn, retrata a relação de um pai e seu filho, que se reencontram todo ano durante três dias em Rotterdam, numa visita carregada de frieza e sem um único abraço. Ainda que durante o filme vá ficando clara a vontade de se reconectarem um com o outro, parece que não conseguem ou não sabem mais como fazer isso.
O longa é cheio de silêncios desconfortáveis e de situações estranhas. Tudo nos leva a crer que aquela visita será a última, já que esse pai pretende emigrar definitivamente para Portugal com sua segunda esposa. Ele se mostra totalmente fechado para a família, tratando seu irmão (que está muito doente) como se fosse um estranho. Ele também demonstra certo desprezo e arrogância para com o filho e quase nenhum interesse em visitar a casa onde viveu sua mãe ou o túmulo de sua falecida esposa.
Entretanto, ao procurar por um antigo amigo de trabalho, descobre que ele havia falecido recentemente e isso o abala profundamente, levando-o a procurar a viúva para tentar reconfortá-la. É um filme que me deixou esperando até o último minuto por algo que trouxesse à tona o amor que insistiu em tentar brotar novamente naquele coração de concreto.