Um homem que perdeu sua auto-confiança tenta mudar sua vida, na esperança de encontrar sua identidade. Ele gradualmente recupera a confiança através de seu trabalho como cientista e neurologista.
"Gostaria de saber se você sabe a sensação de acordar em uma cidade que é totalmente estranha para você. E todo o dia, sem sentido, já pode ser imaginado com todas as suas faces, reuniões, conversas, que fazem você querer nunca abrir os olhos. O coração está pesado como se algo estivesse errado; [...]você sabe que tem que se recompor, ir trabalhar, incomodar pessoas saudáveis e ocupadas com check-ups médicos e convencer a si mesmo que isso também é importante. E assim, todos os dias você se sente tenso, como se estivesse representado alguém em vez de viver". É o que ouvimos um aparente chefe ou diretor de junta hospitalar ler, em voz alta, perante o autor do memorando que abre esse comentário; em meio a breves interrupções - uma secretária tem de recolher assinaturas importantes, afinal estamos num espaço hospitalar! -, o responsável pelo escrito vê se perdido, desanuviado, depressivo, ausente enquanto da leitura. Tão ausente que cai fora da sala sem nem ao menos de se despedir do sujeito que ficou, ali, lendo o seu escrito.
O autor do texto, Peter, é um dos - se não for o - personagens principais de "Você e eu" da Larisa Sheptiko. As apresentações, por cenas curtas e intensas, dão a tonalidade dos sujeitos que compõem o círculo em torno desse médico soviético - sua esposa Katya e seu amigo Sasha - em meio ao urbanismo caótico (burguês) da capital sueca, Estocolmo. Enquanto vemos as diversões e o cotidiano em tal cidade - tais como o jogo de hóquei entre a seleção da casa e da URSS, na qual vemos a saudade bater forte em Peter, ou mesmo o circo -, Sheptiko começa, discretamente, a armar a teia que vai prender o telespectador.
E é isso o que mais me impressionou de fato: aqui, Sheptiko brinca fazendo uma mixórdia de road-movies com drama, de tonalidades de suspense com pitadinhas de romance. "Você e eu" traz em si desde a
de Peter, que parece encontrar seu refúgio e conforto apenas nos velhos rincões soviéticos - e do qual conhecemos desde os primeiros quilômetros de uma extensa linha férrea até àquelas cidades quase que "móveis", que acompanham as grandes obras estatais, tão comuns na Rússia dos sovietes -, até à nova vida,
, de Sasha e Katya: da dor do desaparecimento, com motivos não expressos, até a descoberta do conforto daquele que estava quase sempre ali próximo.
Da reconstrução de Peter, "isolado", à nova vida de seus antigos companheiros em Estocolmo, Sheptiko explora o peso de cada uma destas empresas; "afinal, eu também costumava pensar que é tudo ou nada na vida", diz Peter a uma de suas pacientes que tentou o suicídio, "mas não pode ser que ninguém se importe: alguém precisa de você ou de mim". E, com a leveza de um martelo esmagando uma bigorna, arremata: "enquanto você sente, você vive".
Destaque mais que especial aqui pra duas cenas, belíssimas a meu ver: a já citada diversão no circo, em que Sasha tenta aparecer pra Katya montando um cavalo árabe enquanto está preso numa corda - e onde Sheptiko expõe toda sua técnica de filmagem e condução de atores, numa cena riquíssima -, e a mais que incômoda cena final, na qual Peter, em meio a uma diversão com seus camaradas e cães na neve, é arrematado por lembranças do passado - e, também, por uma paciente que aparentemente não escapa de sua mente.
A relação do cidadão com o sistema burocrático soviético em uma viagem (física e existencial) envolta por uma espontaneidade genuína e uma poética melancólica que equilibra os dramas pessoais e coletivos com leves e refinados toques de ironia. Intimista e atenta ao estudo dos personagens que animam a película, Larisa Shepitko descreve adequadamente todos os mecanismos humanos (incluindo suas contradições) que levam um indivíduo a começar uma nova vida. O resultado é louvável.
"Gostaria de saber se você sabe a sensação de acordar em uma cidade que é totalmente estranha para você. E todo o dia, sem sentido, já pode ser imaginado com todas as suas faces, reuniões, conversas, que fazem você querer nunca abrir os olhos. O coração está pesado como se algo estivesse errado; [...]você sabe que tem que se recompor, ir trabalhar, incomodar pessoas saudáveis e ocupadas com check-ups médicos e convencer a si mesmo que isso também é importante. E assim, todos os dias você se sente tenso, como se estivesse representado alguém em vez de viver".
É o que ouvimos um aparente chefe ou diretor de junta hospitalar ler, em voz alta, perante o autor do memorando que abre esse comentário; em meio a breves interrupções - uma secretária tem de recolher assinaturas importantes, afinal estamos num espaço hospitalar! -, o responsável pelo escrito vê se perdido, desanuviado, depressivo, ausente enquanto da leitura. Tão ausente que cai fora da sala sem nem ao menos de se despedir do sujeito que ficou, ali, lendo o seu escrito.
O autor do texto, Peter, é um dos - se não for o - personagens principais de "Você e eu" da Larisa Sheptiko. As apresentações, por cenas curtas e intensas, dão a tonalidade dos sujeitos que compõem o círculo em torno desse médico soviético - sua esposa Katya e seu amigo Sasha - em meio ao urbanismo caótico (burguês) da capital sueca, Estocolmo.
Enquanto vemos as diversões e o cotidiano em tal cidade - tais como o jogo de hóquei entre a seleção da casa e da URSS, na qual vemos a saudade bater forte em Peter, ou mesmo o circo -, Sheptiko começa, discretamente, a armar a teia que vai prender o telespectador.
E é isso o que mais me impressionou de fato: aqui, Sheptiko brinca fazendo uma mixórdia de road-movies com drama, de tonalidades de suspense com pitadinhas de romance. "Você e eu" traz em si desde a
fuga
quase amorosa
Da reconstrução de Peter, "isolado", à nova vida de seus antigos companheiros em Estocolmo, Sheptiko explora o peso de cada uma destas empresas; "afinal, eu também costumava pensar que é tudo ou nada na vida", diz Peter a uma de suas pacientes que tentou o suicídio, "mas não pode ser que ninguém se importe: alguém precisa de você ou de mim". E, com a leveza de um martelo esmagando uma bigorna, arremata: "enquanto você sente, você vive".
Destaque mais que especial aqui pra duas cenas, belíssimas a meu ver: a já citada diversão no circo, em que Sasha tenta aparecer pra Katya montando um cavalo árabe enquanto está preso numa corda - e onde Sheptiko expõe toda sua técnica de filmagem e condução de atores, numa cena riquíssima -, e a mais que incômoda cena final, na qual Peter, em meio a uma diversão com seus camaradas e cães na neve, é arrematado por lembranças do passado - e, também, por uma paciente que aparentemente não escapa de sua mente.
eu não gostei mas da pra perceber que o filme foi feito com carinho
A relação do cidadão com o sistema burocrático soviético em uma viagem (física e existencial) envolta por uma espontaneidade genuína e uma poética melancólica que equilibra os dramas pessoais e coletivos com leves e refinados toques de ironia. Intimista e atenta ao estudo dos personagens que animam a película, Larisa Shepitko descreve adequadamente todos os mecanismos humanos (incluindo suas contradições) que levam um indivíduo a começar uma nova vida. O resultado é louvável.