Tida como espécie de 'Looking', o badalado mas morninho seriado gay da HBO, a série australiana 'Please Like Me' (2013), de curtíssimos seis episódios em sua 1ªTemporada trás, de fato, semelhanças na abordagem da (homo)sexualidade. Em comum, as duas séries não carregam tanto os conflitos sob o sexo e reservam maior atenção aos dramas familiares e dilemas amorosos. Mesmo quando o assunto da descoberta sexual surge ela é filtrada pelas limitações pessoais (de aceitação) e não tanto pelos julgamentos sociais - muito embora o preconceito, claro, ainda perdure. Estas são certamente as maiores qualidades de obras que se pretendem avançar na abordagem do tema, e não perderem tanto tempo em lugares comuns (como a "negação" da família, por exemplo). Porém, uma coisa é não impor pesos extras num tema ainda controverso mas vagarosamente melhor assimilado pelas nova gerações. Outra bem diferente é recorrer a certas idealizações para enfeitar uma realidade, à despeito de todos conflitos nada fictício, em que os personagens vivem.
'Please Like Me' é criada e estrelada pelo comediante Josh Thomas que se baseou em suas próprias apresentações em shows e turnês, para produzir a estória de um jovem (em seus 20 e poucos anos) que vive no seu mundinho com amigos num lar veraneio mas que, quando seu pai troca a esposa por uma mulher mais nova, precisa voltar para casa e cuidar da mãe deprimida e que tentou o suicídio. É sintomático contudo, o ator ter mantido o próprio nome (Josh) em seu personagem. Isso porque o autor e protagonista torna esse enredo, que em tese deveria ser generoso e realista, numa viagem ao próprio umbigo. Vejamos: logo na primeira cena, sua namorada termina o relacionamento exortando o distante e frágil rapaz a se assumir (como gay que é). Mas a moça - vejam só que fofa - confessa querer manter a amizade, afinal, não seria muito diferente do que eles vivem como um 'casal'. O que poderia ser um quebra de clichê se revela mais à frente inverossímil. Para um personagem tão pouco atrativo e sem nenhum carisma como Josh, ter uma ex compreensiva é tão conveniente quanto surgir, e na velocidade da luz, um novo namoro agora na figura de um belo rapaz. E como não poderia deixar de ser, ele é tão compreensivo e determinado a fazer a relação dar certo que não liga para as esquisitices do parceiro. A rapidez e a facilidade deliberada com que ambos se tornam namorados só poderia sair mesmo da mente de um sujeito que não apenas criou a estória como, espertamente, interpreta uma versão (à léguas de vantagem da imagem real) de si mesmo. Esses e outros maniqueísmos - como a tia homofóbica que inventa de defender o sobrinho em plena missa contra o padre! - é o que torna essa sitcom num programa com sua cota de humor agradável mas, no geral, bastante ligeira.
Logo no primeiro episódio da segunda temporada, "Looking" reitera no roteiro seu maior defeito. E não apenas por reproduzir lugares comuns da temática gay mas também pelas escolhas dramáticas equivocadas. Aliás, todo o episódio inaugural é um equívoco! Os personagens perdem por exemplo, preciosos minutos dos já diminutos trinta de duração, numa lenga lenga sobre árvores, canto de pássaros e chá de hortelã apenas pra dissimular o clichezão que supostamente dita qual é estilo de vida gay: festas, drogas e sexo. A canastrice é tamanha que até uma praia de nudismo surge assim, do nada, no meio do mato (até então, um abrigo pra "agitação da vida").
Mas o pior fica pro final, quando depois da farra os personagens vão contabilizar suas conquistas sexuais. Um diz que traiu o namorado e que este consente tranquilamente. Outro diz que transou com um sujeito HIV positivo sem maiores neuras. Estranha portanto tendo essas duas situações tratadas com naturalidade, os roteiristas inventar de fazer draminha com um terceiro que se sente muito mal ao se envolver, logo após terminar seu relacionamento, com um sujeito comprometido. "Looking" se vende como moderninha e com o selo de qualidade HBO mas não passa de um "Queer As Folk" que não se assume, tentando transmitir profundidade quando sua real natureza é igualmente egocêntrica e insossa. Quando um seriado faz com que o espectador desista logo de cara em acompanhá-lo é sinal que a propaganda não condiz com o produto. Resta ao público gay, o cliente final, escolher o que é menos pior: aceitar os clichês para sua representação, ou uma trama insípida que diz estar buscando o ser humano quando vemos apenas estereótipos. É um típico enredo onde se ficar o bicho pega(ção), se correr o bicho come (cru).
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Please Like Me (1ª Temporada)
4.2 209Tida como espécie de 'Looking', o badalado mas morninho seriado gay da HBO, a série australiana 'Please Like Me' (2013), de curtíssimos seis episódios em sua 1ªTemporada trás, de fato, semelhanças na abordagem da (homo)sexualidade. Em comum, as duas séries não carregam tanto os conflitos sob o sexo e reservam maior atenção aos dramas familiares e dilemas amorosos. Mesmo quando o assunto da descoberta sexual surge ela é filtrada pelas limitações pessoais (de aceitação) e não tanto pelos julgamentos sociais - muito embora o preconceito, claro, ainda perdure. Estas são certamente as maiores qualidades de obras que se pretendem avançar na abordagem do tema, e não perderem tanto tempo em lugares comuns (como a "negação" da família, por exemplo). Porém, uma coisa é não impor pesos extras num tema ainda controverso mas vagarosamente melhor assimilado pelas nova gerações. Outra bem diferente é recorrer a certas idealizações para enfeitar uma realidade, à despeito de todos conflitos nada fictício, em que os personagens vivem.
'Please Like Me' é criada e estrelada pelo comediante Josh Thomas que se baseou em suas próprias apresentações em shows e turnês, para produzir a estória de um jovem (em seus 20 e poucos anos) que vive no seu mundinho com amigos num lar veraneio mas que, quando seu pai troca a esposa por uma mulher mais nova, precisa voltar para casa e cuidar da mãe deprimida e que tentou o suicídio. É sintomático contudo, o ator ter mantido o próprio nome (Josh) em seu personagem. Isso porque o autor e protagonista torna esse enredo, que em tese deveria ser generoso e realista, numa viagem ao próprio umbigo. Vejamos: logo na primeira cena, sua namorada termina o relacionamento exortando o distante e frágil rapaz a se assumir (como gay que é). Mas a moça - vejam só que fofa - confessa querer manter a amizade, afinal, não seria muito diferente do que eles vivem como um 'casal'. O que poderia ser um quebra de clichê se revela mais à frente inverossímil. Para um personagem tão pouco atrativo e sem nenhum carisma como Josh, ter uma ex compreensiva é tão conveniente quanto surgir, e na velocidade da luz, um novo namoro agora na figura de um belo rapaz. E como não poderia deixar de ser, ele é tão compreensivo e determinado a fazer a relação dar certo que não liga para as esquisitices do parceiro. A rapidez e a facilidade deliberada com que ambos se tornam namorados só poderia sair mesmo da mente de um sujeito que não apenas criou a estória como, espertamente, interpreta uma versão (à léguas de vantagem da imagem real) de si mesmo. Esses e outros maniqueísmos - como a tia homofóbica que inventa de defender o sobrinho em plena missa contra o padre! - é o que torna essa sitcom num programa com sua cota de humor agradável mas, no geral, bastante ligeira.
Looking (2ª Temporada)
3.9 242 Assista AgoraLogo no primeiro episódio da segunda temporada, "Looking" reitera no roteiro seu maior defeito. E não apenas por reproduzir lugares comuns da temática gay mas também pelas escolhas dramáticas equivocadas. Aliás, todo o episódio inaugural é um equívoco! Os personagens perdem por exemplo, preciosos minutos dos já diminutos trinta de duração, numa lenga lenga sobre árvores, canto de pássaros e chá de hortelã apenas pra dissimular o clichezão que supostamente dita qual é estilo de vida gay: festas, drogas e sexo. A canastrice é tamanha que até uma praia de nudismo surge assim, do nada, no meio do mato (até então, um abrigo pra "agitação da vida").
Mas o pior fica pro final, quando depois da farra os personagens vão contabilizar suas conquistas sexuais. Um diz que traiu o namorado e que este consente tranquilamente. Outro diz que transou com um sujeito HIV positivo sem maiores neuras. Estranha portanto tendo essas duas situações tratadas com naturalidade, os roteiristas inventar de fazer draminha com um terceiro que se sente muito mal ao se envolver, logo após terminar seu relacionamento, com um sujeito comprometido. "Looking" se vende como moderninha e com o selo de qualidade HBO mas não passa de um "Queer As Folk" que não se assume, tentando transmitir profundidade quando sua real natureza é igualmente egocêntrica e insossa. Quando um seriado faz com que o espectador desista logo de cara em acompanhá-lo é sinal que a propaganda não condiz com o produto. Resta ao público gay, o cliente final, escolher o que é menos pior: aceitar os clichês para sua representação, ou uma trama insípida que diz estar buscando o ser humano quando vemos apenas estereótipos. É um típico enredo onde se ficar o bicho pega(ção), se correr o bicho come (cru).