Quem passa um tempo a olhar pedras acaba descobrindo que tem tantas perguntas sobre elas quanto sobre si. O espaço vazio entre a linguagem humana e o silêncio mineral provoca sensações desconcertantes, já que a palavra, nossa forma mais eficaz de comunicação, pouco ou nada serve quando o tempo é quem dita as regras. (pedras sonhando pó na mina / pedras sonhando com britadeiras / cada ser tem sonhos à sua maneira)
Architecton (2024) preserva a coerência do seu tema mais caro e, portanto, à exceção de alguns breves diálogos, é um filme quase mudo. As primeiras cenas mostram complexos habitacionais ucranianos desabrigados após o bombardeio russo. O irônico uso de drones para filmar do alto as áreas atingidas já sugere a relação conflituosa entre a tecnologia de ponta e a barbárie pré-histórica, uma vez que esses aparatos também têm servido de armas de guerra. Mas curiosa ou propositalmente, neste início a câmera escolhe se deslocar para trás, e vemos uma ampla paisagem verde e natural ir aos poucos sendo abafada e escondida pelo concreto enegrecido dos prédios arruinados. É assim que Victor Kossakovsky (diretor e roteirista) nos apresenta a importante ideia de que é preciso olhar para o passado se quisermos compreender o presente.
Intercalando cenas de construção e destruição naturais e humanas, o filme passeia por antigas edificações abandonadas em áreas rurais da Itália, por prédios atingidos pelo terremoto na Turquia, até chegar nas ruínas romanas de Baalbek, a famosa cidade libanesa que primeiro abrigou altares destinados ao deus fenício Ba’al, depois erigiu templos aos deuses romanos como Baco, Júpiter e Vênus, e que por sua vez foram destronados pelo cristianismo, numa complicada dança das cadeiras, ou uma pilha de sedimentos rochosos, políticos e religiosos. Quanta história guardam essas pedras?
Com uma trilha sonora que mescla ecos cavernosos, ao mesmo tempo que constrói blocos de sons tão pesados quanto as brutais dimensões do concreto russo, o filme segue seu fluxo apresentando imagens de tirar o fôlego. Em câmera lenta, pedreiras de calcário na Turquia são dinamitadas, enquanto assistimos extasiados, por vários minutos, pedras e mais pedras rolando morro abaixo e formando uma cascata. Após o espetáculo da glória, somos expostos ao seu cortejo de horrores: montanhas inteiras, de formações milenares, reduzidas a pó, num cenário de mineração que poderia ter sido facilmente inspirado pelas gravuras de Boticelli para os nove círculos do inferno de Dante. E se até aqui as descrições não sugeriram automaticamente as semelhanças, então vale apontar Koyaanisqatsi (1982), o deslumbrante filme de Godfrey Reggio que deflagrou uma onda de tantos outros que quiseram também mostrar a bela, porém destrutiva, interação entre o homem e o espaço geológico.
Em cenas diluídas entre as frestas, Kossakovski traz ainda uma personagem ilustre, Michele De Lucchi, o arquiteto italiano que integrou importantes movimentos de vanguarda na década de 70. Ele aparece em seu jardim conversando com o próprio diretor, enquanto constrói com seus ajudantes um círculo simbólico de pedras e, de certa forma místico, “dentro do qual nenhum homem deverá pisar, pois foi feito para durar” - uma metáfora da preservação daquilo que é natural longe da interferência humana.
Architecton, como o próprio título sugere se desmembrado em blocos de sílabas, é um registro cinematográfico de arcos em ruínas; um contraste da arquitetura milenar com a moderna; uma ode à geologia e aos movimentos tectônicos responsáveis por tantas formações naturais; e talvez um lamento contra as toneladas de rochas extraídas para servir de abrigo, que terminam por retornar à paisagem reconfiguradas como enormes montanhas de escombros.
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Architecton
4.2 1Quem passa um tempo a olhar pedras acaba descobrindo que tem tantas perguntas sobre elas quanto sobre si. O espaço vazio entre a linguagem humana e o silêncio mineral provoca sensações desconcertantes, já que a palavra, nossa forma mais eficaz de comunicação, pouco ou nada serve quando o tempo é quem dita as regras. (pedras sonhando pó na mina / pedras sonhando com britadeiras / cada ser tem sonhos à sua maneira)
Architecton (2024) preserva a coerência do seu tema mais caro e, portanto, à exceção de alguns breves diálogos, é um filme quase mudo. As primeiras cenas mostram complexos habitacionais ucranianos desabrigados após o bombardeio russo. O irônico uso de drones para filmar do alto as áreas atingidas já sugere a relação conflituosa entre a tecnologia de ponta e a barbárie pré-histórica, uma vez que esses aparatos também têm servido de armas de guerra. Mas curiosa ou propositalmente, neste início a câmera escolhe se deslocar para trás, e vemos uma ampla paisagem verde e natural ir aos poucos sendo abafada e escondida pelo concreto enegrecido dos prédios arruinados. É assim que Victor Kossakovsky (diretor e roteirista) nos apresenta a importante ideia de que é preciso olhar para o passado se quisermos compreender o presente.
Intercalando cenas de construção e destruição naturais e humanas, o filme passeia por antigas edificações abandonadas em áreas rurais da Itália, por prédios atingidos pelo terremoto na Turquia, até chegar nas ruínas romanas de Baalbek, a famosa cidade libanesa que primeiro abrigou altares destinados ao deus fenício Ba’al, depois erigiu templos aos deuses romanos como Baco, Júpiter e Vênus, e que por sua vez foram destronados pelo cristianismo, numa complicada dança das cadeiras, ou uma pilha de sedimentos rochosos, políticos e religiosos. Quanta história guardam essas pedras?
Com uma trilha sonora que mescla ecos cavernosos, ao mesmo tempo que constrói blocos de sons tão pesados quanto as brutais dimensões do concreto russo, o filme segue seu fluxo apresentando imagens de tirar o fôlego. Em câmera lenta, pedreiras de calcário na Turquia são dinamitadas, enquanto assistimos extasiados, por vários minutos, pedras e mais pedras rolando morro abaixo e formando uma cascata. Após o espetáculo da glória, somos expostos ao seu cortejo de horrores: montanhas inteiras, de formações milenares, reduzidas a pó, num cenário de mineração que poderia ter sido facilmente inspirado pelas gravuras de Boticelli para os nove círculos do inferno de Dante. E se até aqui as descrições não sugeriram automaticamente as semelhanças, então vale apontar Koyaanisqatsi (1982), o deslumbrante filme de Godfrey Reggio que deflagrou uma onda de tantos outros que quiseram também mostrar a bela, porém destrutiva, interação entre o homem e o espaço geológico.
Em cenas diluídas entre as frestas, Kossakovski traz ainda uma personagem ilustre, Michele De Lucchi, o arquiteto italiano que integrou importantes movimentos de vanguarda na década de 70. Ele aparece em seu jardim conversando com o próprio diretor, enquanto constrói com seus ajudantes um círculo simbólico de pedras e, de certa forma místico, “dentro do qual nenhum homem deverá pisar, pois foi feito para durar” - uma metáfora da preservação daquilo que é natural longe da interferência humana.
Architecton, como o próprio título sugere se desmembrado em blocos de sílabas, é um registro cinematográfico de arcos em ruínas; um contraste da arquitetura milenar com a moderna; uma ode à geologia e aos movimentos tectônicos responsáveis por tantas formações naturais; e talvez um lamento contra as toneladas de rochas extraídas para servir de abrigo, que terminam por retornar à paisagem reconfiguradas como enormes montanhas de escombros.