André
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Últimas opiniões enviadas

André
½
1 dia atrás

Provérbio não falta pra dizer da sabedoria que existe no silêncio. Mas só uma tragédia delata a devastação provocada por alguém que foi silenciado pela vergonha e pelo medo. Dois sentimentos legítimos. Uma pergunta: o que desencadeia mais estragos, o parasita que se instala como se apoio fosse, ou aquele que se traveste de hospedeiro? Vou pegar emprestada outra comparação porque uma só não dá conta.

Na série, as personalidades completamente opostas dos irmãos parecem, na verdade, respostas distintas para carências e violências sofridas em comum. Os afetos forjados desde a infância, às vezes em fogo brando, outras vezes na caldeira de um vulcão, resultam em dois pontos de cocção visíveis no corpo, nos diferentes aspectos de maturidade, e nas escolhas.

Quero dizer de outro jeito. Dois polos contrários (um positivo, outro negativo) se retroalimentam, geram a centelha para ignição de um motor, fazem a engrenagem girar e anunciam um desastre. Como a roda de um carro em alta velocidade, que por uma fração de segundos toca o chão e depois corta o ar, os irmãos revezam as posições de poder em nome da sobrevivência. O problema é que essa roda é a de um trator sem freio que agora desce desgovernado ladeira abaixo devorando tudo o que vê pela frente e deixando um rastro de destruição atrás.

André
2 semanas atrás

Quem passa um tempo a observar pedras acaba descobrindo que tem tantas perguntas sobre elas quanto sobre si. É que de alguma forma esse espaço vazio entre a linguagem humana e o silêncio mineral provoca sensações meio desconcertantes, já que a palavra, nossa forma mais eficaz de comunicação, pouco ou nada serve quando o tempo é quem dita as regras.

Architecton é um documentário de 2024 que preserva a coerência do seu tema mais caro e, com exceção de alguns breves diálogos, é quase inteiro mudo. As primeiras cenas mostram complexos habitacionais ucranianos desabrigados após o bombardeio russo, e o irônico uso de drones para filmar do alto as áreas atingidas já sugere, desde o início, a conflituosa relação entre tecnologia de ponta e a barbárie pré-histórica, uma vez que esses aparatos também têm servido de armas de guerra. Mas curiosamente, toda essa sequência é registrada como se estivéssemos andando para trás, e uma ampla paisagem arbórea vai aos poucos sendo abafada e escondida pelo concreto enegrecido dos prédios arruinados. É assim que Victor Kossakovsky, diretor e roteirista, nos apresenta a importante ideia de que é preciso olhar para o passado se quisermos compreender o presente.

Intercalando cenas de construção e destruição naturais e humanas, o filme passeia por antigas edificações abandonadas em áreas rurais da Itália; por prédios atingidos pelo terremoto na Turquia em 2023; até chegar nas ruínas romanas de Baalbek, a famosa cidade libanesa que primeiro abrigou altares destinados ao deus fenício Ba’al, depois erigiu templos aos deuses romanos Baco, Júpiter e Vênus, e que por sua vez foram destronados pelo cristianismo, numa complicada dança de cadeiras, ou ainda, numa sufocante pilha de sedimentos rochosos, políticos e religiosos. Quanta história guardam essas pedras?

Com uma trilha sonora que mescla ecos cavernosos ao passo que constrói blocos de sons tão pesados quanto as brutais dimensões do concreto soviético (quem compõe é o talentoso músico russo Galperine), o filme segue um fluxo calmo enquanto apresenta imagens de tirar o fôlego. A certa altura, por exemplo, pedreiras de calcário na Turquia são dinamitadas, e assistimos extasiados, por vários minutos, uma cascata de pedras rolando morro abaixo em câmera lenta. Porém, após o espetáculo da glória, somos expostos ao seu cortejo de horrores. Na medida em que o plano se abre vemos montanhas inteiras, de formação milenar, reduzidas a pó, num cenário de mineração que poderia ter sido facilmente inspirado pelas gravuras de Botticelli para os círculos do inferno de Dante.

Se até aqui as descrições não sugeriram semelhança com alguma outra produção, então vale lembrar que o documentário tem pontos em comum com Koyaanisqatsi (1982), o deslumbrante filme de Godfrey Reggio que deflagrou uma onda de tantos outros que quiseram também mostrar a bela, porém destrutiva, interação entre o homem e o espaço geográfico.

Por entre as fissuras, Kossakovski traz ainda cenas com uma personalidade ilustre que vem alinhavar a história. Trata-se de Michele De Lucchi, o arquiteto italiano que integrou importantes movimentos de vanguarda na década de 70. Ele aparece em seu jardim conversando com o próprio diretor, enquanto constrói com ajudantes um círculo simbólico de pedras e, de certa forma místico, dentro do qual nenhum homem deverá pisar, pois é um espaço reservado para que as coisas durem - uma metáfora da preservação daquilo que é permanente desde que longe da interferência humana.

Architecton, como o próprio título sugere se desmembrado em blocos de sílabas, é um registro cinematográfico de arcos em ruínas; um contraste da arquitetura milenar com o concreto moderno; uma ode à geologia e aos movimentos tectônicos responsáveis por tantas formações naturais; e talvez um lamento pelas toneladas de rochas extraídas para servir a tantos sonhos humanos, mas que acabaram retornando à paisagem reconfiguradas como enormes montanhas de escombros.

“pedras sonhando pó na mina
pedras sonhando com britadeiras
cada ser tem sonhos à sua maneira”

editado
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