Belo filme seja como suspense tendo como personagem principal uma casa mal-assombrada, seja como um estudo psicológico de Eleanor Lance. Se você juntar as duas coisas - o que o filme pede que você faça, com a narrativa off-screen de Eleanor, com as câmeras alternando ângulos subjetivos e objetivos inusitados, com a desintegração psíquica palmo a palmo de Eleanor - melhor ainda.
Acredito que hoje em dia ninguém mais sinta medo, o terror físico se perdeu, mas o filme se mantém em pé como um retrato psicológico de uma mente cheia de culpa, remorso, solidão, sensação de tempo e vida perdidos, tensão sexual e fobia sexual ao mesmo tempo e desespero.
Agora, dentre as várias interpretações, pouco importa qual você favoreça, seja a casa como algo vivo querendo seu sacrifício cíclico, seja a história toda como fruto da imaginação de Eleanor, seja a casa como correspondência ao interior de Eleanor; porque qualquer interpretação deixa sempre intacta a essência de uma mente perturbada em ebulição.
Eu prefiro uma interpretação mais ao estilo medieval (usando como gancho as imagens de anjos e arcanjos e personagens bíblicos da casa), ou seja, a casa - o mundo visível - como reflexo e símbolo do mundo invisível - a mente-caldeirão fervente de Eleanor. Apesar que essa ideia também não exclui o mundo invisível atuando no visível, só que neste caso não é o Espírito Santo, e sim Lúcifer, o "príncipe deste mundo".
Desnecessariamente óbvio em sua autoconsciência. Quer dizer, ninguém precisa que o sádico pisque para a câmera ou fale com o espectador para que haja uma reflexão sobre violência e nossa sede de sangue e cumplicidade com a violência. Assim como o diálogo final sobre o que é a realidade e ficção se vemos a vida como vemos os filmes. Enfim, nada disso afetaria muito o produto final se o filme fosse realmente assustador ou tenso, o que infelizmente ele não é. Assim, não funciona como piada, como filme reflexivo ou como suspense.
O filme conta a história da relação de Stevens e Miss Kenton e sobre as maquinações de Lorde Darlington em sua mansão - Darlington Hall - pré-segunda guerra mundial, tentando impedir que a Inglaterra intercedesse e participasse da guerra, tentando forjar uma paz com a Alemanha.
Contado em uma série de flashbacks de Stevens, sobretudo sobre os encontros, reuniões e conferência em Darlington Hall - sobre as relações internacionais pré-guerra - e o trabalho de Stevens e Sally Kenton, com os preparativos e o modo como administram a mansão do Lorde Darlington. O presente é composto da ida de Stevens até o seu reencontro com Kenton 20 anos depois, em que ele tentará fazer com que ela volte a trabalhar na mansão. Lorde Darlington no presente já caiu em desgraça justamente por sua participação na política externa do entre-guerras, tentando evitar a participação da Grã-Bretanha na segunda guerra, tentando alcançar uma paz nos termos alemães não importando qual o preço. O filme começa com uma carta de Miss Kenton, antiga governanta da casa, por onde sabemos que Darlington Hall foi vendida para um americano Lewis, que participou como representante americano da conferência na mansão em 1936. Nessa casa ela se expressa com saudade dos tempos em que era governanta de Darlington Hall, dias que ela chama de os mais felizes de sua vida. Relata também que seu casamento terminara, Nesse momento Stevens começa sua jornada até onde ela reside pra tentar convencê-la a voltar a trabalhar na mansão novamente.
Nessa jornada, ele também começa a refletir sobre o passado, tentando talvez justificar sua atitude e fidelidade ao patrão.
Esses "dias mais felizes" dela, a gente logo percebe como foram por meio de flashbacks. Vemos o interesse que ela demonstra por Stevens e suas tentativas de manter algum contato com ele, todos infrutíferos (cenas das flores; Stevens chamando ela de volta à formalidade quando ela chama seu pai de William; o conflito a respeito do pai de Stevens já velho...). Essas cenas entre os dois e as cenas dos criados fazendo os serviços domésticos são sempre alternadas com as cenas dos patrões em meio à política externa europeia antes da guerra.
Merece destaque a atuação de Hopkins como o mordomo Stevens. Como atuar e criar em um papel em que o personagem principal é totalmente auto-controlado? Stevens não expressa seus sentimentos, os anula, represa. Resposta: pelos pequenos gestos. Um sorriso polido, um esgar de sobrancelhas, uma entortada na boca, uma mão pousada, um menear de cabeça, desse jeito conseguimos ver o estado de espírito de Stevens em seus diversos momentos. Um personagem que preza a ordem e a tradição, com cada um exercendo seu papel delimitado sem exacerbar, sem passar seus limites. (Me lembro da cena do leito de morte do Stevens Pai em que ele e Stevens trocam as últimas palavras: uma confissão do pai; Stevens parado em sua posição tradicional, imutável e prestes a sair do recinto, vemos as emoções só no rosto, com o máximo de aproximação entre eles através de um toque da mão de Stevens no braço do pai prestes a morrer). Alguém que só se preocupa em exercer suas funções, sem ouvir ou ver o que se passa em Darlington Hall.
Enfim, esse homem nunca sai da carcaça, nunca extravasa, o que vemos de seu interior são pelos gestos, por ex. quando ele derruba a garrafa de vinho. Assim que suas emoções são mostradas, uma garrafa de vinho que escapa e se quebra, momentos após ele receber a notícia de que Miss Kenton vai embora pra se casar com outro.
No final temos o reencontro entre os dois, mas qualquer esperança já se perdeu faz tempo, sentimento representado na cena do carro dele parado sem gasolina com o pôr-do-sol ao fundo.
Menção deve ser feita ao paralelismo entre os esforços do patrão em evitar uma guerra entre a Inglaterra e a Alemanha - com seu código de honra aristocrático e de cavalheirismo-, e os esforços de Stevens em manter seus sentimentos controlados e em ordem bem como a casa inteira (com a repressão da sexualidade exercendo um papel não secundário). O que resulta disso é nada, a guerra acontece, Chamberlain é escanteado por Churchill e o que emerge é uma Inglaterra dos homens comuns, para horror dos nobres. Já Stevens é alguém já incapaz de sair de Darlington, alguém como seu pai, incapaz de existir fora do seu papel de servir, alguém incapaz de ter uma vida própria, alguém incapaz de ter alguma intimidade com outra pessoa (cena do filme em que Miss Kenton insiste, até encurralá-lo no canto do quarto, em saber qual o livro que ele estava lendo. No final era um romance qualquer sem importância, mas a resistência em permitir que alguém entre em sua intimidade e a tensão - aliás o máximo de tensão sexual que Stevens permite- aqui são reais.).
Paralelismos de duas tragédias e dois desastres. Um lorde com boas intenções, amadoristicamente tenta criar uma paz custe o que custar, errando talvez com intenções nobres, cego a respeito do que realmente estava acontecendo na Europa de seu tempo, que termina seus dias sozinho, balbuciando palavras pra ninguém, falido e considerado um traidor da nação. Outra é a tragédia da vida não vivida, uma vida enterrada, sabotada, mantida sob um estrito controle e estoicismo.
Carpeaux escreveu que o sentimentalismo é o sentimento vendido abaixo do preço. Este filme não tem nada de sentimentalismo, o sentimento é vendido caro.
Por outro lado, a visão de que a razão e o autocontrole, a formalidade e o convencionalismo servem para reprimir nossos instintos mais animalescos, servem para manter de pé a nossa civilização, ganha outra nuance aqui neste filme, onde na verdade causam a morte, a tragédia, e o desastre.
Quando os dois se reencontram se havia uma chance dele se redimir, essa chance se esfarela com o nascimento do neto de Miss Kenton, o que a faz recusar a volta para Darlington Hall e talvez a faça se reconciliar com seu marido.Sem segundas chances aqui, ele teve sua oportunidade e perdeu, agora só resta pra ele voltar a ser o mordomo que sempre foi, olhando o mundo por trás das janelas de Darlington Hall.
O filme começa com a imagem da villa do pai de Anna em meio a várias construções, prestes também a ser engolfada por essas construções. Se não me engano, ao fundo, no fim de uma estrada de terra que ascende, vemos uma construção que lembra a Basílica de Roma (a primeira de várias imagens religiosas que veremos em todo o filme). E a primeira imagem de algo perene em meio ao caos e à mudança (já indico aqui minha interpretação "otimista" do filme - sim existe a possibilidade de redenção.) Pois bem, temos um vislumbre de Anna logo de cara, a mulher entediada, e do seu relacionamento com Sandro, com quem ela não quer casar. Sandro, Anna e Claudia estão indo para um cruzeiro ao sul da Itália junto com um bando de aristocratas entediados também. Ocorre que é isso mesmo, um bando de gente vazia, todos já no outono da vida, e sufocada pelo tédio, modorra, esterilidade, vazio, nada. Onde eles se encontram, no iate de um deles, a imagem do local retrata isso, o mar calmo e as ilhas vulcânicas (vulcões extintos já há vários anos). O sarcasmo vazio de um deles, a platitude de Giulia... Anna percebe isso, uma hora ela mesma afirma que o verão acabou. Isso acontece logo antes dela desaparecer e o tempo mudar, o mar fica revolto, uma ventania começa, a chuva vem e a busca pela Anna começa. Não que a busca dure muito, porque no próximo instante já ninguém mais a está procurando seriamente. É como se ela tivesse desaparecido sem deixar rastro, nada, sumiu e não deixou nada indelével. Assim sendo, logo depois, Sandro e Claudia começam a se interessar um pelo outro (obs.:não vou comentar sobre enquadramentos, fotografia etc mas é digno de nota os enquadramentos em que os personagens estão longe um do outro, caminhando em direções diferentes, buscando algo que não está à vista.) Obs.: A propósito, eu tenho uma teoria sobre o desaparecimento de Anna e a chave dessa teoria está nos dois livros que ela deixa antes de desaparecer e que Antonioni nos mostra, enquadrando, a saber, Tender is the night do Fitzgerald e a Bíblia, mas isso não é importante para o filme em si, nada acrescenta. Continuando, a vida segue seu fluxo logo depois do sumiço, e os dois começam a se interessar um pelo outro, meio que continuando a busca, meio que deixando pra lá. Durante essa busca, eles vão parar em Noto, uma vila/mosteiro no interior, que eles encontram vazia (Claudia chega a bater na janela do mosteiro e só ouve o eco, comentando do porquê de estar vazio o lugar). Esta é uma dentre várias chances de epifania dessas pessoas, mas eles nunca aprofundam, nunca vão além da superfície, perdendo qualquer chance de mudança possível. Claudia sente que algo está errado, volta e meia ela comenta sobre algo ser "triste" nessas horas, mas sacode os pensamentos para longe assim que estes surgem. No meio do filme você vê que Sandro é um arquiteto, mas no decorrer da carreira parou de criar seus projetos, hoje tão somente dando andamento aos projetos dos outros. Ele afirma uma hora que no passado ele tinha as próprias ideias. O encontro com Claudia dá a ele a chance de mudar, ela acredita nele, ele poderia voltar a criar, mas não existe essa possibilidade, nada do que ele mostra no filme permite a nós acreditar que poderia criar algo válido, duradouro, perene (como ele afirma a respeito das igrejas as quais foram feitas para durar séculos). Pior do que isso, ele é frustrado, sente que não poderia criar algo próprio, dele mesmo, a ponto de derrubar o nanquim no desenho de um jovem, talvez arquiteto também, desenho esse de uma janela de uma igreja que ele estava desenhando (aliás, fechada, como sempre, para ele). Um momento mais tarde a gente descobre que Sandro e Claudia andaram conversando sobre isso, sobre a liberdade de Sandro, sobre ter uma vida significativa, com sentido, criativa, original. Eles andaram conversando sobre Sandro deixar de trabalhar com Ettore, seu chefe, e seguir carreira, quem sabe, produzir alguma arte duradoura, mas nada nos indica que Sandro leva essa ideia a sério, nada. Ele não é um "homem de gênio". Enfim, ele acaba traindo Claudia com uma prostituta. Essas pessoas são vazias, rasas, estéreis, fechadas a qualquer possibilidade de transcendência. O único vislumbre de uma possibilidade de mudança vem no final, em que Sandro é um homem caído e perdido e dá-se conta disso e Claudia, a misericordiosa e tolerante hahaha com as falhas humanas (cena digna de um vitral de uma igreja). Talvez ele peça demissão. Talvez ela se torne uma pessoa mais realista e menos sentimental, talvez os dois encontrem juntos algo sólido em suas vidas, algo puro e eterno, como as neves na montanha ao fundo na cena final, além das ruínas da igreja. A redenção não virá, talvez, por meio da Igreja, do cristianismo, pois no mundo de hoje ela é um espaço vazio onde somente se ouve o eco de nossas próprias vozes. A redenção deve vir deles mesmos, abertos ao que vem de fora, atentos aos sinais e às possibilidades de epifania que a vida nos dá (sempre nos detalhes).
É sobre a Grécia na década de 60, sobre o assassinato de um político importante da oposição por extremistas de direita, ajudados ou comandados pelos militares, sobre a investigação que ocorre a respeito da morte, como os fatos sobressaem a despeito dos interesses dos poderosos de plantão, e um juiz implacável e incorruptível em busca somente da verdade acaba indiciando militares de grande patente no crime. Mas logo depois vem o golpe militar, mas o filme não aborda isso, termina com a investigação e condenação, somente faz algumas referências no final sobre o golpe e as retaliações contra o juiz, oposição, imprensa depois da tomada do poder.
Mas sei lá os personagens são preto e branco. Temos o juiz incorruptível, a viúva imaculada, a oposição pura, os generais maus, os meliantes de direita tarados e devassos (sério, um dos meliantes é um tarado sexual que gosta de menininhos e ri com um sorriso lascivo o tempo inteiro, não estou brincando).
A guerra fria e um mundo dividido impõem essa clivagem tão delimitada? Um filme de suspense político precisa disso pra cativar? Não acredito nisso, mas pode até ser, mas se é assim, não é um bom material para um filme.
É interessante e a gente torce para o juiz em busca tão somente da verdade dos fatos não importa qual interesse seja afetado? Os personagens retratados, militares e esquerdistas são assim mesmo, toscos, simplórios e preto e branco? Sim, mas repito, isso não faz um bom filme pra mim.
Bom, acabei de ver. Adorei, mas é bastante violento, apesar de ser uma violência meio estilizada. De qualquer forma, é uma carnificina.
A cena inicial é maravilhosa. Já lança o tema da ambiguidade moral logo de cara, vc não sabe quem é quem, pois o bando está travestido com roupas do exército, e o grupo que vai combatê-lo tb é de foras-da-lei caçadores de recompensa financiados por quem representa a lei, além da "liga da temperança" marchando no meio da cidade, o líder do bando com nome "Bishop". Quando explode o tiroteio e vai tudo pelos ares, inclusive a liga da temperança, não tem como não sorrir.
Logo no início tb o filme já mostra tb outro tema, o da violência inerente ao ser humano, com uma cena de crianças rindo de um escorpião sendo atacado por um bando de formigas e botando fogo nos dois bichos. Em outra cena, o filme mostra crianças brincando de mocinho e bandido. Diversas cenas mostram as crianças admirando a violência.
Outro tema é o fim dos valores antigos em um mundo em constante transformação (basta lembrar o modo como as diversas cenas em que as máquinas e equipamentos modernos aparecem no filme). Toda hora o filme ressalta isso, mostrando como esses velhos valores já não servem mais, em um mundo amoral e sem qualquer romantismo. O interessante é que esse conflito surge até dentro do grupo,e mais importante, dentro de cada um dos personagens, inclusive naqueles que supostamente são estandartes desses valores.
A cena final é linda. A epifania do Bishop olhando a mexicana prostituta, lembrando da mulher que teve e morreu por sua culpa, da família que não teve e decidindo caminhar para a morte...todos buscando uma espécie de redenção no resgate do Angel, mesmo sabendo da derrota certa, a carnificina final, eles manusenando a metralhadora automática (ironia das ironias porque a máquina simboliza o mundo moderno da guerra), a criança matando o Bishop, tudo convergindo na matança final, sério fiquei embasbacado.
Tem a questão técnica, de edição, câmeras lentas, fotografia e tal, essas coisas eu não sei analisar, mas o trabalho de edição principalmente nas cenas inicial e final é perfeito. Revi várias vezes essas duas cenas.
Ahh a maioria morre manuseando a metralhadora hahaha e o passado de Bishop o trai quando ele popupa a prostituta, em uma cena semelhante ao flashback dele sobre a ex-amante, enfim... são tantas coisas e cenas... a cena em que eles se despedem da vila mexicana logo no começo do filme, parecendo eles saindo do paraíso...fora o contexto histórico da revolução mexicana, Pancho Villa, primeira guerra mundial no horizonte...aff enfim, filmão.
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Desafio do Além
3.7 145 Assista AgoraBelo filme seja como suspense tendo como personagem principal uma casa mal-assombrada, seja como um estudo psicológico de Eleanor Lance. Se você juntar as duas coisas - o que o filme pede que você faça, com a narrativa off-screen de Eleanor, com as câmeras alternando ângulos subjetivos e objetivos inusitados, com a desintegração psíquica palmo a palmo de Eleanor - melhor ainda.
Acredito que hoje em dia ninguém mais sinta medo, o terror físico se perdeu, mas o filme se mantém em pé como um retrato psicológico de uma mente cheia de culpa, remorso, solidão, sensação de tempo e vida perdidos, tensão sexual e fobia sexual ao mesmo tempo e desespero.
Agora, dentre as várias interpretações, pouco importa qual você favoreça, seja a casa como algo vivo querendo seu sacrifício cíclico, seja a história toda como fruto da imaginação de Eleanor, seja a casa como correspondência ao interior de Eleanor; porque qualquer interpretação deixa sempre intacta a essência de uma mente perturbada em ebulição.
Eu prefiro uma interpretação mais ao estilo medieval (usando como gancho as imagens de anjos e arcanjos e personagens bíblicos da casa), ou seja, a casa - o mundo visível - como reflexo e símbolo do mundo invisível - a mente-caldeirão fervente de Eleanor. Apesar que essa ideia também não exclui o mundo invisível atuando no visível, só que neste caso não é o Espírito Santo, e sim Lúcifer, o "príncipe deste mundo".
Violência Gratuita
3.8 761 Assista AgoraDesnecessariamente óbvio em sua autoconsciência. Quer dizer, ninguém precisa que o sádico pisque para a câmera ou fale com o espectador para que haja uma reflexão sobre violência e nossa sede de sangue e cumplicidade com a violência.
Assim como o diálogo final sobre o que é a realidade e ficção se vemos a vida como vemos os filmes.
Enfim, nada disso afetaria muito o produto final se o filme fosse realmente assustador ou tenso, o que infelizmente ele não é.
Assim, não funciona como piada, como filme reflexivo ou como suspense.
Vestígios do Dia
3.8 226 Assista AgoraO filme conta a história da relação de Stevens e Miss Kenton e sobre as maquinações de Lorde Darlington em sua mansão - Darlington Hall - pré-segunda guerra mundial, tentando impedir que a Inglaterra intercedesse e participasse da guerra, tentando forjar uma paz com a Alemanha.
Contado em uma série de flashbacks de Stevens, sobretudo sobre os encontros, reuniões e conferência em Darlington Hall - sobre as relações internacionais pré-guerra - e o trabalho de Stevens e Sally Kenton, com os preparativos e o modo como administram a mansão do Lorde Darlington. O presente é composto da ida de Stevens até o seu reencontro com Kenton 20 anos depois, em que ele tentará fazer com que ela volte a trabalhar na mansão.
Lorde Darlington no presente já caiu em desgraça justamente por sua participação na política externa do entre-guerras, tentando evitar a participação da Grã-Bretanha na segunda guerra, tentando alcançar uma paz nos termos alemães não importando qual o preço.
O filme começa com uma carta de Miss Kenton, antiga governanta da casa, por onde sabemos que Darlington Hall foi vendida para um americano Lewis, que participou como representante americano da conferência na mansão em 1936. Nessa casa ela se expressa com saudade dos tempos em que era governanta de Darlington Hall, dias que ela chama de os mais felizes de sua vida. Relata também que seu casamento terminara,
Nesse momento Stevens começa sua jornada até onde ela reside pra tentar convencê-la a voltar a trabalhar na mansão novamente.
Nessa jornada, ele também começa a refletir sobre o passado, tentando talvez justificar sua atitude e fidelidade ao patrão.
Esses "dias mais felizes" dela, a gente logo percebe como foram por meio de flashbacks. Vemos o interesse que ela demonstra por Stevens e suas tentativas de manter algum contato com ele, todos infrutíferos (cenas das flores; Stevens chamando ela de volta à formalidade quando ela chama seu pai de William; o conflito a respeito do pai de Stevens já velho...). Essas cenas entre os dois e as cenas dos criados fazendo os serviços domésticos são sempre alternadas com as cenas dos patrões em meio à política externa europeia antes da guerra.
Merece destaque a atuação de Hopkins como o mordomo Stevens. Como atuar e criar em um papel em que o personagem principal é totalmente auto-controlado? Stevens não expressa seus sentimentos, os anula, represa. Resposta: pelos pequenos gestos. Um sorriso polido, um esgar de sobrancelhas, uma entortada na boca, uma mão pousada, um menear de cabeça, desse jeito conseguimos ver o estado de espírito de Stevens em seus diversos momentos. Um personagem que preza a ordem e a tradição, com cada um exercendo seu papel delimitado sem exacerbar, sem passar seus limites. (Me lembro da cena do leito de morte do Stevens Pai em que ele e Stevens trocam as últimas palavras: uma confissão do pai; Stevens parado em sua posição tradicional, imutável e prestes a sair do recinto, vemos as emoções só no rosto, com o máximo de aproximação entre eles através de um toque da mão de Stevens no braço do pai prestes a morrer). Alguém que só se preocupa em exercer suas funções, sem ouvir ou ver o que se passa em Darlington Hall.
Enfim, esse homem nunca sai da carcaça, nunca extravasa, o que vemos de seu interior são pelos gestos, por ex. quando ele derruba a garrafa de vinho. Assim que suas emoções são mostradas, uma garrafa de vinho que escapa e se quebra, momentos após ele receber a notícia de que Miss Kenton vai embora pra se casar com outro.
No final temos o reencontro entre os dois, mas qualquer esperança já se perdeu faz tempo, sentimento representado na cena do carro dele parado sem gasolina com o pôr-do-sol ao fundo.
Menção deve ser feita ao paralelismo entre os esforços do patrão em evitar uma guerra entre a Inglaterra e a Alemanha - com seu código de honra aristocrático e de cavalheirismo-, e os esforços de Stevens em manter seus sentimentos controlados e em ordem bem como a casa inteira (com a repressão da sexualidade exercendo um papel não secundário). O que resulta disso é nada, a guerra acontece, Chamberlain é escanteado por Churchill e o que emerge é uma Inglaterra dos homens comuns, para horror dos nobres. Já Stevens é alguém já incapaz de sair de Darlington, alguém como seu pai, incapaz de existir fora do seu papel de servir, alguém incapaz de ter uma vida própria, alguém incapaz de ter alguma intimidade com outra pessoa (cena do filme em que Miss Kenton insiste, até encurralá-lo no canto do quarto, em saber qual o livro que ele estava lendo. No final era um romance qualquer sem importância, mas a resistência em permitir que alguém entre em sua intimidade e a tensão - aliás o máximo de tensão sexual que Stevens permite- aqui são reais.).
Paralelismos de duas tragédias e dois desastres. Um lorde com boas intenções, amadoristicamente tenta criar uma paz custe o que custar, errando talvez com intenções nobres, cego a respeito do que realmente estava acontecendo na Europa de seu tempo, que termina seus dias sozinho, balbuciando palavras pra ninguém, falido e considerado um traidor da nação. Outra é a tragédia da vida não vivida, uma vida enterrada, sabotada, mantida sob um estrito controle e estoicismo.
Carpeaux escreveu que o sentimentalismo é o sentimento vendido abaixo do preço. Este filme não tem nada de sentimentalismo, o sentimento é vendido caro.
Por outro lado, a visão de que a razão e o autocontrole, a formalidade e o convencionalismo servem para reprimir nossos instintos mais animalescos, servem para manter de pé a nossa civilização, ganha outra nuance aqui neste filme, onde na verdade causam a morte, a tragédia, e o desastre.
Quando os dois se reencontram se havia uma chance dele se redimir, essa chance se esfarela com o nascimento do neto de Miss Kenton, o que a faz recusar a volta para Darlington Hall e talvez a faça se reconciliar com seu marido.Sem segundas chances aqui, ele teve sua oportunidade e perdeu, agora só resta pra ele voltar a ser o mordomo que sempre foi, olhando o mundo por trás das janelas de Darlington Hall.
A Aventura
4.0 115 Assista AgoraO filme começa com a imagem da villa do pai de Anna em meio a várias construções, prestes também a ser engolfada por essas construções. Se não me engano, ao fundo, no fim de uma estrada de terra que ascende, vemos uma construção que lembra a Basílica de Roma (a primeira de várias imagens religiosas que veremos em todo o filme). E a primeira imagem de algo perene em meio ao caos e à mudança (já indico aqui minha interpretação "otimista" do filme - sim existe a possibilidade de redenção.)
Pois bem, temos um vislumbre de Anna logo de cara, a mulher entediada, e do seu relacionamento com Sandro, com quem ela não quer casar.
Sandro, Anna e Claudia estão indo para um cruzeiro ao sul da Itália junto com um bando de aristocratas entediados também. Ocorre que é isso mesmo, um bando de gente vazia, todos já no outono da vida, e sufocada pelo tédio, modorra, esterilidade, vazio, nada. Onde eles se encontram, no iate de um deles, a imagem do local retrata isso, o mar calmo e as ilhas vulcânicas (vulcões extintos já há vários anos). O sarcasmo vazio de um deles, a platitude de Giulia...
Anna percebe isso, uma hora ela mesma afirma que o verão acabou. Isso acontece logo antes dela desaparecer e o tempo mudar, o mar fica revolto, uma ventania começa, a chuva vem e a busca pela Anna começa.
Não que a busca dure muito, porque no próximo instante já ninguém mais a está procurando seriamente. É como se ela tivesse desaparecido sem deixar rastro, nada, sumiu e não deixou nada indelével.
Assim sendo, logo depois, Sandro e Claudia começam a se interessar um pelo outro (obs.:não vou comentar sobre enquadramentos, fotografia etc mas é digno de nota os enquadramentos em que os personagens estão longe um do outro, caminhando em direções diferentes, buscando algo que não está à vista.)
Obs.: A propósito, eu tenho uma teoria sobre o desaparecimento de Anna e a chave dessa teoria está nos dois livros que ela deixa antes de desaparecer e que Antonioni nos mostra, enquadrando, a saber, Tender is the night do Fitzgerald e a Bíblia, mas isso não é importante para o filme em si, nada acrescenta.
Continuando, a vida segue seu fluxo logo depois do sumiço, e os dois começam a se interessar um pelo outro, meio que continuando a busca, meio que deixando pra lá.
Durante essa busca, eles vão parar em Noto, uma vila/mosteiro no interior, que eles encontram vazia (Claudia chega a bater na janela do mosteiro e só ouve o eco, comentando do porquê de estar vazio o lugar). Esta é uma dentre várias chances de epifania dessas pessoas, mas eles nunca aprofundam, nunca vão além da superfície, perdendo qualquer chance de mudança possível. Claudia sente que algo está errado, volta e meia ela comenta sobre algo ser "triste" nessas horas, mas sacode os pensamentos para longe assim que estes surgem.
No meio do filme você vê que Sandro é um arquiteto, mas no decorrer da carreira parou de criar seus projetos, hoje tão somente dando andamento aos projetos dos outros. Ele afirma uma hora que no passado ele tinha as próprias ideias. O encontro com Claudia dá a ele a chance de mudar, ela acredita nele, ele poderia voltar a criar, mas não existe essa possibilidade, nada do que ele mostra no filme permite a nós acreditar que poderia criar algo válido, duradouro, perene (como ele afirma a respeito das igrejas as quais foram feitas para durar séculos). Pior do que isso, ele é frustrado, sente que não poderia criar algo próprio, dele mesmo, a ponto de derrubar o nanquim no desenho de um jovem, talvez arquiteto também, desenho esse de uma janela de uma igreja que ele estava desenhando (aliás, fechada, como sempre, para ele).
Um momento mais tarde a gente descobre que Sandro e Claudia andaram conversando sobre isso, sobre a liberdade de Sandro, sobre ter uma vida significativa, com sentido, criativa, original. Eles andaram conversando sobre Sandro deixar de trabalhar com Ettore, seu chefe, e seguir carreira, quem sabe, produzir alguma arte duradoura, mas nada nos indica que Sandro leva essa ideia a sério, nada. Ele não é um "homem de gênio".
Enfim, ele acaba traindo Claudia com uma prostituta.
Essas pessoas são vazias, rasas, estéreis, fechadas a qualquer possibilidade de transcendência.
O único vislumbre de uma possibilidade de mudança vem no final, em que Sandro é um homem caído e perdido e dá-se conta disso e Claudia, a misericordiosa e tolerante hahaha com as falhas humanas (cena digna de um vitral de uma igreja).
Talvez ele peça demissão. Talvez ela se torne uma pessoa mais realista e menos sentimental, talvez os dois encontrem juntos algo sólido em suas vidas, algo puro e eterno, como as neves na montanha ao fundo na cena final, além das ruínas da igreja.
A redenção não virá, talvez, por meio da Igreja, do cristianismo, pois no mundo de hoje ela é um espaço vazio onde somente se ouve o eco de nossas próprias vozes. A redenção deve vir deles mesmos, abertos ao que vem de fora, atentos aos sinais e às possibilidades de epifania que a vida nos dá (sempre nos detalhes).
Z
4.3 124É sobre a Grécia na década de 60, sobre o assassinato de um político importante da oposição por extremistas de direita, ajudados ou comandados pelos militares, sobre a investigação que ocorre a respeito da morte, como os fatos sobressaem a despeito dos interesses dos poderosos de plantão, e um juiz implacável e incorruptível em busca somente da verdade acaba indiciando militares de grande patente no crime. Mas logo depois vem o golpe militar, mas o filme não aborda isso, termina com a investigação e condenação, somente faz algumas referências no final sobre o golpe e as retaliações contra o juiz, oposição, imprensa depois da tomada do poder.
Mas sei lá os personagens são preto e branco. Temos o juiz incorruptível, a viúva imaculada, a oposição pura, os generais maus, os meliantes de direita tarados e devassos (sério, um dos meliantes é um tarado sexual que gosta de menininhos e ri com um sorriso lascivo o tempo inteiro, não estou brincando).
A guerra fria e um mundo dividido impõem essa clivagem tão delimitada? Um filme de suspense político precisa disso pra cativar? Não acredito nisso, mas pode até ser, mas se é assim, não é um bom material para um filme.
É interessante e a gente torce para o juiz em busca tão somente da verdade dos fatos não importa qual interesse seja afetado? Os personagens retratados, militares e esquerdistas são assim mesmo, toscos, simplórios e preto e branco? Sim, mas repito, isso não faz um bom filme pra mim.
Meu Ódio Será Sua Herança
4.1 215 Assista AgoraBom, acabei de ver. Adorei, mas é bastante violento, apesar de ser uma violência meio estilizada. De qualquer forma, é uma carnificina.
A cena inicial é maravilhosa. Já lança o tema da ambiguidade moral logo de cara, vc não sabe quem é quem, pois o bando está travestido com roupas do exército, e o grupo que vai combatê-lo tb é de foras-da-lei caçadores de recompensa financiados por quem representa a lei, além da "liga da temperança" marchando no meio da cidade, o líder do bando com nome "Bishop". Quando explode o tiroteio e vai tudo pelos ares, inclusive a liga da temperança, não tem como não sorrir.
Logo no início tb o filme já mostra tb outro tema, o da violência inerente ao ser humano, com uma cena de crianças rindo de um escorpião sendo atacado por um bando de formigas e botando fogo nos dois bichos. Em outra cena, o filme mostra crianças brincando de mocinho e bandido. Diversas cenas mostram as crianças admirando a violência.
Outro tema é o fim dos valores antigos em um mundo em constante transformação (basta lembrar o modo como as diversas cenas em que as máquinas e equipamentos modernos aparecem no filme). Toda hora o filme ressalta isso, mostrando como esses velhos valores já não servem mais, em um mundo amoral e sem qualquer romantismo. O interessante é que esse conflito surge até dentro do grupo,e mais importante, dentro de cada um dos personagens, inclusive naqueles que supostamente são estandartes desses valores.
A cena final é linda. A epifania do Bishop olhando a mexicana prostituta, lembrando da mulher que teve e morreu por sua culpa, da família que não teve e decidindo caminhar para a morte...todos buscando uma espécie de redenção no resgate do Angel, mesmo sabendo da derrota certa, a carnificina final, eles manusenando a metralhadora automática (ironia das ironias porque a máquina simboliza o mundo moderno da guerra), a criança matando o Bishop, tudo convergindo na matança final, sério fiquei embasbacado.
Tem a questão técnica, de edição, câmeras lentas, fotografia e tal, essas coisas eu não sei analisar, mas o trabalho de edição principalmente nas cenas inicial e final é perfeito. Revi várias vezes essas duas cenas.
Ahh a maioria morre manuseando a metralhadora hahaha e o passado de Bishop o trai quando ele popupa a prostituta, em uma cena semelhante ao flashback dele sobre a ex-amante, enfim... são tantas coisas e cenas... a cena em que eles se despedem da vila mexicana logo no começo do filme, parecendo eles saindo do paraíso...fora o contexto histórico da revolução mexicana, Pancho Villa, primeira guerra mundial no horizonte...aff enfim, filmão.