Assim como em seu filme anterior "Crash", Cronenberg mais uma vez acerta a mão ao descrever a função social do automóvel no capitalismo. Enquanto em Crash o automóvel é apresentado como fetiche e mediador de relação sociais, em Cosmopolis a limusine do milionário Eric Packer é o cenário e a materialização da atomização do sujeito burguês: dentro dela ele não apenas comanda as suas operações financeiras na economia capitalista enlouquecida, mas também faz sexo, defeca, discute com seus assistentes e faz exame de próstata. Para garantir o seu perfeito isolamento do mundo exterior, a limusine é acusticamente isolada com cortiça. O que predomina, portanto, tanto no personagem quanto na forma do filme, é a apatia. Nas poucas ocasiões em que sai do automóvel, Packard parece perder os seus pontos de referência, e não consegue fazer sexo com a sua esposa de conveniência. No entanto, o que ele deseja ao longo do filme é cortar o cabelo, atravessando com a sua limusine uma cidade atribulada por protestos e manifestações. Uma situação na qual ele poderia sair de sua limusine e experimentar o real, com o qual ele parece já não ser capaz de lidar.
David Cronenberg – o diretor de filmes como "A mosca" e "Scanners", dirigiu em 1996 o filme Crash, baseado em um conto de J. G. Ballard. O filme conta a bizarra história de um grupo de fetichistas do automóvel. O clube se dedica a reconstituir acidentes famosos (James Dean e outros), com todo o realismo possível, e seus membros sentem atração sexual por cicatrizes adquiridas em colisões. Alguns dos quais mal podem parar em pé, de tantas sequelas.
A crítica de Robert Kurz diz que o filme é um simulacro e não aponta nenhuma transcendência. Kurz tem razão, mas há mais o que dizer sobre ele. O filme apresenta o automóvel como um fetiche e mediador de relações sociais. Exagera? “Mas só o exagero é verdadeiro” (Adorno e Horkheimer). Afinal, o limite do capital é o campo de concentração, a dominação sem limites, e esse exagero foi bem real. Assim como Sade, ao mostrar o corpo humano como máquina de eficiência (nenhum órgão ou orifício pode ficar ocioso), desnudou a lógica do ritmo frenético do trabalho abstrato, assim como Nietzsche, ao identificar razão e dominação lançou luz sobre o lado escuro do Iluminismo, assim talvez Cronenberg e Ballard, ao escancarar o fetichismo do automóvel, tenham acessado sua verdade mais íntima. Tudo isso, talvez, contra-e-mais-além de sua própria intenção.
Resenha completa em Sinal de Menos #1 - www.sinaldemenos.org (CRASH!, Daniel Cunha)
Ver esse filme com 25 anos de atraso é um experiência interessante. Hoje em dia as operações financeiras retratadas no filme são tão primitivas quanto os celulares-tamanho-de-tijolo que são utilizados. O pano de fundo do enredo - um jovem corretor que é iniciado nas trapaças financeiras por um especulador experiente - é o começo da intensificação da autonomia dos mercados financeiros em relação à economia real. Não há crítica profunda, no entanto: no fim o que se tem é uma apologia moralista de um capitalismo "honesto" e de "trabalho duro", em detrimento da "desonestidade" dos especuladores.
Um filme praticamente sem cenas externas, onde o que conta são os diálogos. Para quem, como eu, sente sono em filmes de ação e em cenas de perseguição de automóvel, é uma boa pedida.
Cosmópolis
2.7 1,0K Assista AgoraAssim como em seu filme anterior "Crash", Cronenberg mais uma vez acerta a mão ao descrever a função social do automóvel no capitalismo. Enquanto em Crash o automóvel é apresentado como fetiche e mediador de relação sociais, em Cosmopolis a limusine do milionário Eric Packer é o cenário e a materialização da atomização do sujeito burguês: dentro dela ele não apenas comanda as suas operações financeiras na economia capitalista enlouquecida, mas também faz sexo, defeca, discute com seus assistentes e faz exame de próstata. Para garantir o seu perfeito isolamento do mundo exterior, a limusine é acusticamente isolada com cortiça. O que predomina, portanto, tanto no personagem quanto na forma do filme, é a apatia. Nas poucas ocasiões em que sai do automóvel, Packard parece perder os seus pontos de referência, e não consegue fazer sexo com a sua esposa de conveniência. No entanto, o que ele deseja ao longo do filme é cortar o cabelo, atravessando com a sua limusine uma cidade atribulada por protestos e manifestações. Uma situação na qual ele poderia sair de sua limusine e experimentar o real, com o qual ele parece já não ser capaz de lidar.
Crash: Estranhos Prazeres
3.6 346 Assista AgoraDavid Cronenberg – o diretor de filmes como "A mosca" e "Scanners", dirigiu em 1996 o filme Crash, baseado em um conto de J. G. Ballard. O filme conta a bizarra história de um grupo de fetichistas do automóvel. O clube se dedica a reconstituir acidentes famosos (James Dean e outros), com todo o realismo possível, e seus membros sentem atração sexual por cicatrizes adquiridas em colisões. Alguns dos quais mal podem parar em pé, de tantas sequelas.
A crítica de Robert Kurz diz que o filme é um simulacro e não aponta nenhuma transcendência. Kurz tem razão, mas há mais o que dizer sobre ele. O filme apresenta o automóvel como um fetiche e mediador de relações sociais. Exagera? “Mas só o exagero é verdadeiro” (Adorno e Horkheimer). Afinal, o limite do capital é o campo de concentração, a dominação sem limites, e esse exagero foi bem real. Assim como Sade, ao mostrar o corpo humano como máquina de eficiência (nenhum órgão ou orifício pode ficar ocioso), desnudou a lógica do ritmo frenético do trabalho abstrato, assim como Nietzsche, ao identificar razão e dominação lançou luz sobre o lado escuro do Iluminismo, assim talvez Cronenberg e Ballard, ao escancarar o fetichismo do automóvel, tenham acessado sua verdade mais íntima. Tudo isso, talvez, contra-e-mais-além de sua própria intenção.
Resenha completa em Sinal de Menos #1 - www.sinaldemenos.org (CRASH!, Daniel Cunha)
Wall Street: Poder e Cobiça
3.7 256 Assista AgoraVer esse filme com 25 anos de atraso é um experiência interessante. Hoje em dia as operações financeiras retratadas no filme são tão primitivas quanto os celulares-tamanho-de-tijolo que são utilizados. O pano de fundo do enredo - um jovem corretor que é iniciado nas trapaças financeiras por um especulador experiente - é o começo da intensificação da autonomia dos mercados financeiros em relação à economia real. Não há crítica profunda, no entanto: no fim o que se tem é uma apologia moralista de um capitalismo "honesto" e de "trabalho duro", em detrimento da "desonestidade" dos especuladores.
Deus da Carnificina
3.8 1,4KUm filme praticamente sem cenas externas, onde o que conta são os diálogos. Para quem, como eu, sente sono em filmes de ação e em cenas de perseguição de automóvel, é uma boa pedida.
Para Roma Com Amor
3.4 1,3K Assista AgoraQuem gosta de Woody Allen, assista. Quem não gosta, não assista. O mesmo de sempre, para o bem ou para o mal.