Ao contrário de muita gente, pelo que parece, cheguei com muita expectativa e acabei me decepcionando. O filme não é ruim, de jeito nenhum. Apenas acho que já cheguei naquele ponto em que quando vejo o carimbo da netflix começo a esperar demais do filme. Eu esperava que fosse um filme sobre pessoas descobrindo a si mesmas, ultrapassando seus limites enquanto constroem laços em comum. E o filme é exatamente isso. E esse é o problema dele. Na minha opinião, Fundamentals of Caring tem um roteiro exageradamente clichê. Ele segue o script do road movie ponto-a-ponto, tanto que fica extremamente fácil prever as reações dos personagens, o sentido do roteiro e até as escolhas de edição (vide a cena em que Trevor e Ben estão se conhecendo, uma montagem de cortes rápidos que vai da atitude desafiadora de Trevor à confiança e cumplicidade mútuas). Esperava algo mais próximo da ousadia de Submarino e não encontrei. Pra uma noite insone, acho uma excelente escolha, mas FoC está longe de ser um daqueles filmes indie que acabam virando lugar-comum.
Em uma última nota, já passa da hora de contratar atores com deficiências físicas para encenar personagens com deficiências físicas.
Deu certo, mas não emocionou. É um filme muito bacana pra ver na tela quente, mas não vejo sentido nenhum em estar concorrendo ao Oscar de melhor filme. Os personagens são excessivamente arquetípicos e rasos. Isso poderia ser perdoável em um filme que põe o foco na história, no esforço coletivo de um grupo para resolver uma trama. Perdido em Marte, oscila entre isso e a história de um herói que salva a si mesmo. Nenhuma das duas saídas acaba funcionando bem e o filme patina sem decidir nenhuma. O primeiro diálogo acaba dando o tom do resto do filme: exagerado, artificial e te dá a sensação de que Hollywood já entregou isso antes. Talvez o isolamento de Mark tivesse um tom mais dramático e nos fizesse realmente sentir algo pelo protagonista se não fosse pela interpretação fraca de Matt Damon. Não consigo acreditar que ele foi indicado ao Oscar de melhor ator. Na minha opinião, a indicação dele e a ausência de Idris Elba, por exemplo, é um cala-a-boca para quem diz que a ausência de negros no Oscar não é problema porque as indicações são por mérito. Esse filme tem muita coisa, mas não tem mérito.
Eu não conhecia a história de Ron Woodroof quando li a sinopse do filme. Achei que a premissa do cowboy-machão-homofóbico que é obrigado a rever seus preconceitos seria forçada e meio cômica. Não é. Clube de Compras Dallas evidencia as dimensões sociais da AIDS. Não é sobre a redenção do cowboy arquetípico, mas sobre como a sociedade dos Estados Unidos precisou ser moldada para fazer frente a uma doença nova, que cercava a todos, mas que se aproximava pelos cantos em que a maioria das pessoas não queria olhar. O combate contra o vírus HIV foi travado nos laboratórios, mas também nas cortes e nas ruas e isso foi fundamental para os avanços que temos hoje, como o filme mostra muito bem. Matthew McConaughey e Jared Leto conseguiram construir personagens que se completam e uma sinergia espetacular e conseguiram apresentar perfeitamente o retrato de uma era em que a esperança era um recurso escasso.
Não há artigos, definidos ou indefinidos, para as coisas no mundo de Jack. Mesa, Cadeira nº1, Cadeira nº2, Rato. Quarto. O universo de Jack é tão pequeno que cada coisa é singular. Apesar disso, seus limites se estendem até o infinito. Não surpreende que a intensidade da tragédia vivida por mãe e filho passe ao largo das impressões de muitas pessoas. A violência física, psicológica e sexual a que Joy (Ma) é submetida é, até certo ponto, posta como subtexto na narrativa feita do ponto de vista de Jack. O que está implícito vem à tona, contudo. O Filme se inicia na manhã do aniversário de 5 anos de Jack. E à medida em que ele cresce, o universo fantasioso criado por Ma, em que pessoas de mentira encenam na TV e cujas fronteiras são as paredes de Quarto, se torna pequeno. Old Nick, o personagem semirreal que faz a comida aparecer magicamente se torna real demais.
A direção desse filme me pareceu impecável. Do aperto claustrofóbico de Quarto, até o brilho ofuscante e a profusão de sons do Mundo cada recurso audiovisual é usado para expressar a alegria, medo, confusão e felicidade de Jack. Não me lembro de muitos filmes que tenham explorado a linguagem cinematográfica como esse.
Digna de nota é a atuação de Jacob Trembley no papel de Jack. O personagem passa por emoções por vezes extremamente intensas, por vezes muito sutis. Jacob tem a capacidade de nos guiar por todas elas perfeitamente. Não vou conseguir fazer jus a tudo o que senti nesse filme, mas ele é até agora, de longe meu favorito pra melhor de 2015.
O cuidado do Iñarritu com o filme é tão grande que às vezes parece pecar pelo excesso. Ele pula de um plano-sequência pra outro tantas vezes que o impacto da primeira cena vai desaparecendo com o tempo até chegar ao ponto em que parecemos estar andando em círculos, sem piscar, atrás de um protagonista que está sendo torturado por um roteirista especialmente sádico.
Aliás, Iñarritu tenta com tanto afinco construir a grandiosidade na luta de Glass pela sobrevivência que descamba em uma sequência quase cartunesca de infortúnios e experiências de quase-morte. Apesar disso, Glass se recupera dos diversos ferimentos com rapidez digna de um mutante com ossos de adamantium. Saindo, em um tempo que dá a impressão de ser alguns dias, da condição de rastejar com um perna completamente inutilizada, para um corrida na neve culminando em uma das brigas mais respeitáveis que vi ultimamente.
No fim das contas, é realmente um filme que enche os olhos e vale as duas horas e meia de tela. Mas duvido muito que renda um Oscar de melhor filme ou ator.
Acho que muita gente começa a ver esse filme sem muitas pretensões. Quando a gente vê a cara do Jason Segel no poster já imagina uma comédia meio besta que só serve de passatempo. Os primeiros minutos de filme, entretanto, desfazem essa suposição. Quanto mais se avança no roteiro, menos cara de comédia tem o filme. O mundo de Jeff parece fora de compasso e seu desejo por direcionamento gera estranhamento, dando um tom levemente sombrio à história no breve flerte com o suicídio, quando os sinais do universo parecem sugerir que ele busque uma faca... Pelo que vemos, a busca de Jeff não é uma pura manifestação cômica de excentricidade, mas a tentativa desesperada de preencher um vazio que lhe causa sofrimento. O movimento constante da câmera parece acompanhar as inconstâncias de Jeff, sempre seguindo a trilha de sinais que apenas ele consegue ver - ao menos até os últimos momentos. Acho que uma das várias questões que o filme nos leva a enfrentar está justamente na natureza dos sinais que impulsionam a jornada de Jeff. O universo realmente está direcionando ele para o exato local em que ele é necessário? Ou ele está imprimindo na aleatoriedade do mundo significados que ele criou, construindo assim seu próprio destino? Independente da resposta, o filme parece sugerir que todos os personagens devem encontrar algo que dê substancialidade a suas vidas, sob o risco de perdê-las ou torná-las insuportáveis.
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Amizades Improváveis
3.8 788Ao contrário de muita gente, pelo que parece, cheguei com muita expectativa e acabei me decepcionando. O filme não é ruim, de jeito nenhum. Apenas acho que já cheguei naquele ponto em que quando vejo o carimbo da netflix começo a esperar demais do filme.
Eu esperava que fosse um filme sobre pessoas descobrindo a si mesmas, ultrapassando seus limites enquanto constroem laços em comum. E o filme é exatamente isso. E esse é o problema dele. Na minha opinião, Fundamentals of Caring tem um roteiro exageradamente clichê. Ele segue o script do road movie ponto-a-ponto, tanto que fica extremamente fácil prever as reações dos personagens, o sentido do roteiro e até as escolhas de edição (vide a cena em que Trevor e Ben estão se conhecendo, uma montagem de cortes rápidos que vai da atitude desafiadora de Trevor à confiança e cumplicidade mútuas).
Esperava algo mais próximo da ousadia de Submarino e não encontrei. Pra uma noite insone, acho uma excelente escolha, mas FoC está longe de ser um daqueles filmes indie que acabam virando lugar-comum.
Em uma última nota, já passa da hora de contratar atores com deficiências físicas para encenar personagens com deficiências físicas.
Perdido em Marte
4.0 2,3KDeu certo, mas não emocionou. É um filme muito bacana pra ver na tela quente, mas não vejo sentido nenhum em estar concorrendo ao Oscar de melhor filme. Os personagens são excessivamente arquetípicos e rasos. Isso poderia ser perdoável em um filme que põe o foco na história, no esforço coletivo de um grupo para resolver uma trama. Perdido em Marte, oscila entre isso e a história de um herói que salva a si mesmo. Nenhuma das duas saídas acaba funcionando bem e o filme patina sem decidir nenhuma.
O primeiro diálogo acaba dando o tom do resto do filme: exagerado, artificial e te dá a sensação de que Hollywood já entregou isso antes.
Talvez o isolamento de Mark tivesse um tom mais dramático e nos fizesse realmente sentir algo pelo protagonista se não fosse pela interpretação fraca de Matt Damon. Não consigo acreditar que ele foi indicado ao Oscar de melhor ator. Na minha opinião, a indicação dele e a ausência de Idris Elba, por exemplo, é um cala-a-boca para quem diz que a ausência de negros no Oscar não é problema porque as indicações são por mérito.
Esse filme tem muita coisa, mas não tem mérito.
Clube de Compras Dallas
4.3 2,8KEu não conhecia a história de Ron Woodroof quando li a sinopse do filme. Achei que a premissa do cowboy-machão-homofóbico que é obrigado a rever seus preconceitos seria forçada e meio cômica. Não é.
Clube de Compras Dallas evidencia as dimensões sociais da AIDS. Não é sobre a redenção do cowboy arquetípico, mas sobre como a sociedade dos Estados Unidos precisou ser moldada para fazer frente a uma doença nova, que cercava a todos, mas que se aproximava pelos cantos em que a maioria das pessoas não queria olhar.
O combate contra o vírus HIV foi travado nos laboratórios, mas também nas cortes e nas ruas e isso foi fundamental para os avanços que temos hoje, como o filme mostra muito bem.
Matthew McConaughey e Jared Leto conseguiram construir personagens que se completam e uma sinergia espetacular e conseguiram apresentar perfeitamente o retrato de uma era em que a esperança era um recurso escasso.
O Quarto de Jack
4.4 3,3K Assista AgoraNão há artigos, definidos ou indefinidos, para as coisas no mundo de Jack. Mesa, Cadeira nº1, Cadeira nº2, Rato. Quarto. O universo de Jack é tão pequeno que cada coisa é singular. Apesar disso, seus limites se estendem até o infinito.
Não surpreende que a intensidade da tragédia vivida por mãe e filho passe ao largo das impressões de muitas pessoas. A violência física, psicológica e sexual a que Joy (Ma) é submetida é, até certo ponto, posta como subtexto na narrativa feita do ponto de vista de Jack.
O que está implícito vem à tona, contudo. O Filme se inicia na manhã do aniversário de 5 anos de Jack. E à medida em que ele cresce, o universo fantasioso criado por Ma, em que pessoas de mentira encenam na TV e cujas fronteiras são as paredes de Quarto, se torna pequeno. Old Nick, o personagem semirreal que faz a comida aparecer magicamente se torna real demais.
A direção desse filme me pareceu impecável. Do aperto claustrofóbico de Quarto, até o brilho ofuscante e a profusão de sons do Mundo cada recurso audiovisual é usado para expressar a alegria, medo, confusão e felicidade de Jack. Não me lembro de muitos filmes que tenham explorado a linguagem cinematográfica como esse.
Digna de nota é a atuação de Jacob Trembley no papel de Jack. O personagem passa por emoções por vezes extremamente intensas, por vezes muito sutis. Jacob tem a capacidade de nos guiar por todas elas perfeitamente.
Não vou conseguir fazer jus a tudo o que senti nesse filme, mas ele é até agora, de longe meu favorito pra melhor de 2015.
O Regresso
4.0 3,5KO cuidado do Iñarritu com o filme é tão grande que às vezes parece pecar pelo excesso. Ele pula de um plano-sequência pra outro tantas vezes que o impacto da primeira cena vai desaparecendo com o tempo até chegar ao ponto em que parecemos estar andando em círculos, sem piscar, atrás de um protagonista que está sendo torturado por um roteirista especialmente sádico.
Aliás, Iñarritu tenta com tanto afinco construir a grandiosidade na luta de Glass pela sobrevivência que descamba em uma sequência quase cartunesca de infortúnios e experiências de quase-morte. Apesar disso, Glass se recupera dos diversos ferimentos com rapidez digna de um mutante com ossos de adamantium. Saindo, em um tempo que dá a impressão de ser alguns dias, da condição de rastejar com um perna completamente inutilizada, para um corrida na neve culminando em uma das brigas mais respeitáveis que vi ultimamente.
No fim das contas, é realmente um filme que enche os olhos e vale as duas horas e meia de tela. Mas duvido muito que renda um Oscar de melhor filme ou ator.
Jeff e as Armações do Destino
3.4 316 Assista AgoraAcho que muita gente começa a ver esse filme sem muitas pretensões. Quando a gente vê a cara do Jason Segel no poster já imagina uma comédia meio besta que só serve de passatempo. Os primeiros minutos de filme, entretanto, desfazem essa suposição. Quanto mais se avança no roteiro, menos cara de comédia tem o filme. O mundo de Jeff parece fora de compasso e seu desejo por direcionamento gera estranhamento, dando um tom levemente sombrio à história no breve flerte com o suicídio, quando os sinais do universo parecem sugerir que ele busque uma faca... Pelo que vemos, a busca de Jeff não é uma pura manifestação cômica de excentricidade, mas a tentativa desesperada de preencher um vazio que lhe causa sofrimento. O movimento constante da câmera parece acompanhar as inconstâncias de Jeff, sempre seguindo a trilha de sinais que apenas ele consegue ver - ao menos até os últimos momentos. Acho que uma das várias questões que o filme nos leva a enfrentar está justamente na natureza dos sinais que impulsionam a jornada de Jeff. O universo realmente está direcionando ele para o exato local em que ele é necessário? Ou ele está imprimindo na aleatoriedade do mundo significados que ele criou, construindo assim seu próprio destino? Independente da resposta, o filme parece sugerir que todos os personagens devem encontrar algo que dê substancialidade a suas vidas, sob o risco de perdê-las ou torná-las insuportáveis.