Vi o primeiro episódio com medo do rumo que iria tomar. A série daria uma passada de pano pro alecrim dourado visivelmente incell? Porque no geral não se vê pais e mães admitindo que seus filhos são podres e que o mundo estaria melhor se eles não tivessem tido filhos. É algo proibido de se dizer. Todos são pais e mães que bradam o quanto ter filhos foi a melhor coisa que fizeram na vida e massacram uma mulher que ousar dizer que não quer ter filhos. O resultado está aí, os Jamies da vida. A maioria não chega a matar, mas estão infernizando a vida de outros, principalmente mulheres.
Mas... a série se mostrou coerente e responsável com um tema tão importante. Algo que acho curioso é que meninas sofrem bullying e se tornam adultas deprimidas, meninos se tornam incells, temos no Brasil o caso de Realengo, mas desde lá sinto que pouco se avançou no sentido encarar esse problema. Hoje mesmo vi o caso de uma menina esfaqueada por um stalker que ela recusou.
Por fim, tem me chamado atenção também essas críticas negativas às raras séries boas que são produzidas atualmente, geralmente são reclamações sobre a duração ser maior do que deveria, diálogos longos e "enfadonhos". Parece que já já terão que fazer séries com episódios de 20 segundos narrados por um influencer para poder agradar.
Parece que algumas pessoas não conseguem mais ver algo que não seja vídeos de segundos do instagram, pois aparentemente é imperdoável uma série contar uma história num tempo normal, com vários episódios em que "nada" acontece.
Série The Bridge e o enigma da cidade de Juarez: “corpo de mulher, perigo de morte”
No meio de tantas séries que me apego está The Bridge, do canal FX. A estréia foi ano passado e a segunda temporada iniciou no dia 09 de julho. Pelo que vejo ainda não é muito conhecida, embora seja uma das melhores séries policiais que já vi. Além do roteiro bem elaborado, abordando temas como tráfico e violência, migração e corrupção, tem ótimas atuações, principalmente as dos protagonistas Demián Bichir e Diane Kruger, que interpreta uma detetive portadora da síndrome de Asperger (só isso já é fantástico - representatividade para as mulheres Aspie).
A história começa com o corpo mutilado de uma mulher sendo encontrado na ponte que faz fronteira entre os EUA e o México. Até aqui nada inusitado, mas ao continuar assistindo percebi que a intenção seria falar sobre um assunto que até hoje é praticamente ignorado (afinal, para que um problema deixe de existir basta que não falemos dele, certo? Não.) pelos meios de comunicação: a desconcertante realidade das mulheres da cidade de Juarez, no México.
Foram 1.441 mulheres assassinadas entre 1993 e 2013 e 1.818 mulheres desaparecidas entre 2008 e 2013. Em Juarez, quando uma mulher entra no ônibus para ir até a fábrica onde trabalha, as chances de que ela desapareça, seja brutalmente violentada, torturada e assassinada no caminho são enormes. E o pior: não há qualquer esforço por parte das autoridades no sentido de encontrar os culpados e de oferecer qualquer tipo de proteção a essas mulheres. Não raro reproduzem a desculpa esfarrapada de que as próprias vítimas são culpadas por andarem sozinhas a noite, ou seja, a atuação dos policiais é tão eficaz quanto o silêncio deles.
É claro que um programa de TV não vai mudar essa realidade, não oferece nenhuma proposta efetiva de mudança, mas cumpre o papel de sensibilizar o público e de dar visibilidade a algo que é geralmente ignorado. Algumas cenas/episódios foram cruciais para que a série me conquistasse:
Num deles uma mexicana ajuda uma adolescente “gringa” a escapar e as duas vão a um lugar onde várias cruzes simbolizam mulheres desaparecidas, sendo que a irmã da mexicana é uma delas, porque nunca mais foi vista após um dia de trabalho numa das indústrias ao redor da cidade. O conselho é que a odolescente norte-americana volte pra casa e nunca mais cruze a fronteira até Juarez se não quiser ter o nome gravado em uma daquelas cruzes.
Em outro episódio é exibido um muro com centenas de cartazes e fotografias de moças desaparecidas enquanto uma senhora acende tristemente uma vela para uma delas e diz conhecer um lugar onde é possível procurar por elas. A cena é interrompida e só no final descobrimos que a senhora se referia a um lugar no meio do deserto onde várias pessoas “futucam” uma terra seca na esperança de encontrar os corpos de suas filhas, irmãs, netas. Parece exdrúxulo e poderia ser apenas ficção, mas faz parte do cotidiano daquelas pessoas desesperadas em busca de respostas, ainda que seja a pior delas.
Várias inquietações surgem ao longo dos episódios, mas a principal é: Quantas mulheres terão que desaparecer em Juarez até que o governo não só do México, mas dos EUA (que, como a série bem faz questão de mostrar, é também afetado pelo problema e cúmplice dele) e toda a comunidade internacional parem de fingir que os crimes são um desdobramento normal da onda de violência na cidade? Por quanto tempo mais teremos receio de pronunciar a palavra feminicídio e finalmente vamos admitir que essas atrocidades estão sendo cometidas por homens em razão do ódio às mulheres, da tentativa de colonizar, dominar e de ter poder sobre nossos corpos?
Parafraseando Chomsky em um texto sobre a barbárie em Gaza, tudo isso vai continuar, enquanto for apoiado pelas indústrias estrangeiras, pelo pequeno número de grandes proprietários exploradores da mão-de-obra barata local e tolerado pelas autoridades ineficientes e corruptas – para nossa vergonha infinita.
Adolescência
4.0 611 Assista AgoraVi o primeiro episódio com medo do rumo que iria tomar. A série daria uma passada de pano pro alecrim dourado visivelmente incell? Porque no geral não se vê pais e mães admitindo que seus filhos são podres e que o mundo estaria melhor se eles não tivessem tido filhos. É algo proibido de se dizer. Todos são pais e mães que bradam o quanto ter filhos foi a melhor coisa que fizeram na vida e massacram uma mulher que ousar dizer que não quer ter filhos. O resultado está aí, os Jamies da vida. A maioria não chega a matar, mas estão infernizando a vida de outros, principalmente mulheres.
Mas... a série se mostrou coerente e responsável com um tema tão importante. Algo que acho curioso é que meninas sofrem bullying e se tornam adultas deprimidas, meninos se tornam incells, temos no Brasil o caso de Realengo, mas desde lá sinto que pouco se avançou no sentido encarar esse problema. Hoje mesmo vi o caso de uma menina esfaqueada por um stalker que ela recusou.
Por fim, tem me chamado atenção também essas críticas negativas às raras séries boas que são produzidas atualmente, geralmente são reclamações sobre a duração ser maior do que deveria, diálogos longos e "enfadonhos". Parece que já já terão que fazer séries com episódios de 20 segundos narrados por um influencer para poder agradar.
The White Lotus (3ª Temporada)
3.6 243 Assista AgoraParece que algumas pessoas não conseguem mais ver algo que não seja vídeos de segundos do instagram, pois aparentemente é imperdoável uma série contar uma história num tempo normal, com vários episódios em que "nada" acontece.
The Bridge (1ª Temporada)
3.8 44Série The Bridge e o enigma da cidade de Juarez: “corpo de mulher, perigo de morte”
No meio de tantas séries que me apego está The Bridge, do canal FX. A estréia foi ano passado e a segunda temporada iniciou no dia 09 de julho. Pelo que vejo ainda não é muito conhecida, embora seja uma das melhores séries policiais que já vi. Além do roteiro bem elaborado, abordando temas como tráfico e violência, migração e corrupção, tem ótimas atuações, principalmente as dos protagonistas Demián Bichir e Diane Kruger, que interpreta uma detetive portadora da síndrome de Asperger (só isso já é fantástico - representatividade para as mulheres Aspie).
A história começa com o corpo mutilado de uma mulher sendo encontrado na ponte que faz fronteira entre os EUA e o México. Até aqui nada inusitado, mas ao continuar assistindo percebi que a intenção seria falar sobre um assunto que até hoje é praticamente ignorado (afinal, para que um problema deixe de existir basta que não falemos dele, certo? Não.) pelos meios de comunicação: a desconcertante realidade das mulheres da cidade de Juarez, no México.
Foram 1.441 mulheres assassinadas entre 1993 e 2013 e 1.818 mulheres desaparecidas entre 2008 e 2013. Em Juarez, quando uma mulher entra no ônibus para ir até a fábrica onde trabalha, as chances de que ela desapareça, seja brutalmente violentada, torturada e assassinada no caminho são enormes. E o pior: não há qualquer esforço por parte das autoridades no sentido de encontrar os culpados e de oferecer qualquer tipo de proteção a essas mulheres. Não raro reproduzem a desculpa esfarrapada de que as próprias vítimas são culpadas por andarem sozinhas a noite, ou seja, a atuação dos policiais é tão eficaz quanto o silêncio deles.
É claro que um programa de TV não vai mudar essa realidade, não oferece nenhuma proposta efetiva de mudança, mas cumpre o papel de sensibilizar o público e de dar visibilidade a algo que é geralmente ignorado. Algumas cenas/episódios foram cruciais para que a série me conquistasse:
Num deles uma mexicana ajuda uma adolescente “gringa” a escapar e as duas vão a um lugar onde várias cruzes simbolizam mulheres desaparecidas, sendo que a irmã da mexicana é uma delas, porque nunca mais foi vista após um dia de trabalho numa das indústrias ao redor da cidade. O conselho é que a odolescente norte-americana volte pra casa e nunca mais cruze a fronteira até Juarez se não quiser ter o nome gravado em uma daquelas cruzes.
Em outro episódio é exibido um muro com centenas de cartazes e fotografias de moças desaparecidas enquanto uma senhora acende tristemente uma vela para uma delas e diz conhecer um lugar onde é possível procurar por elas. A cena é interrompida e só no final descobrimos que a senhora se referia a um lugar no meio do deserto onde várias pessoas “futucam” uma terra seca na esperança de encontrar os corpos de suas filhas, irmãs, netas. Parece exdrúxulo e poderia ser apenas ficção, mas faz parte do cotidiano daquelas pessoas desesperadas em busca de respostas, ainda que seja a pior delas.
Várias inquietações surgem ao longo dos episódios, mas a principal é: Quantas mulheres terão que desaparecer em Juarez até que o governo não só do México, mas dos EUA (que, como a série bem faz questão de mostrar, é também afetado pelo problema e cúmplice dele) e toda a comunidade internacional parem de fingir que os crimes são um desdobramento normal da onda de violência na cidade? Por quanto tempo mais teremos receio de pronunciar a palavra feminicídio e finalmente vamos admitir que essas atrocidades estão sendo cometidas por homens em razão do ódio às mulheres, da tentativa de colonizar, dominar e de ter poder sobre nossos corpos?
Parafraseando Chomsky em um texto sobre a barbárie em Gaza, tudo isso vai continuar, enquanto for apoiado pelas indústrias estrangeiras, pelo pequeno número de grandes proprietários exploradores da mão-de-obra barata local e tolerado pelas autoridades ineficientes e corruptas – para nossa vergonha infinita.
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Fargo (1ª Temporada)
4.5 535 Assista AgoraAlguém conseguiu a legenda em inglês?
Falsas Aparências
4.3 192Eu assisti a 2ª parte antes da 1ª( tirou a surpresa do fim). Mas é muito bom!