Pra falar sobre esse filme, temos que ir fundo, ao cerne de um dos movimentos artísticos mais controversos da humanidade. O filme é a prova material de que o surrealismo é compatível com o cinema. Paulo Emilio Salles Gomes, dizia que na história da sétima arte, houveram apenas dois filmes genuinamente surrealistas, Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro, ambos do artista que se entendia tão bem com o insano Salvador Dalí. O movimento do surrealismo integra apenas mais uma das emergentes correntes artísticas que engendraram o modernismo. O contexto era de ruptura ao passado e luta por uma continuidade independente. Para além disso, também a desconstrução de um monumento socio-artístico pré-estabelecido. Essa entonação revolucionária e ambiciosa, urgiu no período mais conturbado da humanidade, em meio à guerras e catástrofes de proporções globais, nas quais o homem passou a questionar sua existência, sua razão de ser. A desilusão coletiva já permeava o imaginário dos artistas à espreita do estopim catártico que só esses grandes períodos de depressão mundial poderiam propiciar. Diante deste quadro, as primeiras ebulições rumaram à negação da realidade e seus conceitos. O surrealismo, propôs essa estética redentora, pela tentação do sonho. Walter Benjamin, dizia sobre o surrealismo que "A vida só parecia digna de ser vivida quando se dissolvia a fronteira entre o sono e a vigília, permitindo a passagem em massa de figuras ondulantes, e a linguagem e o sonho se interpenetravam, com exatidão automática, de forma tão feliz que não sobrava a mínima fresta para inserir a pequena moeda que chamamos "sentido". Sendo assim, o surrealismo rejeitando influênciamentos, adquiriu um culto à própria autonomia, embora inevitavelmente tenha heranças do passado, muito do dadaísmo, como a exploração de um mundo preterido pelas culturas artísticas, o primitivo. Em busca da contravenção na essência da origem da humanidade. As influências também passavam pelo socialismo de Marx, e o profundo material de estudo onírico de Freud. E essa miscigenação borbulhante calcava-se na busca pela novidade, pela descoberta de valores inopinados e imaculados para suscitar novos conceitos e diretrizes. Em suma, a rejeição pela simplicidade, a ousadia da busca por uma nova realidade, mas fazendo questão de desviar-se do niilismo, ou do abstratismo. O desafio aos conceitos lógicos e padronizados eram o oasis dessa geração ávida por inovação e ansia de conhecimento, e imaginem isso tudo no cinema! Se o sonho era a fuga humana à realidade escassa, como atingir este patamar através da arte? Como desafiar todos os alicerces do panorama racional? O diálogo com o onirismo seria o princípio, e através dele, sob o pretexto dele, surgiria o antagonismo perfeito à tudo aquilo que os surrealistas pretendiam desafiar - burguesia e igreja, fundamentalmente. Com o suporte imagético às avessas do tradicionalismo narrativo, Bunuel percebeu a porta aberta para inserir toda sua grandiloquencia elaborada. Componentes como a escatologia, morbidez, crueldade estética e esfacelamento cronológico. Cinema é a arte da sequência de imagens que falam por si. Ainda que decupadas em linearidade avessa, essa sequência é inexoravel. Aí é que Bunuel e Dalí entram. Mais que "um quadro em movimento", o surrealismo se faz até mesmo na desconexão narrativa, na desmistificação cronológica, na visceralidade. Sim, é assim que o movimento artístico se encaixa no cinema, e encaixa bem. Ao confrontar em tom tão incisivo o cinema casto e brando, não se pode esperar nada além de surpresa, choque, confusão. E esse era provavelmente o anseio dessa dupla. O produto final é a antítese de tudo que era o cinema até então, seus princípios, linguagem. Uma chacoalhada audaciosa na estrutura do audiovisual, propondo uma nova forma de contemplar, ou no mínimo uma porção de divagações válidas e típicas de um nicho de público acostumado à coerência, concisão e linearidade, e que certamente encontrou-se em vias de colapso ao tentar conectar os fragmentos retalhados de imagem. Como arte consolidada, e sob o senso comum argumentativo da proposição do cinema como arte multi-interpretativa, é possível e provavel que existam aqueles tão chocados com esta experiência, que renegam a presença de qualquer intenção senão a de revirar o cérebro e deixá-lo assim até segunda ordem. Surrealismo é mesmo sobre o nada e o tudo. Entretanto, creio que haja pouco o que divergir no concernente à famigerada cena da navalha no olho. Basta ligar todo o contexto surrealista, á proposta que a imagem aparenta sugerir. Quão simbólico pode ser cortar o olho de outrém deliberadamente? Este talho crú logo nas primeiras cenas, pode representar o rompimento da barreira da realidade. Sendo os olhos, o que há de mais definitivo na conexão com a realidade dentre os sentidos, sua retaliação pode objetivar, por Bunuel e Dali, o prólogo perfeito ao que estaria por vir. Um universo alternativo, onde o ideal onírico é tangível e interativo. Ao cortar aquele olho, Bunuel (em pessoa), está também cortando o do espectador. Daí por diante é um espetáculo de afrontas, que vão de formigas emergindo do centro da palma de uma mão, de andróginos, de alusões ao fanatismo sexual, o pesar religioso
(outra cena que como a do olho, não me causou muita dificuldade em "identificar". Um homem que para atingir seu desejo é obrigado a carregar as pedras dos mandamentos, membros do clero, pianos e burros)
, dentre tantas outras vertentes de cunho universal, retratadas de forma que talvez ninguém jamais saiba o verdadeiro sentido. Enquanto possivelmente Bunuel e Dalí riem onde quer que estejam. Pela forma geniosa e audaciosa com que esta dupla propiciou a incursão do surrealismo ao cinema, é uma obra das mais importantes pra história da própria arte.
Um curta gigante de sentido. Beckett explora angulações perfeitas para compor a sua obra que mergulha profundamente em diversos temas que permeiam a filosofia durante os séculos. A câmera-olho nos imerge em uma experiência agonizante sobre a percepção do próprio humano. Nossos olhos são a janela da alma, e do todo. Mas o ponto de vista jamais é definitivo, pois a percepção posta diante de um espelho nos reduz a um mero objeto frontal, e aí, diante de nós mesmos, do nosso próprio olhar, questionamos o ser humano. A percepção, o ser, o existir. O personagem de Buster Keaton fugia de todos os olhares, de todos os ângulos, mas por fim não pôde escapar de si mesmo. "Ser é ser percebido", a base para o trabalho de Beckett, suscita uma obra subversiva onde a própria realidade é questionada.
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Um Cão Andaluz
4.1 709 Assista AgoraPra falar sobre esse filme, temos que ir fundo, ao cerne de um dos movimentos artísticos mais controversos da humanidade.
O filme é a prova material de que o surrealismo é compatível com o cinema. Paulo Emilio Salles Gomes, dizia que na história da sétima arte, houveram apenas dois filmes genuinamente surrealistas, Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro, ambos do artista que se entendia tão bem com o insano Salvador Dalí.
O movimento do surrealismo integra apenas mais uma das emergentes correntes artísticas que engendraram o modernismo. O contexto era de ruptura ao passado e luta por uma continuidade independente. Para além disso, também a desconstrução de um monumento socio-artístico pré-estabelecido.
Essa entonação revolucionária e ambiciosa, urgiu no período mais conturbado da humanidade, em meio à guerras e catástrofes de proporções globais, nas quais o homem passou a questionar sua existência, sua razão de ser. A desilusão coletiva já permeava o imaginário dos artistas à espreita do estopim catártico que só esses grandes períodos de depressão mundial poderiam propiciar.
Diante deste quadro, as primeiras ebulições rumaram à negação da realidade e seus conceitos. O surrealismo, propôs essa estética redentora, pela tentação do sonho. Walter Benjamin, dizia sobre o surrealismo que "A vida só parecia digna de ser vivida quando se dissolvia a fronteira entre o sono e a vigília, permitindo a passagem em massa de figuras ondulantes, e a linguagem e o sonho se interpenetravam, com exatidão automática, de forma tão feliz que não sobrava a mínima fresta para inserir a pequena moeda que chamamos "sentido".
Sendo assim, o surrealismo rejeitando influênciamentos, adquiriu um culto à própria autonomia, embora inevitavelmente tenha heranças do passado, muito do dadaísmo, como a exploração de um mundo preterido pelas culturas artísticas, o primitivo. Em busca da contravenção na essência da origem da humanidade.
As influências também passavam pelo socialismo de Marx, e o profundo material de estudo onírico de Freud.
E essa miscigenação borbulhante calcava-se na busca pela novidade, pela descoberta de valores inopinados e imaculados para suscitar novos conceitos e diretrizes.
Em suma, a rejeição pela simplicidade, a ousadia da busca por uma nova realidade, mas fazendo questão de desviar-se do niilismo, ou do abstratismo. O desafio aos conceitos lógicos e padronizados eram o oasis dessa geração ávida por inovação e ansia de conhecimento, e imaginem isso tudo no cinema!
Se o sonho era a fuga humana à realidade escassa, como atingir este patamar através da arte? Como desafiar todos os alicerces do panorama racional? O diálogo com o onirismo seria o princípio, e através dele, sob o pretexto dele, surgiria o antagonismo perfeito à tudo aquilo que os surrealistas pretendiam desafiar - burguesia e igreja, fundamentalmente.
Com o suporte imagético às avessas do tradicionalismo narrativo, Bunuel percebeu a porta aberta para inserir toda sua grandiloquencia elaborada.
Componentes como a escatologia, morbidez, crueldade estética e esfacelamento cronológico.
Cinema é a arte da sequência de imagens que falam por si. Ainda que decupadas em linearidade avessa, essa sequência é inexoravel. Aí é que Bunuel e Dalí entram. Mais que "um quadro em movimento", o surrealismo se faz até mesmo na desconexão narrativa, na desmistificação cronológica, na visceralidade. Sim, é assim que o movimento artístico se encaixa no cinema, e encaixa bem.
Ao confrontar em tom tão incisivo o cinema casto e brando, não se pode esperar nada além de surpresa, choque, confusão. E esse era provavelmente o anseio dessa dupla.
O produto final é a antítese de tudo que era o cinema até então, seus princípios, linguagem. Uma chacoalhada audaciosa na estrutura do audiovisual, propondo uma nova forma de contemplar, ou no mínimo uma porção de divagações válidas e típicas de um nicho de público acostumado à coerência, concisão e linearidade, e que certamente encontrou-se em vias de colapso ao tentar conectar os fragmentos retalhados de imagem.
Como arte consolidada, e sob o senso comum argumentativo da proposição do cinema como arte multi-interpretativa, é possível e provavel que existam aqueles tão chocados com esta experiência, que renegam a presença de qualquer intenção senão a de revirar o cérebro e deixá-lo assim até segunda ordem. Surrealismo é mesmo sobre o nada e o tudo.
Entretanto, creio que haja pouco o que divergir no concernente à famigerada cena da navalha no olho. Basta ligar todo o contexto surrealista, á proposta que a imagem aparenta sugerir. Quão simbólico pode ser cortar o olho de outrém deliberadamente? Este talho crú logo nas primeiras cenas, pode representar o rompimento da barreira da realidade. Sendo os olhos, o que há de mais definitivo na conexão com a realidade dentre os sentidos, sua retaliação pode objetivar, por Bunuel e Dali, o prólogo perfeito ao que estaria por vir. Um universo alternativo, onde o ideal onírico é tangível e interativo. Ao cortar aquele olho, Bunuel (em pessoa), está também cortando o do espectador.
Daí por diante é um espetáculo de afrontas, que vão de formigas emergindo do centro da palma de uma mão, de andróginos, de alusões ao fanatismo sexual, o pesar religioso
(outra cena que como a do olho, não me causou muita dificuldade em "identificar". Um homem que para atingir seu desejo é obrigado a carregar as pedras dos mandamentos, membros do clero, pianos e burros)
Pela forma geniosa e audaciosa com que esta dupla propiciou a incursão do surrealismo ao cinema, é uma obra das mais importantes pra história da própria arte.
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4.4 8 Assista AgoraUm curta gigante de sentido.
Beckett explora angulações perfeitas para compor a sua obra que mergulha profundamente em diversos temas que permeiam a filosofia durante os séculos.
A câmera-olho nos imerge em uma experiência agonizante sobre a percepção do próprio humano. Nossos olhos são a janela da alma, e do todo. Mas o ponto de vista jamais é definitivo, pois a percepção posta diante de um espelho nos reduz a um mero objeto frontal, e aí, diante de nós mesmos, do nosso próprio olhar, questionamos o ser humano. A percepção, o ser, o existir.
O personagem de Buster Keaton fugia de todos os olhares, de todos os ângulos, mas por fim não pôde escapar de si mesmo.
"Ser é ser percebido", a base para o trabalho de Beckett, suscita uma obra subversiva onde a própria realidade é questionada.