As vidas negras importam neste filme poderoso sobre uma nova fundação do Oeste americano. Três diretoras belgas colaboram com Lashay T. Warren, um jovem esperançoso que se mudou com a namorada e os filhos de Los Angeles para California City, um projeto iniciado na década de 1960 no deserto de Mojave e ainda inacabado, que abriga menos de 15.000 pessoas hoje. Lashay trabalha varrendo ruas desertas, faz longas caminhadas até a escola para estudar sobre os colonos pioneiros e se filma em um diário ao longo de quase dois anos. A partir de um lugar descartado, contar histórias se torna uma maneira de escrever seu próprio nome no mundo.
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Pessoas cujas opiniões eu respeito amaram este filme. E recebeu o prêmio do Júri no Festival Olhar de Cinema. A conjunção de ambos os elementos obrigaram-me a conferi-lo, nem que fosse para refutar uma possível hiperestima. No início, desconfiei: tenho um problema pessoal com as narrativas envolvendo imigrantes. Mas o que é deslindado nesta (quase) obra-prima é sobremaneira íntima, uma diário audiovisual de pertencimento e ressignificação territorial que torna-se também uma assunção identitária e subversiva. O protagonista é belíssimo, e é circundado por pessoas que merecem todo o nosso afeto. Numa das seqüências mais impactantes, ele brinca com o aplicativo Google Earth, o que fez com que eu pensasse noutro documentário que amei, NÃO HAVERÁ MAIS NOITE. Porém, a perspectiva adotada pelo trio belga de diretoras é diurno: o Sol precisa queimar para que compreendamos e sintamos o que aquelas pessoas vivenciam. O Oeste norte-americano tem muito a ver com o nordeste brasileiro, onde vivo. E o cotejo narrativo, nos depoimentos escolares, não é um mero chiste: as narrativas de desbravamento dos pioneiros do século XIX reforça a luta por sobrevivência de quem nunca tinha visto seu nome brilhar. Fiquei encantado: é um filme fascinante em sua progressão barthesiana. Quando caminha pelas ruas pelas quais deambula diuturnamente na rotina de árduo trabalho, o protagonista rebatiza tudo: em sua experiência íntima, possui aquele ambiente, configurando-o idealmente como ambiente adequado à criação de sua família. Irmanamo-nos neste anseio, que sabemos que será atravessado por inúmeros problemas e securas. Genial! (WPC>)
É curioso assistir a uma história tipicamente norte-americana através da lente de cineastas belgas, e perceber em como a abordagem estrangeira oferece, através do olhar, um Estados Unidos inusual a quem está acostumado apenas a consumir a versão cinematográfica do Big Mac. O assunto deste documentário atrai por contar a história de California City, idealizada para ser algo, mas construída às pressas antes de ser abandonada no meio do deserto, e tal projeto malsucedido não é diferente das vidas desalentadas na árida terra de oportunidades do Tio Sam, igual a de Lashay.
A partir do vídeo-diário que produz através do celular e é reproduzido em trechos, o espectador pode perceber a relação de identidade entre o protagonista e o ambiente que o envolve. De ambos, o Estado desistiu. Entretanto, existe um conforto em saber que detrás de tempestades, há arco-íris, frase citada por Lashay, que reconhece não estar no ambiente adequado para estabelecer a família e a carreira e demonstra a saudade de Los Angeles enquanto visita as ruas via Google Maps. Contudo, isto não o impede de levantar a cabeça e fazer seu nome brilhar, da forma como é possível, naquele tipo de vitória agridoce (e que já pudemos conferir nesta edição do Olhar de Cinema em Los Lobos, por exemplo).
Ao fim, o retrato pintado pelo trio belga dos Estados Unidos oferece a realidade bruta desta cidade árida e ironicamente irrigada somente quando sua infraestrutura pobremente planejada é avariada, aliado à vida desta homem cuja oportunidade surgiu pelo acaso fortuito do abandono.
Visto hoje, no festival "Olhar de cinema", de Curitiba