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Data de lançamento
27 Ago. 2014Duração
Um ator (Michael Keaton) – famoso por interpretar um icônico super-herói – faz de tudo para montar uma peça na Broadway. Às vésperas da estreia, ele vai lutar com seu ego e tentar recuperar sua família, sua carreira e ele mesmo.
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*Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)* (2014), dirigido por Alejandro G. Iñárritu, opera como um sutil e implacável tratado psicanalítico sobre a vaidade artística, o ego contemporáneo e a mercantilização da cultura na era dos algoritmos e das franquias de super-heróis. A genialidade estrutural do filme começa em sua famosa recriação de um plano-sequência contínuo — fotografado magistralmente por Emmanuel Lubezki , que não serve apenas como mero malabarismo técnico, mas como uma metáfora sufocante do fluxo de consciência de Riggan Thomson (Michael Keaton), um ator decadente amarrado ao fantasma de um bilionário mascarado que o consagrou, mas o anulou artisticamente.
Sob uma lente cultural aguda, o longa expõe a neurose de uma indústria do entretenimento obcecada por validação instantânea, onde a alta cultura da Broadway e a cultura pop industrializada travam uma guerra simbiótica e desesperada por relevância. O "Birdman" que ecoa na mente de Riggan personifica a infantilização do gosto de massa e o complexo de inferioridade do artista diante da cultura do espetáculo digital algo profético em uma década dominada por universos cinematográficos de super-heróis. O filme zomba impiedosamente da crítica cultural acadêmica e jornalística, personificada na implacável crítica teatral que despreza atores de cinema antes mesmo de ver sua arte, revelando como o meio artístico se tornou um mercado autofágico de esnobismo e insegurança.
O golpe de mestre da obra reside em sua ambiguidade narrativa: ao dissolver os limites entre alucinação e realismo mágico, Iñárritu subverte o clichê da redenção artística. A catarse final de Riggan não é o triunfo do gênio sobre a mediocridade, mas a constatação trágica de que, no ecossistema cultural moderno, o artista só atinge o estatuto de ícone imortal quando se destrói espetacularmente para o consumo público. *Birdman* é, portanto, um manifesto brilhante e doloroso sobre a necessidade humana de ser amado e lembrado, em um mundo que consome a alma dos criadores com a mesma velocidade com que descarta as capas de seus heróis de ficção.
IMPRIMATUR - visto no DVD em 2015:
Em meados de 1996 uma extinta revista de cinema e vídeo, trazia como matéria de capa, os 100 filmes mais famosos de todos os tempos até a época. Baseando-se muito em resultados de bilheteria, entre eles estava o BATMAN de Tim Burton. A cada comentário curioso, acerca dos filmes, era sempre em cima de sua influência em contraponto a possibilidade de o mesmo não ter existido. Segundo a revista, sem o citado filme de 1989, “Michael Keaton ainda estaria em sua merecida insignificância”. Na época achei o comentário equivocado, mas passível de entendimento, justamente porque se o considero até hoje o melhor Batman, o faço mais por uma estima involuntária. Sei que soa oportunista elogiá-lo no momento e até mereça com louvor, não o farei. O engraçado é que todos os trejeitos habituais (leiam-se, suas técnicas de interpretação) estão todos presentes em BIRDMAN, ou seja, acredito que mais do que um aprimoramento individual, muito tem haver com um bom resultado de ocasião, ele está grandioso porque assim foi exigido.
É um filme de conceito obrigatório, pena não ter uma linguagem mais ampla, e a geração “redes sociais” pode não se enxergar assim, por exemplo. Talvez, por fomentar um tipo de metalinguagem autocrítica da arte de se intencionar arte, fique bem específico. Sem ter a capacidade de mensurar meramente o quanto a farsa consegue alimentar-se da realidade, ou, que isso se der no inverso, afirmo que me sentir ofendido enquanto pretensioso comentarista de filme. Assim, tudo será sempre passivo de um relativismo, e às vezes somos tão cruéis quando emitimos uma opinião... Quando será que começamos a achar normal desqualificar algo de que se gosta tanto? Assistir esse filme até justificaria meu desgosto com a banalização da arte num sentido geral. Mas como são muitos os “críticos de merda” que não existem como eu, serei mais humano com quem ao menos se realiza por tentar. BIRDMAN é mais que um objeto fílmico, é o prelúdio sentimental de uma nulidade estrutural que agonia toda a humanidade...
Avaliação em nota: 7.9
Não curti.
Gostei
O filme Birdman vai muito além da história de um ator tentando recuperar sua carreira; ele revela uma crise existencial em que a identidade se fragmenta entre aquilo que se é e aquilo que se precisa parecer ser. Riggan vive aprisionado pelo próprio ego, dividido entre o passado como ícone comercial e o desejo de ser reconhecido como um artista legítimo. O teatro surge, então, como uma tentativa de redenção, quase como um espaço sagrado onde ele acredita poder provar seu valor, mas o filme questiona se essa busca é realmente autêntica ou apenas uma forma mais sofisticada de vaidade. Ao longo da narrativa, a voz do Birdman invade sua mente, borrando os limites entre realidade e delírio, sugerindo que os personagens que interpretamos nunca nos abandonam completamente. Nesse sentido, a obra propõe uma reflexão incômoda: talvez não exista um “eu verdadeiro” por trás das máscaras, mas apenas camadas de atuação que se sobrepõem. Assim, palco e vida deixam de ser opostos e passam a se confundir, transformando a existência em uma performance contínua, onde o desejo de ser visto pode ser mais forte do que o desejo de simplesmente ser.
O filme reflete, de forma levemente ácida, sobre ego, fama e identidade, deixando uma sensação inquietante. Destaque para a atuação magnética de Michael Keaton.