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Confesso que o filme me pegou desprevenido. É difícil assistir sem se sentir tocado, questionado e até desconfortável. Diferente de "CODA", focado na família, aqui existe a relação professor-aluna surda-cega e os limites do ensino formal/informal.
Como prof. pensei bastante sobre Sahai. Ele não é o educador gentil que idealizamos: é duro, invasivo, quase violento... e isso me incomoda e fascina. Quando Sahai joga água em Michelle, forçando-a a reagir, penso: isso seria aceitável hoje? Provavelmente não, mas funcionou e naquele caso foi efetivo. Ele precisou entrar no mundo dela; Michelle desperta, saindo de um universo de mimo sufocante para a realidade. Será que educar não é também desafiar e provocar? Não existe um manual para o ensino regular de pessoas tipicas, quem dirá de cego-surdos. Que manual ensinaria aquilo que Sahai fez? Que argumento justifica aquela garra e fé naquela aluna?
Quando Michelle se torna o apoio de Sahai, já perdido no alzheimer, senti um nó na garganta. É uma realidade dura, mas ali está a essência: a educação é circular. O professor que transforma é transformado. O aluno que aprende se torna mestre. Michelle quer devolver o favor que lhe deu a dignidade de existir.
As atuações são bem novelescas, mas não acho que estraguem o filme, muito menos a mensagem. O tom cristão é visível, mas sutil e poético; não é um filme sobre Cristo, mas certamente é sobre fé. Enfim, é uma obra de reflexão com perguntas e nem tantas respostas, o que é bom também. Um ensino provocativo também se baseia numa realidade provocativa.
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Hong Sang-soo vai direto ao nervo da tensão entre a fachada social polida e o desejo cru. Ao assistir, é impossível não traçar um paralelo com a lógica do tatemae japonês ou do chemyon coreano (aquela exigência sufocante de manter a "face" e a reputação públicas intactas). Mas o grande trunfo do filme é evidenciar que essa pressão esmagadora não é um fardo universal, e sim um fenômeno com forte recorte de classe, profundamente enraizado nas dinâmicas da classe média e da elite intelectual. Sustentar esse teatro social custa caro: exige tempo, capital cultural e, acima de tudo, um rigoroso controle sobre o espaço material. Se olharmos para a formação dessas sociedades, percebemos que a apropriação dessa moralidade foi um projeto de status. Códigos de conduta que nasceram em elites históricas (como a aristocracia Yangban na Coreia ou a classe samurai no Japão) foram adaptados pela burguesia ascendente durante os processos de modernização urbana.
É exatamente essa dinâmica que explica a hipocrisia e a inércia que vemos no filme, brilhantemente sintetizadas na figura da irmã reclusa. A sua reclusão escancara o que podemos chamar de "privilégio do colapso". O próprio ato de se isolar do mundo diante de uma crise existencial exige infraestrutura. Trancar-se em um quarto para se tornar a grande juíza da moralidade alheia requer uma família com renda suficiente para sustentar um adulto improdutivo. O pobre, quando entra em colapso, não tem esse tempo; ele precisa estar no trem lotado no dia seguinte. A ansiedade pelo status aprisiona esses personagens. A classe média intelectualizada vive no meio-termo: tem uma reputação a perder, mas não possui a segurança financeira inabalável dos super-ricos. Por isso, o controle milimétrico do comportamento e da etiqueta à mesa vira a sua principal moeda de troca.
A genialidade de Hong Sang-soo é apontar seu microscópio e suas longas conversas regadas a soju justamente para esses poetas, diretores e professores. Eles formam essa elite cultural que passa a vida inteira polindo a própria vitrine e organizando seus espaços domésticos para parecerem impecáveis, mas que, nos bastidores e no cansaço da convivência, invariavelmente desmoronam sob o peso da própria invenção.