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Revisitar a filmografia de Walter Salles é sempre um exercício de reflexão sobre as oportunidades – ou a escassez delas – no cinema brasileiro. Salles, ao longo de sua carreira, mostrou que sabe abraçar desafios e fazer muito com pouco, algo essencial para quem trabalha em um mercado tão restrito como o nosso. O que mais me impressiona é sua habilidade em transformar limitações em potência criativa, especialmente em filmes como “Terra Estrangeira” e “O Primeiro Dia”. Ambos, apesar de orçamentos modestos, destacam-se pela ousadia narrativa e pela sensibilidade visual.
No caso de “O Primeiro Dia”, o filme nasceu de uma proposta internacional: o projeto 2000 Vistas, que convidou cineastas de várias partes do mundo a refletir sobre o impacto da virada do milênio em suas respectivas culturas. Essa encomenda colocou Salles em uma posição que ele conhece bem – a pressão de entregar algo relevante em um curto espaço de tempo. Quando o cerco aperta, ele parece recorrer a uma de suas parcerias mais confiáveis: Daniela Thomas, que traz ao projeto uma inteligência criativa admirável e complementa seu olhar cinematográfico.
A dinâmica entre Salles e Thomas é evidente em cada escolha do filme, desde a direção intimista até o roteiro, que frequentemente incorpora contribuições dos próprios atores. Diálogos reescritos durante o processo de filmagem e momentos de improviso refletem a urgência da produção e o estilo colaborativo da dupla. Essa abordagem, embora arriscada, é eficaz em criar personagens autênticos e uma narrativa que pulsa com realismo.
Visualmente, O Primeiro Dia carrega uma clara influência do neorrealismo italiano – um movimento que, segundo o próprio Salles, foi uma de suas grandes descobertas durante a adolescência na Europa. Essa estética está presente no uso de locações reais no Rio de Janeiro, na iluminação natural e nos enquadramentos que destacam a solidão e a complexidade de seus personagens. Há uma poesia melancólica no modo como o filme retrata a virada do milênio, explorando temas como a transição, a incerteza e a desigualdade social.
Ainda assim, confesso que, enquanto cineasta e espectador, tive dificuldade em me conectar emocionalmente com O Primeiro Dia. Diferentemente de obras anteriores de Salles, como “Central do Brasil” ou o já citado “Terra Estrangeira”. Talvez seja a natureza do projeto, talvez a urgência na execução – mas a verdade é que, apesar de admirar a condução do filme e a entrega dos atores, ainda assim não me conectei. Por outro lado, assistir a este filme é, sem dúvida, um exercício interessante e enriquecedor. Ele reafirma a habilidade de Walter Salles em se manter em movimento, em encontrar oportunidades em meio a limitações e em trabalhar com recursos modestos para criar algo que, ainda que prático, tem valor e significado.
Revisitar a filmografia de Walter Salles é como embarcar em uma jornada cinematográfica que desvela os contrastes e riquezas do Brasil, e Central do Brasil é, sem dúvida, a joia que brilha mais intensamente nesse percurso. Meu projeto pessoal de assistir à obra completa do cineasta está caminhando a passos lentos, mas cada passo é recompensador. Até agora, passei por "A Grande Arte" e "Terra Estrangeira", e ao rever "Central do Brasil", me vi profundamente tocado de uma forma que jamais imaginei, talvez porque minha experiência de vida e meu olhar cinematográfico mudaram tanto desde a primeira vez que assisti a este filme, muito antes de me tornar cineasta.
O curioso é que desta vez a experiência foi diferente em todos os sentidos. Assisti ao filme no celular, algo que nunca imaginei fazer, mas estava na estrada, retornando para casa. E talvez isso tenha tornado a experiência ainda mais simbólica, já que Central do Brasil é, antes de tudo, uma narrativa sobre deslocamento, sobre o encontro com o Brasil profundo e sobre o reencontro de personagens com suas próprias essências. O filme dialogou diretamente com o momento que eu vivia, e isso o tornou ainda mais especial.
Agora, com um olhar mais apurado e técnico, posso afirmar sem hesitação: Central do Brasil é impecável. Cada elemento da produção é tratado com maestria, fruto do trabalho de uma equipe que entregou um verdadeiro tesouro nacional. A fotografia de Walter Carvalho é um espetáculo à parte: os grãos, as texturas, os enquadramentos e a iluminação conferem ao filme uma estética que é tanto crua quanto poética. Já tinha ficado impressionado com o trabalho dele em Terra Estrangeira, mas aqui, com um orçamento maior, Carvalho leva sua competência a um nível ainda mais alto, ampliando as dimensões visuais da narrativa.
Uma das características marcantes do trabalho de Walter Salles, especialmente em suas obras anteriores, é a mistura de gêneros dentro de um único filme. Porém, em "Central do Brasil", ele opta por uma abordagem mais direta e sólida, o que, sem dúvida, contribui para sua maior conexão com o público. A história é linear, mas profundamente humana, e isso faz toda a diferença.
A trilha sonora é outro destaque. Remete ao clássico cinema hollywoodiano, mas traz uma alma brasileira inconfundível, especialmente na trilha tema. É como se a música guiasse emocionalmente o espectador pela jornada de Dora e Josué, costurando os momentos de tensão e redenção com uma sensibilidade ímpar.
O que mais me chamou a atenção foi como a linguagem visual do filme reflete a transformação interna da protagonista, Dora. O início claustrofóbico, com planos fechados e cores opacas, vai cedendo espaço a planos mais amplos e cores mais vivas à medida que Dora redescobre sua humanidade. Essa transição não é apenas narrativa, mas sensorial, e no final, o filme entrega algo raro: a sensação de um abraço reconfortante.
E, claro, não poderia deixar de mencionar Fernanda Montenegro. Sua atuação é um espetáculo em si. Ela não apenas interpreta Dora; ela se transforma nela, entregando uma performance que transcende a tela e nos faz acreditar em cada olhar, em cada silêncio.
Central do Brasil é uma obra-prima que transcende o cinema. É um espelho de um Brasil profundo, de suas contradições, dores e belezas. Walter Salles, com sua sensibilidade e visão, nos deu um presente que permanece tão relevante e impactante quanto no dia de seu lançamento. Rever este filme foi, para mim, um reencontro com o cinema na sua forma mais pura e poderosa.
Últimos recados
Sim, assisti no festival de Santos, de madruga rs. Parabéns pelo filme!
Oi Rafael, tudo certo?
Adicionado!
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Adoro o trabalho de David Lynch, mas nunca tinha assistido Twin Peaks, apesar de sempre ouvir falarem sobre. Ontem, sem nada para fazer, encontrei esse filme no catálogo do Telecine e não pensei duas vezes. Filme deliciosamente maluco! Porém, achei que estava vendo uma versão reeditada da série, adaptada para o formato de filme para streaming. Fui pesquisar e, para minha surpresa, descobri que Twin Peaks vai muito além disso – há várias obras relacionadas!
Pesquisando na internet descobri algumas coisas sobre a ordem correta d assistir. Me parece que a ordem cronológica, se quiser acompanhar os eventos na linha do tempo, seria:
Twin Peaks: Fire Walk With Me (1992) – Filme (Prequela)
Twin Peaks (1990-1991) – Série (Temporadas 1 e 2)
Twin Peaks: The Return (2017) – Série (Temporada 3)
Porém, se assistir "Fire Walk With Me" antes pode tirar parte do mistério e impacto da série original, então a ordem de lançamento é a mais recomendada (Já comecei errado), que seria:
- Twin Peaks (1990-1991) – Série Original
- Twin Peaks: Fire Walk With Me (1992) – Filme
- Twin Peaks: The Return (2017) – Série (Temporada 3, 18 episódios)
Enfim, se estiver considerando começar por este filme, agora você sabe a ordem certa!