Dirigido por
Duração
O destino de João (Luiz Carlos Vasconcelos), encarcerado num presídio do Rio de Janeiro, nunca deveria se cruzar com o de Maria (Fernanda Torres), isolada em seu apartamento. Mas no dia 31 de dezembro de 1999 João foge da prisão. No mesmo momento, Maria vaga pelas ruas da cidade, desamparada e abandonada pelo marido. João é perseguido nos becos e favelas de Copacabana. Começa a contagem regressiva da virada do ano. Estouram os primeiros fogos de artifício. Sem nenhuma perspectiva, Maria sobe para o telhado de seu prédio, o mesmo lugar onde João busca se esconder. E é nesse espaço, entre o céu e a terra, na utopia de uma única noite, que a cidade partida se abraça e o milagre se produz. Até a chegada do primeiro dia.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
IMPRIMATUR - visto no cinema em 1999:
Taí, preciso revisitar esse filme... lembro que considerei a cena da oração um pouco pesada.
Avaliação em nota: 7.0
Irregular.
Revisitar a filmografia de Walter Salles é sempre um exercício de reflexão sobre as oportunidades – ou a escassez delas – no cinema brasileiro. Salles, ao longo de sua carreira, mostrou que sabe abraçar desafios e fazer muito com pouco, algo essencial para quem trabalha em um mercado tão restrito como o nosso. O que mais me impressiona é sua habilidade em transformar limitações em potência criativa, especialmente em filmes como “Terra Estrangeira” e “O Primeiro Dia”. Ambos, apesar de orçamentos modestos, destacam-se pela ousadia narrativa e pela sensibilidade visual.
No caso de “O Primeiro Dia”, o filme nasceu de uma proposta internacional: o projeto 2000 Vistas, que convidou cineastas de várias partes do mundo a refletir sobre o impacto da virada do milênio em suas respectivas culturas. Essa encomenda colocou Salles em uma posição que ele conhece bem – a pressão de entregar algo relevante em um curto espaço de tempo. Quando o cerco aperta, ele parece recorrer a uma de suas parcerias mais confiáveis: Daniela Thomas, que traz ao projeto uma inteligência criativa admirável e complementa seu olhar cinematográfico.
A dinâmica entre Salles e Thomas é evidente em cada escolha do filme, desde a direção intimista até o roteiro, que frequentemente incorpora contribuições dos próprios atores. Diálogos reescritos durante o processo de filmagem e momentos de improviso refletem a urgência da produção e o estilo colaborativo da dupla. Essa abordagem, embora arriscada, é eficaz em criar personagens autênticos e uma narrativa que pulsa com realismo.
Visualmente, O Primeiro Dia carrega uma clara influência do neorrealismo italiano – um movimento que, segundo o próprio Salles, foi uma de suas grandes descobertas durante a adolescência na Europa. Essa estética está presente no uso de locações reais no Rio de Janeiro, na iluminação natural e nos enquadramentos que destacam a solidão e a complexidade de seus personagens. Há uma poesia melancólica no modo como o filme retrata a virada do milênio, explorando temas como a transição, a incerteza e a desigualdade social.
Ainda assim, confesso que, enquanto cineasta e espectador, tive dificuldade em me conectar emocionalmente com O Primeiro Dia. Diferentemente de obras anteriores de Salles, como “Central do Brasil” ou o já citado “Terra Estrangeira”. Talvez seja a natureza do projeto, talvez a urgência na execução – mas a verdade é que, apesar de admirar a condução do filme e a entrega dos atores, ainda assim não me conectei. Por outro lado, assistir a este filme é, sem dúvida, um exercício interessante e enriquecedor. Ele reafirma a habilidade de Walter Salles em se manter em movimento, em encontrar oportunidades em meio a limitações e em trabalhar com recursos modestos para criar algo que, ainda que prático, tem valor e significado.
Esse era o único longa ficcional brasileiro do Walter Salles que eu ainda não tinha assistido e acabou sendo o pior da filmografia dele, até então, para mim. Achei o roteiro, co-assinado pelos diretores em conjunto com João Emanuel Carneiro, mal desenvolvido. Há densidade nas cenas, mas não sinto que elas conseguem transportá-la para a atmosfera do filme e alcançar quem está assistindo, Ai impressão que tive foi de que a história em tela parece o tempo todo preparar o espectador para um climax que acaba não acontecendo. Quando chegamos à cena final, fiquei com a sensação de que, por mais que as tramas tivessem se reunido e sido concluídas, ainda faltava algo a dizer. Uma pena.
Onde dá pra assistir/baixar?