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Data de lançamento
15 Junho 2019Duração
A bailarina clássica Maria Araújo Lima (Marcélia Cartaxo), mais conhecida como Pacarrete, começa a enfrentar o drama da velhice. Desde menina, ela vivia pelo seu grande sonho de se tornar uma grande bailarina, mesmo que sendo nascida e criada em Russas, uma cidade muito conservadora do interior do Ceará, onde o normal seria se casar e cuidar dos filhos. Apesar das dificuldades, ela persiste em fazer o possível para alcançar sua meta.
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"Uma artista nunca deve deixar os palcos"
Primeiramente que atuação majestosa da Marcélia Cartaxo(a eterna Macabéa <3) consegue transitar entre uma Pacarrete de olhar afiado, vaidosa, que se veste bem, fala o que pensa e bem alto, pra uma Pacarrete de olhar perdido e melancólico, que para de se arrumar, de sair de casa e que perdeu sua voz.
O melhor da personagem é que ela não é uma completa santa injustiçada. Mesmo eu entendendo suas críticas em relação a cultura da cidade. Ainda sim, Pacarrete era muito arrogante e rude desnecessariamente, mas eu entendi que a rispidez dela era uma forma de autoproteção. Ela se via como uma pessoa de altíssima classe, conectada com a arte e vivia em um lugar no qual não se sentia vista e valorizada, e depois de se tornar piada na cidade, ela começou a atacar antes de ser atacada.
Esse é o ponto alto do filme pra mim. A protagonista não é completamente uma vítima. Embora tenha sido vítima de uma sociedade que não acolhe a arte, muito menos a velhice, ela não era bem uma idosa fofinha que foi desprezada gratuitamente, ela erra e muito. Mostrando-se um ser humano real, com falhas.
Acho interessante também analisar o personagem do Miguel. Um típico mulherengo safado de cidade pequena, que conquista corações de mulheres vulneráveis(principalmente idosas solitárias, como a Pacarrete) só pra inflar o próprio ego. E ele ainda fica falando pra Pacarrete que não poderia hospedar ela na casa dele, por conta da esposa, que estava viajando e que isso pegaria mal na vizinhança e blá, blá, blá. Sendo que o cara vivia por aí flertando com senhoras e a reputação dele por si só já deveria dar no que falar, mas isso deveria ser tratado como algo bobo demais pra estragar o status de bom moço que ele deveria ter. Agora colocar a Pacarrete, uma mulher que já era conhecida por ser a louca da cidade dentro de casa? Naaaaah aí já era demais... Enfim, é um filme forte e com muitas camadas.
Tô com o coração em caquinhos com esse filme, mas naquela poética avassaladora que somente a arte provoca. Teve muitos momentos de riso, Pacarrete é a personificação de sua fúria artística.
A cena final tá marejada nos olhos, aquela imensidão vazia...
Lindo demais!
Revi esse filme por esses dias. Quem é cearense sente tudo com uma intensidade e tanto, principalmente quem nasceu em cidade interiorana, longe da capital. O tempo em Russas fala das nossas raízes através de Pacarrete. A maneira como ela encara a vida, aos gritos, carrega um pouco de nossas avós cearenses naquele chão brabo e seco do sertão, na Caatinga.
Pacarrete fala sobre a mulher que envelhece e tem suas escolhas moldadas pelos cuidados com o outro, deixando o próprio sonho em outro espaço do mundo. Ela já não cabe mais em Russas, mas também não cabe em qualquer outro lugar. Os russanos não entendem Pacarrete. Não por maldade evidente, mas por uma ignorância quase estrutural.
Em contraponto, a própria elite russana desdenha daquela mulher sofrida, atravessada por uma arte europeizada e idealizada por ela, alheia àquele mundo. Essa elite, que detém os meios do conhecimento, em vez de oportunizar a vida para Pacarrete, zomba do que dá sentido à sua existência e a desumaniza.
A mulher sertaneja vive em cada detalhe da personagem: na fala bruta, na dificuldade de expressar o que sente pela palavra, no varrer da calçada. Ela encontra seu lugar no balé, como forma de sobreviver à secura daquela cidade. Afinal, que lugar é dado a essas mulheres?
Um adendo: que atuação! E aquela casa? Revivi tantas memórias naquela cozinha, na sala, na costura, nos bares e ruas. Uff...
Fico pianinho. Choro que nem bebê. Porra, lindo demais.
Comédia dramática nacional da Deberton Filmes, O2 Play, Vitrine Filmes e BayView Entertainment vencedora de 8 Kikitos de Ouro no Festival de Cinema de Gramado: incluindo melhor filme, melhor diretor, melhor atriz, Marcélia Cartaxo, e melhor roteiro; no Grande Prêmio Cinema Brasil, mais 16 nomeações: melhor filme, melhor atriz coadjuvante, Soia Lira, melhor atriz coadjuvante, Zezita Matos, e melhor fotografia, vencendo os de melhor atriz, Marcélia Cartaxo, melhor ator coadjuvante, João Miguel, melhor roteiro original e melhor trilha sonora.
O longa foi filmado em Russas e Fortaleza, no Ceará. Baseado em fatos reais, a primeira meia hora é uma comédia, até que de repente o tom muda e se torna algo sombrio e transcendental. É um filme que vale a pena assistir até o fim, principalmente pela extraordinária capacidade de Marcélia Cartaxo de ser fascinante e libertadora, qualquer que seja seu estado de espírito, mesmo tendo que aguentar aquela voz irritante dela.
Não esperava nada e gostei muito.
Recomendo
20.06.2025