Últimas opiniões enviadas
Sonhos de Trem é um filme visualmente deslumbrante e essencialmente melancólico, com potencial para fazer o espectador refletir bastante tempo sobre as escolhas que fazemos ao longo da vida.
Adaptado do livro homônimo, escrito por Denis Johnson, Sonhos de Trem abraça suas raízes ao adotar um narrador (Will Patton) que confere uma onisciência literária ao desenvolvimento da trama, transmitindo a impressão de que estamos acompanhando um formato híbrido de audiolivro ilustrado por belíssimas cenas.
Por isso, assistir a esse filme é um convite à uma imersão poética, quase onírica, cercada de uma atmosfera melancólica e acolhedora, que estimula o espectador a contemplar, sentir e refletir, desde que esteja disposto a se permitir ser conduzido por essa proposta.
A hipnótica fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, é o principal catalizador dessa experiência sensorial, onde cada cena, cada enquadramento parece traduzir um conceito de obra de arte, seduzindo e fascinando cada vez mais o espectador.
Pela perspectiva do protagonista Joel Edgerton (Robert Grainier) acompanhamos uma sociedade americana do início do século XX em transformação, ao mesmo tempo em que compartilhamos e nos identificamos com suas angústias, incertezas e reflexões existencialistas.
De forma sutil, a narrativa cinematográfica ainda explora questões relevantes, como a exploração predatória da natureza, racismo e violência contra imigrantes, assuntos inegavelmente atuais na sociedade contemporânea.
Destaque ainda para a primorosa atuação de William H. Macy, no papel do lenhador Arn Peeples que mesmo com pouquíssimo tempo de tela, consegue cativar com seu carisma e talento.
Sonhos de Trem é um filme arrebatador, imersivo, sensível e onde até mesmo os silêncios ecoam reflexões. É uma produção que convida o espectador sentir e refletir (durante e após assisti-lo) sobre nosso papel no mundo e os desdobramentos de nossas decisões.
Hamnet é uma das produções mais sensíveis sobre o luto, já realizadas na história recente do cinema hollywoodiano!
Baseado no romance histórico homônimo, escrito por Maggie O'Farrell, que também assina o roteiro junto com a diretora Chloé Zhao, Hamnet é uma reimaginação ficcional de como foi a trajetória do casal Agnes Hathaway e William Shakespeare até a morte de um de seus filhos, Hamnet e de como esse evento teria inspirado o dramaturgo a escrever, quatro anos mais tarde, uma de suas mais importantes peças, Hamlet!
Com total liberdade pra criar, a produção entrega um retrato intenso e emocionante sobre o luto e seus desdobramentos. O assunto é tratado de forma bastante honesta e realista, evitando armadilhas narrativas que geralmente fazem de filmes com essa temática, algo artificial e piegas.
A diretora Chloé Zhao constrói essa história com uma sensibilidade e profundidade ímpares, fazendo que com o espectador se conecte com esses personagens e, pouco a pouco, fique imerso na narrativa. Dessa forma, quando a tragédia abala a família Shakespeare, torna-se impossível segurar sentimentos e não lançar um olhar empático diante da dor desses personagens.
O grande destaque da produção, claro, é a talentosa Jessie Buckley (Agnes), cuja performance, arrebatadora e repleta de camadas, alcança o ápice na angústia e na dor dilacerante diante da perda. É uma atuação emocionante em nível estratosférico!
Hamnet também é uma produção que consegue representar bem o poder transformador da arte, através de Shakespeare, que faz da tragédia pessoal de sua família, um emocionante e arrebatador texto teatral, que permanece atual e relevante até os dias de hoje.
Últimos recados
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O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!
Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)
Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
Boa sorte! :)
* Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/
"O Home Elefante" é ótimo. Foi um dos primeiros do Lynch que assisti e gostei bastante.
"Cidade dos Sonhos" também é um dos meus preferidos. O roteiro era base de uma série que não teve o piloto aprovado, então o Lynch resolveu fazer a série. Tem até algumas tramas paralelas que lembram "Twin Peaks" e que seriam melhor desenvolvidas em uma série. O filme é confuso e é proposital. Tem justificativas, mas elas não são fáceis e você se sente meio idiota depois tendo que pesquisar os significados. Mas pelo menos tem. Outros filmes do Lynch, como "Império dos Sonhos" e "Estrada Perdida" não tem intenção nenhuma em fazer sentido e dar respostas, rs.
Veja, quando puder, "Veludo Azul" dele. É o clássico do Lynch e não tão complicado de entender.
"Duna" eu vi não faz muito tempo. Foi o filme que a gente trocou comentários por aqui. Não gostei muito e achei a direção do Lynch confusa, provavelmente porque a história é muito complexa pra pouco tempo. Vale mais por curiosidade.,
Diego, meus preferidos do Lynch são "Cidade dos Sonhos", "Veludo Azul" e "O Homem Elefante" além de "Twin Peaks".
Não odeio nada dele, só não me desce "Duna". E ele tem uns curta-metragens totalmente bizarros (mais que os filmes) que também valem por curiosidade, mas não são tão legais. Ele fez muita coisa experimental, principalmente no início da carreira. Coisa que só fã curioso assiste hehe
O Agente Secreto é, até o momento, o filme mais redondinho e fácil compreensão dentro da maravilhosa filmografia de Kleber Mendonça Filho, ainda que não seja o meu grande favorito (posto ocupado por Aquarius).
Por isso, confesso que me espantei quando notei o crescimento recente de conteúdos se esforçando para explicar coisas que, pra mim, são até óbvias demais na narrativa do filme, como por exemplo, "quem é o Agente Secreto?".
Acho realmente preocupante que, mesmo com uma história tão autoexplicativa, falte capacidade para alguns espectadores interpretarem significados e metáforas tão escancaradamente óbvias nesse filme! Estou inclinado a concordar com a opinião de Henrique Nascimento, publicado pela revista Rolling Stone, "O Agente Secreto não precisa ser explicado, mas talvez você precise sair do celular com urgência". Cirúrgico!
Mas vamos aos fatos: se você busca por um filme de entretenimento escapista, com cenas de ação empolgantes, definitivamente essa não é uma boa escolha. O Agente Secreto é um filme dramático, que envolve o espectador em sua atmosfera e confronta nossa história, expondo aquilo que muitos parecem fingir que nunca aconteceu: os anos de repressão e suas consequências naquele período.
Durante o filme testemunhamos a desconstrução da tal imagem ilibada dos anos chumbo, expondo a corrupção, a condescendência e a conivência das autoridades diante do crime! Além disso, de forma bem descontraída, Kleber Mendonça insere a mítica figura da Perna Cabeluda, que a imprensa usava como "bode expiatório" dos crimes noticiados que "não podiam ser explicados".
O final do filme, nada convencional e um tanto anticlimático, pode até frustrar expectativas de espectadores mais acostumados com conclusões tradicionais, mas ao meu ver, é totalmente alinhada a proposta de construção da narrativa.
O Agente Secreto é uma produção muito bem executada, que faz bom uso da ironia e do humor para debater a conflituosa relação que o nosso país tem com seu próprio passado autoritário, ao mesmo tempo em que provoca o espectador a refletir sobre essa sombra nos dias de hoje.