Data de lançamento
29 Nov. 2014Duração
Adaptação do conto do escritor bageense Pedro Wayne, extraído do seu livro "A Lagoa da Música", narra a lenda do mostro da Panela do Candal. Levando em conta o tempo presente, o sentido que sobressai a partir dos fragmentos do conto e da lenda, está na importância de cuidarmos do Arroio Bagé, pois as águas que ainda hoje abrigam o monstro caolho já não são mais as mesmas... Recebeu o Prêmio Memória & Patrimônio na categoria Lendas e Mitos, do 6º Festival Internacional de Cinema da Fronteira.
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"Para escapar de ser trucidado, via-se obrigado a longos mergulhos, neles permanecendo até que agoniado, estrangulando-lhe a falta do que respirar, não podendo mais suportar a aflição que o acometia, sôfrego, em rápidas escapulas, bastando apenas para absorver um pouco de oxigênio, voltava à tona e novamente imergia, para a repetição do tormento. Como fugia sempre, seus perseguidores foram dispensando a prudência de atacá-lo de longe. Chegavam-lhe em cima para feri-lo.Chagas que não mais cicatrizavam espalhavam-se em suas carnes doridas, enquanto outras iam sendo abertas nas agressões contínuas com que o maltratavam.Deixando indícios por onde passava, marcando seu trajeto com o sinal vermelho do sangue que perdia e do qual vivia lambuzado.As águas em que mergulhava manchavam-se de nódoas coloradas.Matilhas de cachorros atiravam-se a nado, contra ele investindo, procurando mordê-lo e, embora não o conseguissem, seriam para aviso aos homens que, assim guiados, vinham descobri-lo e mantê-lo nessa inquietação sem trégua. (...) E, um pouco a necessidade e outro pouco a revolta lhe foram modificando a mansidão." (Pedro Wayne)
acho que o temperamento da serpente é uma boa alegoria para o espírito do povo gaúcho daquela época; esses contos rio-grandenses dos pampas sempre exaltam uma imaginário de altivez e dignidade; deve haver aí certo orgulho e patriotismo, imagética da cobra que defende o que é seu com suntuosidade e nobreza
O conto original:
“Diziam existir em Bagé, na Panela do Candal, localizado próximo à igreja catedral de São Sebastião, um monstro com a forma de uma grande cobra, que há muito tempo, vivia tranquilo nos cerros do município.
Nesse local havia um rio de respeito, grande e majestoso. Nesse rio, vivia um monstro que não agredia, nem matava e não tinha dentes e nem garras. Pouco se afastava de perto dos rios, procurando as funduras maiores onde seu corpo coubesse. Ao entrar nas águas estas marulhavam como se estivessem gemendo, esparramando-se pelas margens, sacudindo-se de ondas.
Mesmo não agredindo ninguém, a grande cobra era caçada pelos soldados do tenente-general Dom Diogo de Souza. Por isso a criatura veio morar na Panela do Candal, uma região próxima ao arroio Bagé. O monstro em forma de cobra gigante cavou um buraco, formando um túnel e dizem que vive até hoje nesse local.
O aldeamento começou a se formar, e o povoado passou a freguesia, multiplicando-se a população. Por isso a poucos metros da Panela do Candal, foi construída uma capelinha de São Sebastião, onde hoje em dia é a catedral da cidade. Crescia para ele o risco, e desapareciam as possibilidades de ainda poder sair, para ter um pouco que fosse de liberdade e sossego.
Em certo dia a criatura surgiu despencando as portas da capelinha, destruindo tudo que enxergava pela frente, confrontando os povoadores da nascente da cidade. Foi nesse momento que o monstro em forma de cobra, foi ferido por uma lança de um jovem soldado, arrancando o seu olho. Perdido e sem alternativa ele fugiu transportando-se pelos ares, jogando-se novamente na Panela do Candal.
A partir disso, a grande cobra se afugentou no buraco na Panela do Candal, colocando apenas a cabeça de fora da água para respirar. Sentindo-se ameaçado, o monstro feio, caolho e pacífico, continuou escavando e aumentando o túnel, pois precisava espichar-se, descansar e locomover-se. Até que um dia, cansado de ser caçado e de ficar preso embaixo da terra revoltou-se, atacando uma carroça com dois cavalos e o rapaz que a guiava, fazendo-os desaparecer nas águas, esmagando-os e arrastando-os para o subterrâneo.
Segundo a lenda, muitas pessoas que passavam pelo local, sumiram, entre elas, uma lavadeira, uma criança de um circo, dois militares, um pescador, tropeiros, infinidade de novilhos e cavalos de raça, bois mansos, vacas e terneiros, tantas e tantas vidas foram ceifadas. Além de antigas embarcações, carretas e carroças que nunca mais foram vistas, sumiram sem rastro deixar, sem que nem os cadáveres e nem os veículos jamais fossem encontrados.
Muitos dizem que até hoje, o monstro da Panela do Candal, vive em um túnel abaixo da catedral de São Sebastião. Ele simplesmente percebeu que se fosse apenas pacífico e brando, não teria sobrevivido, diante da vida que lhe ensinou a lutar.”
Baseado na obra de Pedro Waine.