A Mensagem é um drama de estrada argentino-espanhol de 2025 escrito e dirigido por Iván Fund. O filme é sobre guardiões oportunistas que vivem na zona rural da Argentina, que exploram a habilidade única de uma criança, oferecendo consultoria animal para obter lucro.
Vencedor do Urso de Prata – Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2025, o longa confirma sem temor a força do cinema argentino contemporâneo, em um filme de pura beleza cinematográfica. A grandeza da obra reside no roteiro e no impacto das imagens, rodado em um preto-e-branco incrível. Tem a estrutura de um road movie intimista, em que acompanha Anika (Anika Bootz), uma menina prodígio que se comunica com animais vivos e mortos. Os avós, Myriam (Mara Bestelli) e Roger (Marcelo Subiotto), veem nela a oportunidade de ganhar dinheiro e começam a percorrer lugarejos oferecendo consultas mediúnicas para pessoas que são tutoras de pets. Eles viajam de van pela Argentina, cruzando diversas cidades do interior, movidos pela fé e também na busca do sustento diário. Os personagens do filme transicionam entre o mundo místico (a menina com o “dom” de ouvir animais) e o charlatanismo (a visão da sociedade sobre aquele trabalho, apontado como farsa), cujo enredo e até o PB me lembraram “Lua de papel” (1973), aquele da garotinha que vende bíblias com o pai adotivo por cidades do interior americano, até que se juntam com uma dançarina para fazer os negócios lucrarem. O trio central aqui não é retratado como mau-caráter ou exploradores da fé, tudo fica num limiar; o diretor expõe a fragilidade humana diante da perda e da despedida, e o oportunismo surge não como vilania, mas como estratégia de resistência, onde verdade, encenação e necessidade se confundem. Os atores de “A mensageira” atuam com intensidade: a garota Anika alterna leveza infantil e melancolia, enquanto Mara e Marcelo dão voz às ambiguidades desse núcleo familiar. Há muitas passagens contemplativas, sem diálogos, só com a captura de paisagens incríveis do interior da Argentina numa fotografia primorosa- o filme é uma coprodução Argentina, Espanha e Uruguai. Acumula prêmios em festivais internacionais, como Pequim (Melhor atriz coadjuvante e fotografia), San Sebastián (Horizontes Latinos) e Viña del Mar (Melhor filme), além da Berlinale já citada. Fund também é o roteirista, o produtor e o montador do filme, fazendo, portanto, uma obra autoral pensada e formatada completamente por ele. Em exibição nos cinemas brasileiros, distribuído pelo Filmes do Estação. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Lindo filme, maravilhosamente fotografado e belissimamente musicado. A interpretação de Anika Bootz é deslumbrante e repleta de nuanças: suas olheiras são evidentes e seus sorrisos cumulativamente forçados chegam a doer. Gosto muito de como o roteiro evita julgar os personagens ou explicar em excesso o que acontece. Ao invés disso, temos mais uma extraordinária demonstração das qualidades fascinantes do cinema argentino de caráter deambulatório, à la FAMÍLIA RODANTE. A cena final é sublime, naquilo que apresenta-nos, imageticamente, na rejeição da teleologia. As aparições eventuais dos animais de estimação são incríveis (e um tanto doloridas), tanto quanto as exposições dos bichinhos de rua, como aquela capivara solitária e o cavalo atacado por cachorros. Fiquei encantado vendo o filme: lindo, lindo, lindo! (WPC>)