Uma mulher alemã está em um navio voltando para sua terra natal na Europa. Durante a viagem, vê uma mulher cujo rosto lhe traz lembranças de seu passado cheio de tragédias. Quando ela conta ao marido sobtre a mulher que salvou no passado, o filme mostra ao espectador os acontecimentos.
Premiações
Em 1964 Menção especial no Festival de Cannes para Andrzej Munk pelo conjunto da Obra, indicado ao Palma de Ouro e venceu o Italian Film Critics Award no Festival de Veneza no mesmo ano
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
A Passageira (1963) é um filme que me deixou como Liza, atônito, perturbado. Sobretudo o final e levando em conta que nunca foi terminado por Munk. Me vi na necessidade de escrever algo, o que? não sei, mas tinha que escrever algo dessa grandiosa película polonesa, por mais que muito se tenha escrevido e talvez eu nem possa agregar muito.
Andrzej Munk, diretor do filme, foi um polonês judeu que fez parte do Levante de Varsóvia, e não pode terminar esta obra devido a um trágico acidente de carro em 1961, deixando o filme inacabado. Finalmente Pasażerka acaba sendo lançado em 1963 com um interessante e amável epílogo. "Não temos intenção de adicionar o que ele não teve tempo para contar. Não estamos à procura de soluções que poderiam não ter sido dele... Não tentamos finalizar as tramas que sua morte deixou em aberto. Só queremos apresentar o que foi filmado, com todas as lacunas e inconclusões para dar sentido a esta história, ao que está vivo e é importante. [...] Compartilhamos suas esperanças e medos, e sem querer arriscar suas respostas talvez possamos apresentar questões que ele gostaria de expor". O que me lembrou Hergé falando para Numa Sadoul anos antes de sua morte que também resultou em uma história incompleta de Tintim (A Arte Alfa)
bem quando seu protagonista estava em apuros, perto do fim, algo até poético: "Se outros assumissem 'Tintim', talvez o fizessem melhor, talvez pior. Uma coisa é certa: fariam diferente e, com isso, não seria mais 'Tintim'!".
Já que não podemos debater o que não foi feito em A Passageira, podemos discorrer do apresentado, mas, tendo a ressalva que uma vez a obra lançada ao mundo, ao mundo ela pertence, pelo qual podemos divagar algumas leituras.
Após muitos anos fora, Liza retorna a Europa, até que em determinado porto da escala, a simples presença de uma passageira perturba a protagonista. Seu marido, provavelmente estadunidense, vendo seu estado de ânimo, lhe pergunta o que foi. Nisso, Liza começa a contar sua verdadeira história.
Chama a atenção a linguagem utilizada por Munk. Enquanto o atual presente, o retorno ao Velho Continente, a viagem no navio, é constituído por diaporamas, algo que Chris Marker faria na mesma época em La Jetée (1962), o passado de Liza durante o III Reich, de imagens estáticas se transforma para imagens em movimento.
Outro ponto interessante durante os flash-backs de Liza é a mise-en-scène do filme. Onde nos primeiros momentos, não vemos Liza completa. Ela está sempre fora do quadro, cortada, fugindo da câmera. Algo de Timothée Chalamet em um Completo Desconhecido. Mas por que inicialmente só vemos Liza em reflexos de espelhos? Visualmente o que isso quer dizer? Ela tenta fugir de seu passado? Tenta esconder sua participação no Holocausto? Durante essas primeiras cenas que pouco vemos da protagonista, ela nos narra em off: "Não me olhe assim. Não fiz mal a ninguém. [...] o que poderia entender as condições que vivíamos e como cumprirmos as ordens de nossos líderes". Um argumento muito usado por oficiais da Alemanha Nazista, e como diria o espetacular Noite e Neblina de Alan Resnais, a melhor representação fílmica do Holocausto que eu já vi: "Eu não sou responsável, disse o kapo. Eu não sou responsável, disse o oficial. Eu não sou responsável... Então quem é o responsável?". Liza também argumenta que foi muito ingênua e que já era tarde demais quando percebeu o que acontecia, discursos esses adotados por Leni Riefenstahl até sua morte.
Mas o grande barato do filme é como a própria Liza se contradiz o tempo todo. (Como Leni em A Deusa Imperfeita de Ray Müller). Se acuada inicialmente nos planos, logo a vemos inteira nos quadros, somada a um discurso cada vez mais ambíguo, como em determinada cena que ela reprova uma atitude, não por ser desumana mas porque "desacreditava nossa luta". Leni tenta se defender argumentando que fez pela arte, enquanto se encanta de forma vívida por Olympia (quem não com essa maravilha?), mas nega anotações do diário de Goeebels.
Ao mesmo tempo que Liza diz "alguns estavam embriagados com o poder, mas eu só me limitava a fazer o meu dever" suas colocações se contrapõem com "finalmente subjugava Marta" e "deveria ter acabado com ela". Até quando parece que ela quer salvar Marta, como no incidente do bilhete, me pareceu que ela estava mais interessada em sua carreira do que salvar a prisioneira que tanto lhe obcecou. Isso me leva de volta ao encontro (ou reencontro se se trata mesmo de Marta) de Liza com a passageira. Afinal de contas o que realmente incomodou a protagonista? Todos seus atos e participação em um dos eventos mais horrendos da história ou a recordação de um passado escondido debaixo do tapete que veio a tona? Acho que apresentar uma personagem tão real quanto Liza, fugindo desses maniqueímos baratos e rasos de Hollywood, mas também não partindo de hagiografias que nos despertem empatia, perdida paralelamente em sua fixação e suas crenças, faz esse filme ser tão interessante.
Fica como um clássico inacabado. É interessante um filme de 60 mostrar a fixação de uma mulher com outra. E parece que alguns atos ali serviram de influência para "O Conto da Aia".
Foi uma pena a morte trágica do diretor.
O pouco apresentado foi muito bom, imagino se fosse completo, acho que seria um dos meus filmes predileto
Inacabado e raso, bastante comprometido pela ausência das cenas no navio sobretudo no primeiro ato planejado pelo diretor.
E francamente, ninguém aguenta mais o milionésimo filme sobre campo de concentração nazista. A LISTA DE SCHINDLER e O PIANISTA, somados, já serviriam pra esgotar um tema explorado à exaustão no cinema mundial enquanto vários outros temas da Segunda Guerra Mundial ficam bem menos evidenciados.
Ah, e pra quem quiser um filme bom polonês sobre a SGM, recomendo o ótimo KANAL, do Wajda.
Infelizmente é um filme inacabado. Infelizmente mesmo!
O que recebemos do filme é muito bom, possivelmente seria um desses ótimos filmes sobre o nazismo que fogem do comum. Uma pena que não foi concluído.