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Data de lançamento
22 Nov. 1995Duração
Um retrato de Las Vegas dos anos 70 é criado através de três personagens centrais: um especialista em garantir a integridade do cassino, por meios bons ou maus (Robert De Niro), uma prostituta (Sharon Stone) e um gângster recém chegado à cidade (Joe Pesci). História baseada na vida do chefe de cassino Frank "Lefty" Rosenthal.
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Que filme incrível, uma obra de arte de Martin Scorsese 👏🏾🎥📽️🎬 .
Muito bom filme em todos aspectos, me agradou muito o enredo e o tema central do filme. Ao contrário do Irlandês que achei bom mas nada de mais, esse Casino é de te prender todos os segundos e nem ver o tempo passar.
Há uma base que antecede o próprio filme e ajuda a compreender a sua obsessão por mecanismos de poder e decadência: a obra nasce do livro Casino: Love and Honor in Las Vegas, escrito por Nicholas Pileggi, que também assina o roteiro ao lado de Martin Scorsese. Esse ponto de partida já indica um compromisso com a reconstrução de um universo real, o funcionamento dos cassinos sob influência da máfia, especialmente entre as décadas de 1970 e 1980, mas o filme não se limita a adaptar fatos: ele reorganiza esse material como uma narrativa sobre controle, ilusão e autodestruição. Pileggi, que já havia colaborado com Scorsese em Os Bons Companheiros, retoma aqui essa perspectiva interna do crime organizado, agora deslocada para um ambiente em que a ilegalidade precisa parecer perfeitamente legítima. Desde o início, portanto, a obra carrega uma tensão entre realidade documentada e construção simbólica, entre registro histórico e interpretação estética, algo que já se impõe na própria abertura, quando Sam “Ace” Rothstein (Robert De Niro) entra em seu carro em um estacionamento aparentemente comum, um espaço cotidiano que rapidamente revela um clima de ameaça. O gesto é contido, quase automático, mas já atravessado por uma tensão latente; ao ligar o carro, a explosão acontece de forma repentina, rompendo qualquer sensação de segurança e projetando Ace para fora em meio às chamas, como se fosse arrancado do mundo que ele próprio ajudou a construir. Essa cena inicial não funciona apenas como choque visual, mas como uma síntese do universo apresentado: um lugar em que o perigo é constante, mesmo quando invisível, e onde tudo pode ruir de um instante para o outro. O carro, símbolo de controle e direção, transforma-se em armadilha; o espaço comum revela sua face corrompida; e a explosão antecipa o destino do personagem, sugerindo que, por mais que tente dominar o sistema, ele já está inserido em algo capaz de destruí-lo a qualquer momento.
A personalidade de Sam “Ace” Rothstein se constrói a partir de uma disciplina rigorosa e de um compromisso absoluto com a ordem, refletidos na maneira como administra o cassino com precisão quase obsessiva. Seu método depende de controle, hierarquia e eficiência, mas esse equilíbrio se fragiliza quando a influência da máfia passa a interferir diretamente na estrutura que ele tenta preservar, impondo a presença de indivíduos despreparados, cuja incompetência compromete o funcionamento do sistema. Essa tensão se intensifica à medida que suas decisões pessoais passam a contrariar a lógica que sustenta sua atuação profissional, sobretudo ao se envolver com Ginger McKenna, personagem de Sharon Stone, uma mulher instável e oportunista, cuja natureza golpista ele conhece desde o início. Ainda assim, Ace insiste na relação, como se acreditasse poder controlar aquilo que, por definição, escapa ao controle. Em paralelo, a presença de Nicky Santoro, interpretado por Joe Pesci, introduz uma força de desestabilização constante: impulsivo e violento, ele encarna o oposto da contenção de Ace, tornando inevitável o conflito entre estratégia e instinto. A narrativa em off, conduzida por diferentes pontos de vista, amplia essa dinâmica ao inserir o espectador no interior desse universo, revelando não apenas os acontecimentos, mas a lógica que os sustenta, como se acompanhássemos de dentro a construção e a queda desse sistema.
Ginger se impõe como uma presença marcada pelo excesso, tanto em sua personalidade quanto na forma como se apresenta visualmente. Ela é construída a partir de uma lógica de sedução e instabilidade, sempre em movimento, sempre à beira do descontrole. Suas vestes chamativas, frequentemente marcadas por brilhos, tons dourados, vermelhos intensos e tecidos que capturam a luz, não funcionam apenas como expressão de luxo, mas como extensão de sua própria natureza: uma figura que atrai, fascina e, ao mesmo tempo, anuncia o risco. Há nela uma energia que nunca se fixa, que resiste à ordem e à previsibilidade que Ace tenta impor, como se sua própria imagem já carregasse a impossibilidade de contenção. Em contraponto, Nicky encarna a violência direta e sem mediação, mas essa brutalidade não é um desvio do sistema, e sim sua forma mais autêntica de funcionamento. Se Ace representa a aparência organizada e legitimada do cassino, Nicky revela o que sustenta essa estrutura nos bastidores: coerção, intimidação e eliminação de qualquer ameaça. Sua impulsividade, seus acessos de fúria e sua incapacidade de se submeter a limites não são apenas traços individuais, mas a manifestação explícita de uma lógica que opera no oculto, garantindo que a ordem visível continue intacta. Assim, enquanto Ginger desestabiliza o sistema por dentro, expondo suas fissuras afetivas e emocionais, Nicky o reafirma pela força, tornando visível a violência que o mantém de pé.
O filme expõe de maneira quase cirúrgica o funcionamento interno do cassino como um sistema altamente organizado de circulação de dinheiro, onde nada acontece de forma espontânea. Há uma coreografia precisa entre as apostas dos jogadores, a contagem constante nas mesas e as salas de processamento, onde grandes quantias em dólares são reunidas, organizadas e monitoradas. O dinheiro entra pelas mesas de jogo, movido pela ilusão da sorte e pela dinâmica das apostas, e rapidamente é canalizado para bastidores invisíveis ao público, onde funcionários contabilizam, separam e transferem valores em fluxos contínuos. Em determinados momentos, essa engrenagem é explicitada nas cenas em que maços de dólares são retirados das áreas internas, organizados em maletas e levados para fora do cassino, seguindo um percurso que, em última instância, alimenta a rede mafiosa responsável por controlar toda a operação. Esse sistema, no entanto, não se sustenta apenas na lógica interna do cassino, mas em uma estrutura de poder que depende de acordos externos constantes. A manutenção desse funcionamento exige o pagamento de propinas, a influência sobre políticos e autoridades locais, além de uma rede de contatos que garante proteção e estabilidade ao empreendimento ilegal disfarçado de legalidade. Mesmo na posição de diretor do cassino, Ace nunca ocupa formalmente um cargo estável ou plenamente reconhecido; sua função precisa ser constantemente reconfigurada, sempre reduzida a títulos menores e administrativos, justamente para manter a fachada de legalidade que sustenta toda a operação. Essa fragmentação burocrática não é um detalhe, mas parte essencial do sistema, que depende da ocultação da real cadeia de comando. Com o tempo, o próprio filme sugere que essa estrutura é insustentável. A complexidade dos acordos, a quantidade de interesses envolvidos e a dependência de figuras externas tornam o sistema cada vez mais frágil. A necessidade permanente de “molhar mãos”, de manter conexões políticas e de equilibrar interesses conflitantes cria uma rede instável que, por mais organizada que pareça, carrega em si mesma os elementos de sua própria ruína. O que se apresenta como controle absoluto revela-se, progressivamente, como um arranjo precário, condenado a se desfazer sob o peso das próprias contradições.
A trajetória de Ginger é marcada por um processo contínuo de autodestruição, que se intensifica à medida que sua relação com Ace se desgasta. Aos poucos, o que antes parecia um envolvimento movido por desejo e tentativa de controle se transforma em uma sucessão de conflitos, desconfiança e violência emocional, levando Ace à percepção tardia de que tê-la escolhido como esposa foi um erro fundamental. A instabilidade dela, já evidente desde o início, se manifesta de forma cada vez mais explícita em comportamentos autodestrutivos, aproximando a relação de um colapso inevitável. Mesmo assim, os dois permanecem ligados por um elemento que os obriga a coexistir: a filha que têm juntos, cuja presença impede o rompimento definitivo e força encontros inevitáveis entre Ace e Ginger, mantendo viva uma convivência marcada pelo ressentimento e pela tensão constante. Esse quadro se agrava ainda mais com a presença de Lester Diamond, antigo parceiro de Ginger, um homem ligado ao seu passado de golpes e interesses financeiros, a quem ela recorre repetidamente em segredo, mentindo para Ace e desviando dinheiro, o que intensifica o sentimento de traição e desencadeia confrontos diretos quando ele descobre a situação e intervém para afastá-lo. Nesse contexto de deterioração afetiva, o envolvimento de Ginger com Nicky intensifica ainda mais o caos, surgindo como extensão do descontrole já instalado e, ao mesmo tempo, como ponto de ruptura dentro da dinâmica entre os personagens. Nicky, que inicialmente se aproxima dela em meio ao colapso da relação com Ace, acaba preso em uma ligação igualmente destrutiva, na qual a atração inicial se converte em desprezo e arrependimento; com o tempo, ele passa a enxergá-la de forma degradada, referindo-se a ela com hostilidade, como expressão direta da frustração e da própria degradação moral que essa relação provoca. Assim, o triângulo entre Ace, Ginger e Nicky se transforma em um ciclo de ruína mútua, em que desejo, violência e ressentimento se sobrepõem continuamente, aprofundando a lógica de decadência que sustenta toda a narrativa.
Nesse ponto da narrativa, ocorre uma mudança significativa na postura de Ace, que até então se mantinha deliberadamente discreto, preservando sua imagem pública e evitando qualquer exposição direta. Aos poucos, no entanto, ele passa a se expor em entrevistas e programas de televisão, algo completamente contrário ao seu comportamento habitual. Essa decisão está ligada à tentativa de reforçar a legitimidade do cassino e, ao mesmo tempo, se proteger dentro de uma estrutura cada vez mais instável, já que sua visibilidade pública poderia funcionar como uma espécie de “escudo” contra ações mais diretas da máfia, dificultando represálias abertas sem chamar atenção das autoridades e da opinião pública. Ao se tornar uma figura reconhecível, Ace tenta transformar sua própria imagem em um elemento de contenção do sistema que o cerca, como se a transparência forçada pudesse, paradoxalmente, oferecer algum nível de proteção. No entanto, essa estratégia acaba acentuando ainda mais as tensões internas, pois expõe a fragilidade do controle que ele acreditava exercer sobre o cassino e sobre as forças que o sustentam. A partir desse movimento, o filme passa a enfatizar de forma ainda mais clara o colapso gradual da ilusão de ordem, mostrando como a tentativa de institucionalizar e legitimar o sistema não o estabiliza, mas o acelera em direção à instabilidade, ampliando os conflitos entre visibilidade, poder e controle até o ponto em que essas forças se tornam irreconciliáveis.
A dimensão técnica do filme é um dos elementos centrais para a sua força narrativa, com a direção de Martin Scorsese construindo um universo que alterna entre o fascínio e a degradação, muitas vezes operando uma espécie de glamourização do excesso apenas para, em seguida, expor sua natureza corrosiva. A linguagem de montagem não se sustenta em um único ritmo, mas em um contraste constante: há sequências de montagem mais acelerada, sobretudo na representação do funcionamento do cassino — o fluxo das apostas, a contagem de dinheiro e a movimentação nos bastidores — que reforçam a ideia de um sistema mecânico e quase automatizado, enquanto outras cenas se alongam em planos mais extensos e contemplativos, especialmente nos momentos de tensão psicológica e colapso emocional entre os personagens. Essa alternância de ritmos cria um efeito de oscilação entre o caos operacional e a corrosão íntima, fazendo com que a forma acompanhe diretamente a natureza dupla da narrativa. A trilha sonora, marcada por canções pop e clássicas cuidadosamente selecionadas, não apenas ambienta as cenas, mas as comenta emocionalmente, intensificando a imersão e reforçando o contraste entre o brilho superficial e a decadência interna. Nesse conjunto, as interpretações do elenco central elevam ainda mais o impacto da obra: Sharon Stone entrega uma performance de forte intensidade dramática, frequentemente apontada como uma das mais marcantes de sua carreira, ao lado de seu trabalho em Instinto Selvagem, construindo uma Ginger instável, sedutora e em permanente colapso emocional; já Robert De Niro sustenta Ace com uma atuação precisa e calculada, marcada pela tentativa constante de controle que gradualmente se desfaz diante do caos que o cerca. Dentro desse conjunto, a atuação de Joe Pesci se destaca pela construção recorrente de personagens extremamente hostis e imprevisíveis, figuras que impõem medo aos que estão ao redor e operam quase sempre à base da violência e da intimidação, mantendo uma continuidade expressiva em relação a sua atuação em Os Bons Companheiros, onde esse mesmo perfil agressivo já se consolidava de forma marcante. Esse refinamento técnico e interpretativo sustenta o impacto dos desfechos dos personagens: Nicky, após perder o controle e ultrapassar os limites impostos até mesmo pela própria organização criminosa, acaba brutalmente eliminado e enterrado em uma área deserta, junto com seu irmão, em uma execução que simboliza a eliminação definitiva de tudo o que ameaça o sistema; Ginger, consumida por sua instabilidade e pelo colapso de suas relações, termina sozinha, entregue à própria decadência emocional e ao vício, incapaz de escapar do ciclo de autodestruição que ela mesma alimentou; e Ace, após perder o controle do cassino e ver toda a estrutura ruir sob pressões internas e externas, é afastado do poder e retorna a uma vida de aparente anonimato, isolado, sobrevivendo como o último vestígio de um sistema que já não existe mais. Assim, cada destino reforça a ideia central do filme: a de que qualquer tentativa de controlar completamente um ambiente baseado em corrupção, desejo e violência está fadada ao colapso, independentemente do nível de organização ou inteligência envolvido.
I should've never married him. He's a Gemini
scorsese + de niro = filmaço