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Era uma vez dois vagabundos... Não, três... Não, quatro, na verdade... Mas havia outros, muitos diferentes... Eu os conhecia. Por muito tempo. Mas com eles eu me sentia desconfortável. Então algo aconteceu e eles desapareceram. À noite eu ouvia vozes, fragmentos de perguntas complexas, gemidos, o uivo de milhões de vozes... Uma agitação inexplicável tomou conta de mim
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O filme Conto de Fadas oferece um contraponto à tendência de Hollywood do século XX, que retrata guerras como grandes espetáculos. Explosões provocadas por magníficas armas de batalha fascinaram o público naquelas produções cinematográficas e poderosos heróis eram então admirados por vencerem as tramas poderosas de vilões geniais, cujas capacidades extraordinárias muitas vezes despertaram forte atração no público, a exemplo de Darth Vader de Star Wars. Porém, algumas dessas guerras eram a romantização e espetacularização de tragédias reais, sobretudo em se tratando da segunda guerra mundial. Mas o espetáculo criado acabou por gerar um efeito Darth Vader em relação aos tiranos reais da história, dando-lhes propriedades fantásticas e extra-humanas de conduzir os fatos.
Em Contos de Fadas, estes personagens são reumanizados com suas características mais básicas: personalismo, ambição, competição, inveja, picuinhas, fantasias de grandeza, embriaguez e tédio. Não é a toa que A. Hitler aparece em certo momento ao sanitário, defecando. As conversas vazias, tecidas em meio às névoas de memórias do que eles fizeram em vida, mostram que o destino de muitos amiúde é determinado pelo delírio de homens chatos e ocos, mitificados pela ignorância das massas e pela indústria cultural.
Conhecendo um mínimo sobre o diretor - pelo qual já me apaixonei múltiplas vezes -, sabia que a mixórdia de registros personalísticos, em contato aqui, renderia algo de cariz hermético: como imaginar os diálogos entre Hitler, Stalin, Churchill e Mussolini num Purgatória sem tecer as mais confusas interpretações, principalmente ao saber que Jesus Cristo estava no mesmo ambiente que eles?! Por um lado, os diálogos explicam isso muito bem, visto que não foram poucos os genocídios cometidos em prol de um cristianismo hipotético; por outro, a tônica das conversas entre os personagens reais é francamente tomado pela bravata, pelas comparações, pelas ameaças disfarçadas de elogios. A advertência sobre a não-utilização de Inteligência Artificial na abertura é cínica, bem como a referência (pseudobíblica) ao livro "M22 K, 4-4". Do se trata? Só Stalin sabe! O próprio Sokurov cita a si mesmo, num diálogo, fazendo com que os déspotas declarem que sabem que estão sendo vigiados/observados/encenados. O desenho de som instaura uma algaravia perene, que atinge o seu auge na seqüências em que as multidões de apoiadores nazifascistas e comunistas amalgamam-se num oceano expressionista, em meio a acordes de mais de uma música (entre elas, Richard Wagner, claro). Não vou dizer que entendi tudo, claro, mas achei uma gostosura de ser visto e de provocar conjecturas. belo exercício de reflexão sobre o presente, por mais que o uso do 'deepfake' mereça algumas considerações mais delicadas, não necessariamente elogiosas. Tudo indica que voltarei a falar sobre este filme, após debatê-lo com amigos. Tomara! (WPC>)
O conceito é genial. Mas fiquei com impressão que is diálogos podiam ser muito melhores, pra mostrar que é mais que só aplicação de uma boa ideia e uma técnica original.
O estranhamento é imediato, e ele parece algo instantaneamente excepcional, mesmo pra pessoas mais familiarizadas com a filmografia do Sokurov. Senti, de primeira, como um passo ousado demais, maior que a perna, no entanto, entrei e me envolvi até o fim com o experimento. Mas aí, depois da sessão, eu fiquei pensando, como, no final das contas, um filme tão inventivo - através da tecnologia, o que deixa tudo mais divertido - cabe, e muito, na contribuição de Alexander Sokurov pro cinema. Tudo é muito imperfeito, e mesmo assim, os visuais são impressionantes, hipnotizantes. É algo muito inédito, que eu pelo menos nunca vi sendo feito dessa maneira, uma espécie de OVNI, até mesmo no cinema mundial, e eu amei cada segundo.