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Georges/ Delon sofre um acidente de carro, no qual perde a memória. Pouco a pouco parece recuperá-la, quando aparecem no hospital sua esposa e o seu melhor amigo. Trasladado para sua casa de campo, começa a concientizar-se que até aquele momento fora um homem bastante despótico, que ganhou muito dinheiro com negócios nada limpos. Porém, há algo mais, já que algumas recordações que chegam a sua mente lhe fazem suspeitar que é outra pessoa. Último filme do mestre veterano Julien Duvivier, numa trama convencional de suspense, onde nada é o que parece e os truques são fortes para no final alcançar certa coerência. O destino fez que, depois de filmar magistralmente o acidente inicial com diferentes câmeras, Duvivier falecesse numa colisão de tráfico, logo após terminar a filmagem. Obra-prima do gênero.
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Antes da trama nos ser revelada, próximo do final do filme, podemos vê-lo como um filme sobre como funcionam as produções de notícias falsas que, a partir de sugestões e modificações na realidade em que estamos inseridos, nos faz questionar nossa existência e nossa capacidade de raciocinar/ perceber o mundo como um todo.
Modificando constantemente a realidade - inserindo memórias falsas, redecorando ambientes, criando narrativas em cima de narrativas e sugerindo uma outra vida - podemos fazer o que quisermos. Georges é vítima de um acidente e volta de um coma de três semanas completamente desmemoriado. É aí que começam as sugestões: de que tinha um grande empreendimento imobiliário na China, que tinha uma amante, que viva em festas e orgias dos mais variados tipos e por aí vai. E claro, há que tomar os remédios e sempre dormir, sempre descansar, pois só assim vai recuperar a memória. E claro, sugestões que penetram nos sonhos para ajudar a modificar a realidade: Você está louco. É melhor o suicídio do que a loucura, Georges.
Podemos dizer que Christiane é a ideologia - seja ela qual for - na sua mais pura forma. Sutil e tremendamente ardilosa, faz com que aceitemos determinadas realidades em detrimento de outras, faz com que tenhamos certos tipos de comportamentos em detrimentos de outros e, pouco a pouco, passamos a nos comportar como a ideologia nos manda, neste caso: apáticos, sonolentos e cada vez mais dóceis. O contrário também é válido.
Ainda que, como já tenha dito, o filme se auto explica - coisa bastante desnecessária - temos algo que a meu ver, não compreendo. Kim tem momentos de interação bastante sexual com Christiane, ainda que ambos não cheguem às vias de fato, mas há uma clara insinuação sexual na relação de ambos. Seria Kim o objeto do desejo de Kim, além de seu serviçal/cúmplice? Temos poucas informações, além de saber que ele é o serviçal e costura as roupas de Christiane, sempre cosendo seus sutiãs e suas meias, sempre tapando seus furos - coisa que passa o filme inteiro fazendo, nas inúmeras tentativas de fazer com que Georges / Pierre não recupere sua memória e não saiba quem é.
Depois da explicação da trama, algo não bate: porque Freddie e Christine precisariam de Georges/Pierre e fazer todo esse rebuliço para esconder o assassinato do antigo marido de Christine, cujo nome verdadeiro é Pierre? Se seguimos essa linha de raciocínio, podemos pensar da seguinte forma: Kim e Christine são cúmplices em tudo. O marido de Christine é violento e a estupra, além de ter o nome de Pierre. Christine começa a ter um caso com Freddie e ambos assassinam Pierre. Para não levantar suspeitas (????) Christine arranja um novo marido, neste caso, Georges, achado e escolhido por Freddie em uma de suas andanças por aí para ser o novo substituto e entrar na farsa. Georges junta as peças, recupera a memória, fica sabendo de todo esse plano e faz com quem Freddie e Christine briguem, o que desencadeia a fúria de Kim, que o apunhala no peito. Ao ligar para a polícia, Christine ameaça Georges com uma pistola. Ele recua e volta ao aparelho, e aí é quando Christine matar Kim (?????). A polícia chega, os investiga, eles contam sua versão e a polícia descobre o gravador com o qual Freddie estava fazendo uma lavagem cerebral em Georges enquanto este dormia. Fim de papo.
Há tempos que não acho um filme para aplicar a teoria presente em "Rubber" de Quentin Dupieux. E aqui ela se encaixa perfeitamente.
Por qual motivo Christine precisa de um novo marido após assassinar o seu verdadeiro marido e fazer toda essa encenação, sendo que - é o que tudo indica - é a dona de toda a propriedade e dona de todo o dinheiro? No reason.
Por qual motivo Christine precisa de um novo marido se, agora solteira, passa a ser dona de tudo que era de seu falecido marido?
No reason.
Por que Georges aceita participar de toda essa loucura sabendo que pode ser o próximo cadáver a ser enterrado no jardim? No reason.
São muitas as perguntas e todas elas tem a mesma resposta: no reason. E aí reside a graça da coisa.
Alain Delon está no auge da beleza e a personagem de Senta Berger sabe tirar excelente proveito de sua ambigüidade personalística, mas a trama é um tanto previsível em suas circularidades labirínticas. A montagem é muito boa, o cenário é deslumbrante e as situações envolvendo o mordomo chinês são ótimas. O desfecho soou apressado e pouco convincente, por mais aguardado que fosse, mas é um filme que diverte e entretém. E possui muita sensualidade em suas metáforas de repressão. Não está entre os melhores do excelente diretor, mas cumpre suas funções escapistas - literalmente! (WPC>)
e no final
todo mundo se ferrou
Suspense e drama numa trama interessante, com bom ator principal, mas com resultado que poderia ter sido bem melhor.
Bom suspense
Vale a pena conferir