O fotógrafo sul-africano Ernest Cole (1940-1990) foi o primeiro a expor os horrores do apartheid para além das fronteiras da África do Sul. Após a publicação, em 1967, do livro “House of Bondage”, aos 27 anos, Cole entrou em exílio —viveu em Nova York, nos EUA, e em países da Europa— pelo resto da vida, sem nunca encontrar um rumo novamente. Raoul Peck relata as andanças, a inquietação artística e a raiva constante do fotógrafo pelo silêncio ou pela cumplicidade do mundo ocidental diante dos horrores do regime do apartheid. Ele também conta como, em 2017, 60 mil negativos do trabalho fotográfico de Cole foram descobertos no cofre de um banco sueco.
Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Cannes.
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O impacto histórico e social das ideias e do que é visto é inegável e a organização excelente - como de costume - nos documentários do diretor, apesar desse elemento bem realizado, o documentário perde este mesmo impacto com a interpretação dada ao Ernest, numa manipulação emocional que não condiz com a historiografia apresentada no filme.
Ernest Cole erradicou-se da África do Sul aos EUA em busca de maior emancipação e liberdade, justamente quando pipocavam as questões raciais relacionadas ao apartheid e aos novos movimentos sociais, tendo que sobreviver como fotógrafo e, com isso, capturando um acervo riquíssimo de imagens. É um filme baseado no seu livro de fotografia. Ainda bem que o filme não passa pano para o racismo nas américas, fazendo uma reflexão mais profunda do racismo estrutural para além da África. Apesar da potencialidade do tema, é basicamente um documentário onde há uma profusão de imagens e um falatório importante, mas cansativo, que desencadeia todo o roteiro, permanecendo um mistério como esse acervo riquíssimo fora preservado. Vale pelas reflexões, mas a estrutura é mesmo muito cansativa e burocrática.
Até que eu gosto da condução pelos meandros da falta de pertencimento do artista-protagonista, que tem um texto excelente interpretado pelo LaKeith Stanfield. No entanto, muitas das decisões formais são tãão estranhas: trilha invasiva, grave e deslocada, como quem quisesse sublinhar demais o que o espectador deveria sentir, e efeitos de painéis na entrevista com o sobrinho - também deslocadíssima - que parecem coisa de Globo Repórter.