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Rosa nunca foi Lucas. Expulsa de casa, ela precisa de um lar. Enquanto busca um lugar no mangue para construir seu barraco, o projeto de expansão da zona portuária avança em direção aos moradores da Favela da Prainha. O filme foi desenvolvido a partir de escrita colaborativa com moradoras da Favela da Prainha, às margens de gigantescas transações do Porto de Santos.
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Sabe quando você assisti a algo e parece que aquilo vai te estapeando? Vai te peitando, empurrando, chutando? Pegando no teu ombro e chacoalhando com violência, cuspindo no teu rosto? E você fica meio perdida, peio perdido, olha pra um lado, para o outro, prende o fôlego? E fica calado, pois vê realidade; vê o teu país. Eu sempre falo nas redes sociais o quão idiota é as pessoas ficarem em suas bolhas sociais do Twitter enquanto o "Brasil real" grita fome e sede. "Estamos Todos Aqui" é exatamente esse grito invisibilizado , grito mudo que só é ouvido nas eleições, durante um mês - ou então, quando os invisíveis se cansam e o formigueiro ataca. "Com quantos pobres se faz um rico?". Quer frase melhor para definir o Brasil? Cinco anos depois, estou aqui, em 2022, às vésperas das eleições gerais, vendo os candidatos encherem a boca para falarem dos "pobres, pretos, marginalizados". De novo. E de novo. E de novo. de novo... E continuam lá.
O curta Estamos Todos Aqui mostra pessoas que sobrevivem à margem da sociedade, contando o drama das famílias da Favela da Prainha, no Guarujá-SP. A Favela da Prainha é uma comunidade na periferia do Guarujá, região litorânea de São Paulo, em processo de reintegração para expansão do Porto que há perto do local. Rosa Luz, personagem principal do curta, é uma mulher trans que foi expulsa da casa de sua família. Para sobreviver, começa a realizar pequenos trabalhos, chamados como “corres”. Ela inicia a construção de seu barraco perto do mangue, a parte mais carente da favela; portanto, a mais disponível. A apresentação é pesada, com clima tenso e as personagens (tanto Rosa, quanto os moradores) possuem consciência de que estão à margem da sociedade. Uma das cenas mais fortes do filme é Rosa Luz correndo pela Favela da Prainha, o retrato do desespero de quem pode perder tudo em um piscar de olhos. A discussão subjacente, a mensagem subliminar, ou não, é o valor da ação coletiva, a importância da união para o sucesso de conquistas. Os moradores se unem porque necessitam reivindicar seu direito a moradia. Por fim, o final de Rosa Luz representa a seguinte mensagem: apenas a luta popular muda a vida de quem está na base e na margem da sociedade. Pobreza, território, sobrevivência e relações causam desconforto; a mim, e por que não estou a fazer nada? basta se emocionar? indignar-se? qual o resultado prático disto? Rosa nunca foi Lucas, seu nome de batismo. Expulsa de casa, ela precisa de um lar. Enquanto busca um lugar no mangue para construir seu barraco, o projeto de expansão da zona portuária avança em direção aos moradores da Favela da Prainha. O filme foi desenvolvido a partir de escrita colaborativa com moradoras da Favela da Prainha, às margens de gigantescas transações do Porto de Santos. Rafael Mellim e Chico Santos criaram, em 2011, o Coletivo Bodoque, a partir do qual procuram documentar memórias e experiências atuais de conflitos e rupturas com a ordem hegemônica e suas consequências. Realizaram documentários em curta-metragem e vídeos ao lado de ativistas e militantes da luta no campo e na cidade. A importância, e até a genialidade do curta, está na narrativa que não recorta e tenta promover um diálogo a luta LGBT e outras lutas de comunidades periféricas, especialmente sobre direito à moradia, além de suscitar discussões sobre o domínio das corporações, o capitalismo e o abismo da desigualdade social. Em geral, e digo isso com muito cuidado, a luta de gênero é apresenta como uma luta pessoal, ou de um pequeno grupo e desassociadas de outra discussões; tenho dúvidas se isso é deliberado, na tentativa de não reduzir a discussão de gênero no meio de outras discussões; portanto, de focar; ou se o reducionismo não seria uma falta de cuidado, que, em muitos casos, acaba reduzindo a discussão de gênero como isolada; e isso é tudo que ela não é! É claro o discurso, desde o título, de que nada acontece isoladamente, ainda que hajam particularidades significativas. A personagem Rosa (vivida pela artista, youtuber e militante trans Rosa Luz) é representativa dessa complexidade, pois traz mais camadas e intensidade na articulação entre a sua narrativa pessoal e a narrativa do que é coletivo. A narrativa pessoal, por certo, tem o condão de evitar a ideia de que o assunto pode ser diluído e, portanto, reduzido; tal como a ideia de que a questão econômico-financeira fosse a mais importante, ou a preponderante! tendo sido expulsa de casa e sofrendo preconceitos, é também representativa de coletivos marginalizados, tanto em relação à transexualidade, quanto à sua condição de raça e classe. Sua presença forte como mulher trans, negra e periférica se impõe em corpo e fala, trazendo energia e performance material para as questões levantadas pelo filme. Na contramão da apatia, dos planos contemplativos e de andanças melancólicas muito já vistos no cinema brasileiro contemporâneo, há aqui a pulsante corrida de Rosa, que a própria câmera parece quase não dar conta de acompanhar, tamanha velocidade. Os “corres” não são apenas desejo de seguir ou fugir, mas como a própria gíria diz, são os enfrentamentos cotidianos; a ideia de que hoje demos um jeito e amanhã teremos de dar outros. A previsibilidade da vida, quase um dogma para a classe média, é uma impossibilidade para os pobres. Há também caminhadas firmes por entre os barracos, que passam a impressão de labirintos sem saída, mas que não são capazes de tirar o vigor da personagem, que luta, resiste, apesar de tantas barreiras físicas e sociais. Somos provocados inclusive pelo jogo metalinguístico entre realidade e ficção, que, em vários momentos, explicita a composição da personagem e pergunta: “Como você acha que deve ser o final dela?” O processo de construção de Rosa acontece enquanto o filme se desenvolve. São chamadas a participar dessa composição as mulheres entrevistadas da Favela da Prainha e também quem assiste ao filme. O que nos leva a refletir que todos nós fazemos parte da construção dessas personagens na nossa realidade social, não somente na ficção; mais que isso, a indignação com o que assistimos torna-se claramente suficiente; dado que se materializa em nada ou quase nada; a empatia, nesse caso, não é capaz de movimentar-se em nenhuma direção; eles, sempre eles, se tornam invisíveis para a sociedade! As entrevistas são o resgate da realidade nesse processo híbrido. As falas das moradoras são seus testemunhos e compartilhamento de experiências. Mas não só. Elas se posicionam, provocam, questionam diretamente o poder que lhes oprime. Elas não estão passivas na condição de entrevistadas, elas tomam o dispositivo para si e falam diretamente com quem assiste. Embora seja essencial que não nos esqueçamos da posição que os realizadores do filme ocupam como mediadores dessa interação. É, verdadeiramente, um soco do estomago!
A INTERSECCIONALIDADE na tela em seu estado da arte!
eu amo esse filme!!! eu amo esses diretores!
alguém pode passar algum link para que mim?