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No início do século XX, após um alegre Natal na família Ekdahl, o pai de um casal de crianças vem a falecer. Deste momento em diante Alexander, o menino, passa a ver o fantasma do pai frequentemente. Tempos depois Emilie, sua mãe, casa-se com um extremamente rígido religioso e as crianças são obrigadas a deixar a casa da avó paterna, onde foram muito felizes, e passam a viver com a família do padrasto de hábitos severos, onde são tratados como prisioneiros. Na casa do padrasto o menino passa a ver o fantasma da primeira esposa dele e suas filhas, que haviam morrido tentando escapar dele. Decorrido algum tempo, a mãe se conscientiza da real personalidade do marido e de quanto seus filhos sofrem naquela casa, assim planeja um modo de tirá-los daquele lugar e levá-los de volta à casa da avó.
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- tinha que ser um arrombado de um religioso pra pegar uma família que já está sofrendo com a perda do pai e deixar eles ainda mais miseráveis
- gritante a diferença dos universos que as crianças acabam presenciando. a casa da familia ekdahl, toda colorida, muita festa, brincadeira, arte e afeto. e a casa do maldito bispo, um lugar frio, cinza e cheio de dor
- adorei como bergman brinca com o realismo mágico, colocando a história no ponto de vista de alexander e fazendo ele ver os fantasmas dos que já foram
- mais uma das obras primas do bergman, esse eu vi que tem muito da própria vida do diretor, que também sofreu nas mãos do pai religioso, mas via no meio das artes uma maneira de felicidade e propósito na vida
- os aspectos técnicos aqui estão irretocáveis, fotografia e figurino deslumbrantes. encantando como ele usa as cores, principalmente o vermelho. todo design de produção é excelente
Fui assistir só sabendo que era o favorito de Bergman, porque remetia à percepção dele sobre seus anos de criação. Assim como o filme, trago uma percepção subjetiva da minha criação.
Logo na primeira parte eu tive uma ligação muito forte com as personagens, me deu vontade de estar com toda a minha família reunida (assim como no filme, costumamos reunir boa parte do pessoal e fazer uma grande festa em alguns natais. As cenas de ti-ti-ti e fofoquinhas, tios bêbados e molecada aprontando também me lembram muito a realidade das nossas festas). Uma verdadeira (e sincera) celebração.
O ambiente é acolhedor e, justamente por isso, parece incentivar a criatividade, a autoconfiança e a relação mútua entre todos que preenchem aquele espaço. A liberdade para serem fiéis às suas essências. Um ambiente dos sonhos (literalmente) para a criação de filhos.
A chegada do clérigo e a mudança brusca na ambientação (e consequentemente dinâmica) de Fanny e Alexander é sentida nos ossos. Paisagem muda, paleta de cores muda, tudo muda. Vemos o desenvolvimento de Alexander progredir (através de outros estímulos) e o trauma continuado da irmã (por estímulos semelhantes). Tudo muito pesado, mas muito fiel. Quem foi criado em um ambiente dotado de religiosidade – e ainda mais fervorosa – sabe bem como é. De qualquer forma, é belíssimo prestigiar a metamorfose de Alexander.
Temos também sequências fantásticas compostas por personagens alegóricas que trabalham como projeção de figuras familiares e referências para abstração infantil a fim de obter entendimentos, à própria maneira de Alexander, sobre seu estado atual e o mundo ao seu redor (dentre as personagens, ênfase na visita de um antigo parente). Passagem fantástica.
Sem estragar o final, é um filme feito para ser contemplado. Carregado de simbolismo, montagem e cenários impecáveis, atuações ótimas e super sensíveis.
Uma verdadeira ode ao conceito (para mim) de família idealizada: aquelas de sistêmica forte, em que a rede sempre permanece amarrada e proporciona um ambiente que fornece o melhor... A oportunidade de ser humano.
Me lembrou muito AMARCORD, do Fellini!
Tive a coragem e o privilégio, de assistir à versão mais longa de Fanny & Alexander, com 5h21min de duração. Essa é a montagem mais fiel ao propósito de Ingmar Bergman. Para o cinema, cortaram cerca de duas horas, e sinceramente: faz diferença. Sim, é muito tempo? É. Mas não é cansativo. Assisti num único dia, totalmente imerso, e quando terminou, senti que poderia continuar naquele universo facilmente.
Bergman nos introduz lentamente ao mundo dos Ekdahl, uma família burguesa sueca do início do século XX (1907-1909), época marcada pelo fim da Era Vitoriana e início da modernização europeia. Esse contexto é importante: o filme conversa com o conflito entre tradição e modernidade, fé e arte, disciplina e liberdade, tensões típicas do período.
Aos poucos, sem pressa e com uma câmera íntima, Bergman nos faz sentir parte daquela casa: rimos com seus excessos, reconhecemos suas contradições, e nos aproximamos emocionalmente dos personagens. É cinema puro e raro, não somos apenas espectadores, somos convidados a entrar na sala, sentar ao lado da família e observá-la respirar.
O diretor explora o existencial como só ele consegue: longas conversas, discussões filosóficas e diálogos que revelam certezas, medos, traumas e desejos profundos. Não há pressa, não há atalhos, Bergman constrói um olhar humano, que mistura poesia, espiritualidade, psicanálise, fantasia e crueldade cotidiana.
O contraste entre dois mundos é brutal: de um lado, a liberdade artística e calorosa dos Ekdahl; do outro, a frieza religiosa do bispo. É como se Bergman colocasse a vida e a morte em confronto. A arte e a repressão. A infância e a perda da inocência.
No final, sobra aquele sentimento raro de que acompanhamos uma vida inteira: infância, família, amor, violência psicológica, luto, memória e imaginação.
É um filme monumental. Uma obra que exige entrega, mas devolve profundidade. Para quem ama cinema existencial, Fanny e Alexander não é apenas um filme é uma experiência.
É muito difícil fazer diálogos parecerem naturais como Bergman normalmente consegue, principalmente quando vemos o pós noite de natal, no qual as pessoas refletem muito sobre o que foram suas vidas e como elas os levaram até aquele ponto.
A presença da religião como um instrumento de opressão em favor do patriarcado também é bastante interessante: Deus só é citado como alguém que vai punir quem foi contra a vontade de quem o cita. Há, ao longo do filme, vários crucifixos nos ambientes mostrados, como que se houvesse alguém vigiando os passos de quem está simplesmente vivendo a própria vida.
Além de tudo isso, a morte me parece o elemento principal. A morte do pai surge por meio dos choros e gritos da mãe no meio da noite, e Fanny e Alexander apenas espiam o que se passa ali por uma greta. Após essa ida do pai, há quem lembre dele como alguém que vaga pelas casas querendo proteger os filhos, há quem o imagine como alguém com quem se pode dialogar sobre a vida, fazendo um balanço dela. Qual é a maneira certa de lidar com a morte?
Por fim, ainda falando sobre a morte, é complexo pensar sobre como uma criança lida com a raiva. Alexander deseja a morte do padrasto, mas quando a consegue, sente certa culpa. Um anjo - aprisionado e andrógino, como se fosse uma arma, um criminoso, um monstro - pode aparecer e matar todos a quem desejamos mal, a questão é: como se lida com esse tipo de morte? Deve-se apagar ou alimentar este fogo?
Pra quem gostou, recomendo Jeanne Dielman. Fala muito bem também sobre aprisionamento e dinâmicas familiares - também ao longo de mais de 3 horas.
Achei bem longo, demorei pra terminar mas tem um bom enredo