A obra de Kinoshita que fascina cada vez mais os interessados pela história do cinema queer japonês, ADEUS À PRIMAVERA (惜春鳥 lê-se 'sekishunchō' e representa uma metáfora de pássaros lamentando o fim dessa estação e da juventude) se tornara uma sessão obrigatória para descobrir como o diretor abordou uma história de grande afeto entre garotos desiludidos com o passar do tempo e a finitude das coisas, sobretudo das relações.
No ano passado, uma exposição na Universidade de Waseda sobre a diversidade sexual no cinema nipônico foi realizada sob a curadoria de Yutaka Kubo, um jovem especialista de Kinoshita que se interessou pela possibilidade do espectador queer de fazer leituras deste filme a partir dos detalhes que escapam à norma e geram identificação com o que não poderia ser representado na época. Apesar dos rumores da sexualidade do próprio diretor, trata-se de um filme que não faz nenhuma referência explícita à homossexualidade.
Críticos japoneses como Ikuko Ishihara e Yuka Kanno estudam os comportamentos destes personagens atípicos e indiferentes ao casamento tradicional que demonstravam grande conforto na companhia de pessoas do mesmo sexo. As teorias de Yuka Kanno sobre uma Noriko lésbica nos filmes do Ozu são o puro deleite. Recomendo a leitura.
Muitas dessas figuras marcaram a era clássica dos estúdios japoneses, alimentando assim um sistema de sexualidade discreta. Todavia fiquei surpreso com as grandes emoções retratadas por Kinoshita em Adeus à Primavera. Concordo com o escritor Hideo Osabe sobre a possibilidade de um amor da parte de Masugi pelo garoto de maior destaque Iwagaki interpretado por Yusuke Kawasu - também brilhante em outros filmes sobre a juventude. O estudioso Yutaka Kubo analisa de maneira reveladora a deficiência física de Masugi e a falta de interesse do mesmo por garotas como uma falha da masculinidade dominante que atormenta o filme e também lhe coloca lágrimas nos olhos diante do fim de uma bela amizade.
Primeiro do Keisuke Kinoshita que assisto. Segundo os rumores, esse era o primeiro filme japonês com elementos de "homoafetividade". Infelizmente, é de uma sutileza enorme, sendo apenas entendido como elementos metafóricos como a própria "primavera" dos jovens. Em contraponto à minha decepção acadêmica, trata-se de um ótimo filme, muito bem conduzido, com locações belíssimas do interior nipônico. Um dos pontos altos é uma tradição folclórica suscitada a qual se apresenta munida de significado dentro da própria história. Trocando em miúdos, uma intertextualidade desse folclore dentro do próprio sentido da obra. Os dezenove samurais da lenda se tornam os cinco amigos ou é a quem eles queriam se tornar, como um dos personagens brinca no começo. Em certo ponto da obra, há uma certa confusão no roteiro, fica difícil diferenciar a quem cada narrativa pertence, mas o elo principal que é a amizade ou a desintegração dela entre os cinco, sempre retoma as rédeas da história colocando-a numa linha. É muito bem quisto o tratamento da constante tensão entre a tradição e o moderno do pós-guerra japonês. Kinoshita brinca muito bem com esse aspecto, até mesmo através do figurino, aonde em certos momentos os personagens se vestem tradicionalmente dentro de casa, mas sempre tem a roupa ocidentalizada para ir a rua. Questões como a proletarização do trabalho e a dicotomia entre trabalho/honra/zaibatsus circunda a história dos jovens indiretamente. Um belíssimo e bem regido coming of age do pós guerra japonês. Muito bom!
A obra de Kinoshita que fascina cada vez mais os interessados pela história do cinema queer japonês, ADEUS À PRIMAVERA (惜春鳥 lê-se 'sekishunchō' e representa uma metáfora de pássaros lamentando o fim dessa estação e da juventude) se tornara uma sessão obrigatória para descobrir como o diretor abordou uma história de grande afeto entre garotos desiludidos com o passar do tempo e a finitude das coisas, sobretudo das relações.
No ano passado, uma exposição na Universidade de Waseda sobre a diversidade sexual no cinema nipônico foi realizada sob a curadoria de Yutaka Kubo, um jovem especialista de Kinoshita que se interessou pela possibilidade do espectador queer de fazer leituras deste filme a partir dos detalhes que escapam à norma e geram identificação com o que não poderia ser representado na época. Apesar dos rumores da sexualidade do próprio diretor, trata-se de um filme que não faz nenhuma referência explícita à homossexualidade.
Críticos japoneses como Ikuko Ishihara e Yuka Kanno estudam os comportamentos destes personagens atípicos e indiferentes ao casamento tradicional que demonstravam grande conforto na companhia de pessoas do mesmo sexo. As teorias de Yuka Kanno sobre uma Noriko lésbica nos filmes do Ozu são o puro deleite. Recomendo a leitura.
Muitas dessas figuras marcaram a era clássica dos estúdios japoneses, alimentando assim um sistema de sexualidade discreta. Todavia fiquei surpreso com as grandes emoções retratadas por Kinoshita em Adeus à Primavera. Concordo com o escritor Hideo Osabe sobre a possibilidade de um amor da parte de Masugi pelo garoto de maior destaque Iwagaki interpretado por Yusuke Kawasu - também brilhante em outros filmes sobre a juventude. O estudioso Yutaka Kubo analisa de maneira reveladora a deficiência física de Masugi e a falta de interesse do mesmo por garotas como uma falha da masculinidade dominante que atormenta o filme e também lhe coloca lágrimas nos olhos diante do fim de uma bela amizade.
Primeiro do Keisuke Kinoshita que assisto. Segundo os rumores, esse era o primeiro filme japonês com elementos de "homoafetividade". Infelizmente, é de uma sutileza enorme, sendo apenas entendido como elementos metafóricos como a própria "primavera" dos jovens. Em contraponto à minha decepção acadêmica, trata-se de um ótimo filme, muito bem conduzido, com locações belíssimas do interior nipônico. Um dos pontos altos é uma tradição folclórica suscitada a qual se apresenta munida de significado dentro da própria história. Trocando em miúdos, uma intertextualidade desse folclore dentro do próprio sentido da obra. Os dezenove samurais da lenda se tornam os cinco amigos ou é a quem eles queriam se tornar, como um dos personagens brinca no começo. Em certo ponto da obra, há uma certa confusão no roteiro, fica difícil diferenciar a quem cada narrativa pertence, mas o elo principal que é a amizade ou a desintegração dela entre os cinco, sempre retoma as rédeas da história colocando-a numa linha. É muito bem quisto o tratamento da constante tensão entre a tradição e o moderno do pós-guerra japonês. Kinoshita brinca muito bem com esse aspecto, até mesmo através do figurino, aonde em certos momentos os personagens se vestem tradicionalmente dentro de casa, mas sempre tem a roupa ocidentalizada para ir a rua. Questões como a proletarização do trabalho e a dicotomia entre trabalho/honra/zaibatsus circunda a história dos jovens indiretamente. Um belíssimo e bem regido coming of age do pós guerra japonês. Muito bom!